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Unesp Ciência

Perfil: José Arana Varela

Publicado em 11 junho 2012

A corrida espacial mexeu com os corações de muitos jovens nos anos 1960. Yuri Gagarin, o soviético que disse “a Terra é azul”, foi o ícone de uma geração que hoje está na casa dos 60, 70 anos. José Arana Varela, professor do Instituto de Química da Unesp em Araraquara e diretor-presidente da Fapesp desde fevereiro, faz parte dessa geração. Na época, ele era apenas um rapaz interiorano que veio com a cara e a coragem para São Paulo e teria estudado engenharia se os mistérios do Universo não tivessem falado mais alto, levando-o a se formar em física.

Mas como geralmente são tortos os caminhos dos que são ao mesmo tempo curiosos e criativos, no fim ele se viu encantado pela concretude da matéria e seguiu a trilha das ciências dos materiais. E talvez porque começou a trabalhar cedo, achou fácil um jeito de levar a ciência de ponta ao chão de fábrica. Hoje, aos 68 anos, Varela é uma das principais cabeças que pensam a inovação científica e tecnológica no país.

Nascido em Martinópolis, pequena cidade do oeste paulista (hoje com 24 mil habitantes), filho de um pequeno produtor de algodão, seu primeiro trabalho foi aos 12 anos como engraxate. Não que a família passasse por dificuldades financeiras. “A gente só queria ter o próprio dinheirinho para comprar figurinha”, recorda.

Anos depois, quando o garoto vai para a vizinha Presidente Prudente para fazer o científico, que hoje equivale ao segundo ciclo do ensino fundamental, os negócios do pai já estão arruinados por uma crise no mercado internacional e sustentar-se passa a ser um imperativo.

Antes de se mudar para casa de parentes em São Paulo, com o objetivo de fazer um colegial (ensino médio) “mais forte”, de olho no vestibular da USP, trabalhou como balconista e escriturário em Prudente. Na capital, conseguiu um emprego na empresa Aços Vilares, onde ficou dois anos e começou a flertar com os materiais. “Eu ajudava a controlar o estoque e queria saber como se usavam aquelas coisas. Então perguntava ‘Para que serve esse molibdênio?’.”

Varela entrou no curso de física da USP em 1965, período noturno, e no ano seguinte estava ensinando a disciplina para alunos de colegial de uma escola pública. Sentiu-se tão bem como professor que, depois de formado, fez uma especialização em ensino de física, novidade na época. Em 1969, voltou para Presidente Prudente para ser docente pela Faculdade de Ciência e Tecnologia (FCT), que sete anos depois seria incorporada à Unesp.

Cozinhando a matéria

Depois veio um mestrado no ITA (Instituto de Tecnologia Aeronáutica), um doutorado na Universidade de Washington e um pós-doutorado na Pensilvânia. Sempre na área de ciências dos materiais, mais especificamente dos materiais cerâmicos, que geralmente são óxidos metálicos com mil e uma utilidades na engenharia – aquela da qual ele havia desistido por causa de Yuri Gagarin.

Varela tornou-se especialista em processos de sinterização, que, grosso modo, consistem no “cozimento” desses materiais de modo a alterar seus arranjos moleculares e, consequentemente, suas propriedades físicas. Hoje essa área de pesquisa está sob o grande guarda-chuva da  nanotecnologia.

Em 1983, deixou sua base em Presidente Prudente, transferindo--se para o Instituto de Química da Unesp em Araraquara. Na vizinha Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) estava o químico Elson Longo (hoje na Unesp em Araraquara), de quem é amigo desde a infância em Prudente. São 58 anos de uma amizade que rendeu e continua rendendo muitos dividendos científicos e tecnológicos tanto para a Unesp quanto para a UFSCar, graças à habilidade dos dois de entender os desafios de produção da iniciativa privada e resolvê-los por meio da pesquisa científica.

Empresas como Usiminas, CSN, White Martins e CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração) são parceiras de longa data do Liec (Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica, compartilhado entre Unesp e UFSCar), grupo que a dupla Varela-Longo criou no fim dos anos 1980, e cujo prédio de 800 m2 foi construído em São Carlos com recursos da CBMM e da CSN.

Desde 2000, o Liec atende também pelo nome de Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC) e faz parte de um projeto estratégico da Fapesp lançado em 1998, os Cepid (Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão), que injetou a palavra inovação no debate sobre política científica no Brasil.

Iniciativa de Varela e Longo, o CMDMC reúne pesquisadores da Unesp, da UFSCar, da USP de São Carlos, do Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares) e do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas).

O êxito como pesquisador em Araraquara levou Varela a ser pró-reitor de Pesquisa da Unesp na gestão do reitor Marcos Macari (2005-2008). Foi quando recebeu a missão de criar um Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) na universidade. Os NITs foram previstos na Lei de Inovação Tecnológica, de 2004, para proteger o conhecimento gerado pelos pesquisadores e estimular a inovação. Para Varela, porém, a forma como esses núcleos foram originalmente pensados fazia deles estruturas muito passivas. “Eu percebi que a universidade não estava preparada para isso, tínhamos que ser mais ativos”, diz. Nasceu assim a Agência Unesp de Inovação (Auin), em 2009, sediada no câmpus de São Paulo.

O debate sobre inovação cresceu muito nos últimos quinze anos e hoje é visto como um ponto-chave da agenda nacional de ciência e tecnologia. O governo federal criou marcos regulatórios para dinamizar a relação entre universidade e empresas – como a Lei de Inovação (2004) e a Lei do Bem (2006). Fapesp, CNPq e Finep abriram programas específicos de fomento.

No entanto, avanços concretos ainda são tímidos se comparados aos de outros países emergentes, como China e Índia. Mas isso não abala o otimismo de Varela. “Houve uma evolução nas universidades no que diz respeito à cultura da inovação”, afirma. Cada vez mais os pesquisadores se dão conta de que só publicar artigos não é suficiente, é preciso transformar o conhecimento em riqueza, explica. “Tem de ter visão crítica, não precisa ser necessariamente um empreendedor”, defende ele, que relativiza a importância das patentes.

Para Varela, o patenteamento não deve ser visto como um fim, mas como um meio de proteger o conhecimento gerado na universidade. “É preciso facilitar o uso desse conhecimento pelos empreendedores, que são as empresas”, enfatiza.

Em relação aos marcos regulatórios, sem dúvida houve progressos, mas melhorias pontuais são necessárias, na opinião do pesquisador. Ele cita como exemplo o fato de a legislação atual obrigar a universidade a licenciar suas patentes por meio de licitação, o que amarra o processo de inovação. “O ideal”, diz, “é que a empresa financie a pesquisa desde suas fases iniciais, que ela participe do desenvolvimento do produto.” O problema é que esse empreendedor se vê desestimulado a investir porque futuramente parte da patente, a que pertence à universidade, pode ir parar na mão de um competidor.

É do lado da iniciativa privada que o processo de inovação encontra maiores dificuldades  atualmente, na visão de Varela. E não é só um problema cultural, tem a ver também com a conjuntura econômica. “Estamos passando por um momento crítico de desindustrialização no país”, lembra ele, referindo-se ao esfriamento da produção industrial, motivada, entre outros fatores, por valorização do real e alta oneração fiscal , o que resulta em baixa competitividade frente aos importados“Os empresários se queixam do ‘custo--Brasil’, e com razão”, diz. “É um fator que desfavorece o investimento em inovação, que é sempre uma aposta de risco.” Somase a isso a dificuldade de calcular, antes e até mesmo durante o desenvolvimento do produto, quanto ele vai custar ao consumidor, o que Varela aponta como um dos pontos críticos dos projetos submetidos ao Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE). “É bastante difícil saber quanto vai custar esse produto na linha de produção, se ele vai conseguir competir no mercado.” É por isso que muitos empresários ainda preferem investir na melhoria de um produto já existente, em vez de criar um novo, explica ele.

O fracasso ensina

Como diretor-presidente da Fapesp, Varela vê como seu principal desafio ajudar a instituição a aperfeiçoar o sistema estadual de inovação científica e tecnológica. Uma das coisas que precisam mudar, segundo ele, também diz respeito à cultura, mas desta vez dos financiadores. Trata-se da forma como, no Brasil, os empreendedores que fracassam num projeto de inovação são estigmatizados pelos investidores, sejam eles públicos, como as agências estatais de fomento, sejam privados, como os fundos de capitais de risco. “Nos Estados Unidos é o contrário”, explica. “Lá, o sujeito que fracassa uma vez não é visto como perdedor, mas como experiente, como alguém que tem mais chance ter sucesso na próxima vez, porque dificilmente vai cometer os mesmos erros.” Aqui as fontes de financiamento costumam secar para quem não acertou logo de primeira. “Existem dados de outros países mostrando que é na terceira ou quarta tentativa que o empreendedor tem mais chance de emplacar um produto inovador”, destaca o pesquisador.

Talvez o que ainda falte a nós brasileiros é entender que inovação não é para os ansiosos, que, como tudo que pode fazer um país alcançar um novo patamar de desenvolvimento econômico e humano, deve ser conduzida pelas mãos daqueles que sabem perseverar. Varela é um deles.

O que dizem sobre Jose Arana Varela

Celso Lafer

Presidente da Fapesp

Ele tem uma vasta folha de serviços dedicados à ampliação do conhecimento. Acompanhei com atenção sua atuação na Agência Unesp de Inovação. Sei do seu papel fundamental no Cepid de Araraquara. Varela é um estudioso que se empenha tanto no avanço do conhecimento quanto na sua aplicação, característica importante para a função que acaba de assumir na Fapesp.

Sidiney Nascimento

Gerente de processos da metalúrgia da CSN

Começamos a interagir com ele e o Elson Longo em 1989. O que mais impressionou foi a rapidez deles na análise das informações e geração de resultados, o que não é comum no meio acadêmico. O mundo é cruel com quem não tem resultado financeiro rápido, e eles entenderam isso. Creio que nossa cooperação científica e tecnológica esteja entre as mais longas que existem envolvendo indústria e universidade.

Vanderlan Bolzani

Professora da Unesp em Araraquara e diretora da Agência Unesp de Inovação

Conheço-o desde 1982, mas nos aproximamos durante o mandato dele como Pró-reitor de Pesquisa da Unesp (2004-2008). Sinto-me honrada de ter trabalhado ao lado dele na criação da Agência Unesp de Inovação. Unindo forças e ousadia, assentamos os primeiros tijolos da agência, que hoje é uma referência. Convicto de que educação de qualidade é essencial para o desenvolvimento científico e tecnológico, ele tem dado uma enorme contribuição à ciência que se faz hoje em São Paulo e no Brasil.