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Periferia em nova perspectiva

Publicado em 04 novembro 2011

Agência FAPESP -  A dinâmica social e política da periferia de São Paulo passou por uma transformação completa nas últimas décadas e o eixo do conflito urbano foi deslocado, com a ascensão da criminalidade e a coexistência de diferentes “leis” que regulam a vida social. Essa é uma das conclusões do livro Fronteiras de tensão: política e violência nas periferias de São Paulo, de Gabriel de Santis Feltran, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP, com sede no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), e que é também um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT).

O  livro – publicado em parceria pelo CEM e pela Editora Unesp – sintetiza os resultados da tese de doutorado de Feltran, defendida em 2008 na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O trabalho foi vencedor do prêmio de Melhor Tese de Doutorado em 2009 no Concurso da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs).

O estudo foi fundamentado em uma extensa pesquisa etnográfica realizada no bairro paulistano de Sapopemba, a partir de 2005. Em contato prolongado com os moradores da região, Feltran produziu centenas de páginas de notas de campo, em formato de diário, e transcrições integrais de mais de 40 entrevistas em profundidade feitas com adolescentes e suas famílias, além de associações que os atendem e gestores públicos.

 O pesquisador utilizou também documentação oficial e informal obtida junto a famílias, diferentes associações dos bairros, programas e políticas sociais, além de inúmeras reportagens jornalísticas sobre as periferias da cidade. “O livro interpreta a linha de transformações radicais às quais as periferias da cidade foram submetidas nas últimas quatro décadas. Ao analisar o percurso de tensões desse projeto nas últimas décadas, argumento no livro que o estatuto do conflito social e político ensejado pelas periferias urbanas foi deslocado”, disse à Agência FAPESP.

 Segundo ele, em 1970, por exemplo, os territórios estudados eram colonizados por famílias migrantes e católicas, que ocupavam terrenos ermos, sem estrutura urbana, e que buscavam fazer a ascensão do núcleo familiar pelo trabalho masculino estável e o esforço na educação profissional dos filhos. “O cenário daquela época, bom que se diga, era de baixo desemprego, crescimento econômico, repressão política e promessa de integração social pelo trabalho”, afirmou. “Quarenta anos depois, as periferias da cidade estão consolidadas e suas famílias já não são extensas, nem migrantes, nem tão católicas”, disse.

Após crises graves, a economia e o emprego se recuperam apenas nos últimos anos, enquanto a ditadura foi substituída pela democracia – sem que os moradores da periferia passassem a se sentir “integrados” – e a mulher ingressou definitivamente no mercado de trabalho, transformando a dinâmica familiar. “O pentecostalismo, o ‘mundo do crime’ e as políticas sociais se expandiram enormemente pelos territórios, ao mesmo tempo. A individualização dos projetos faz a ênfase na mobilidade pelo trabalho conviver com a ênfase na ascensão via consumo. Em suma, o mundo urbano, social e político no qual cresce um rapaz das periferias que tem hoje 17 anos, e que portanto nasceu no início dos anos 1990, não tem nada a ver com o mundo que seus avós fundaram na passagem para os anos 1970”, apontou.

 Segundo ele, as periferias, que eram vistas como territórios de moradia de trabalhadores, passaram a ser vistas recentemente como “territórios de bandidos”. “Se antes se apostava na integração dessa massa de trabalhadores, agora espera-se, sobretudo, contê-los”, disse.

Menos jovens mortos

 O livro é composto por narrativas, histórias de pessoas, famílias e organizações que conheceu nas áreas estudadas. “Dessas histórias, relacionadas entre si, é que extraio as análises sociológicas. Nesses temas, não creio ser possível que os trabalhos acadêmicos se isolem das dinâmicas sociais mais corriqueiras”, disse o autor.

 Em contato direto com as periferias paulistanas há cerca de 15 anos, Feltran estuda esses territórios sistematicamente há uma década. O interesse surgiu durante a adolescência, vivida em um bairro de classe média na Zona Oeste da cidade, que fazia fronteira com áreas muito pobres, de um lado, e um vetor de desenvolvimento urbano importante, de outro.

A partir de 2004, Feltran entrou em contato com o Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente “Mônica Paião Trevisan” (Cedeca), em Sapopemba, o que lhe permitiu transitar entre as formas mais capilares da sociabilidade das favelas, as dinâmicas criminais mais cotidianas e as disputas institucionais mais amplas em torno das políticas sociais e de segurança.

Ali, em 2004, ao procurar saber por que o fenômeno dos assassinatos de jovens nas periferias da cidade, até o início dos anos 2000, permanecia silenciado publicamente, Feltran obteve uma resposta surpreendente: já não morriam mais meninos nas favelas do bairro. O fato foi corroborado durante a pesquisa. “Graças ao trabalho em conjunto com muitos colegas, constatamos que isso não estava ocorrendo somente em Sapopemba, mas também nas zonas Sul e Norte da capital, em outras áreas da Zona Leste, da região metropolitana e do interior”, disse Feltran.

 Aos poucos, segundo ele, os pesquisadores envolvidos nesses estudos perceberam que nas periferias de todo o Estado de São Paulo não havia apenas uma lei regulando a vida social, mas várias. “Vimos ali a coexistência de alguns universos morais e valorativos bastante atuantes na prática social, como os religiosos, os estatais e os do ‘mundo do crime’. Este último, sobretudo, e ao contrário do que se pode imaginar, atuava incisivamente na redução dos homicídios nos anos 2000, por meio de dispositivos de gestão implementados de modo capilar desde a presença hegemônica do Primeiro Comando da Capital (PCC) nas localidades. Essa talvez tenha sido a principal surpresa da pesquisa”, afirmou.

Outra conclusão, segundo Feltran, é que as periferias e favelas de São Paulo não são, como muitos imaginam, semelhantes às que se veem em filmes como Cidade de Deus ou Tropa de Elite. Não há, por exemplo, jovens armados nas esquinas, nem a banalização do uso da violência. “Desde a emergência do PCC como grande regulador do ‘mundo do crime’ tanto nas cadeias quanto nas periferias da cidade, o uso da força e, sobretudo, da força letal, é controlado estritamente nas periferias de São Paulo. Não se pode mais matar, como se matava, sem aval de um integrante do Comando. Estudamos isso profundamente nos últimos anos, eu e uma série de colegas”, disse.

Grupos de pesquisadores da área, segundo Feltran, têm demonstrado também que a regulação do PCC se fortalece com o tipo de política de segurança implementada no estado nas últimas décadas, e que esta regulação da facção é a principal responsável pela queda marcante das taxas de homicídio nas periferias do Estado de São Paulo.

Fonte: Mercado Ético