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Correio Popular

Perfil de pobreza muda com região

Publicado em 14 junho 2009

As famílias da dona de casa Silvia Regina Rosa Valentim, de 56 anos, e do caminhoneiro José Oliveira de Melo, de 49, possuem rendas semelhantes. No entanto, as condições antagônicas de vida a que estão submetidas tornam a pobreza mais acentuada para uma do que para outra. Silvia mora no bairro Gênesis e Melo no Jardim Satélite Íris 1, ambos núcleos residenciais de Campinas nascidos de uma invasão, só que o primeiro é mais próximo do Centro e, portanto, mais beneficiado pelos equipamentos públicos, enquanto o segundo sofre com a ausência do Estado.

Uma pesquisa do Núcleo de Estudos Populacionais (Nepo) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) levantou os principais pontos que possibilitam enxergar a heterogeneidade da pobreza no tecido urbano na Região Metropolitana de Campinas (RMC). “Julgamos insuficiente medir o estrato social considerando somente o quanto a pessoa tem no bolso. Estamos buscando, com essa pesquisa, formas de melhor qualificar a pobreza urbana e as condições de vida da população”, disse o professor José Marcos Pinto da Cunha, pesquisador do Nepo e coordenador do projeto temático Vulnerabilidade da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

As melhores formas de qualificação, segundo Cunha, baseiam-se no conceito de vulnerabilidade, que leva em conta a capacidade de uma pessoa ou família para responder a certos riscos enfrentados no dia a dia. Esses riscos decorrem da existência, ausência ou escassez de oportunidades socioeconômicas, tais como infraestrutura e densidade domiciliar, qualidade da habitação, situação de posse do domicílio, nível de escolaridade, acesso a serviços, acesso ao mercado de trabalho formal etc. No caso das famílias, Silvia confirmou a tendência. “Aqui (no Gênesis) a pobreza é menor do que no Satélite Íris. Não saio daqui para ir para lá”, disse. Já no caso da família de Melo, a indignação da pobreza é mais visível no abrir das portas. “Dá vontade de mudar quando a gente vê a rua sem asfalto, sem coleta de esgoto, sem tudo”, disse uma das filhas, a estudante Solange Marques de Melo, de 28 anos.

Estatística

A pesquisa não verificou a heterogeneidade da pobreza por municípios, mas sim inserida dentro da RMC. As informações foram levantadas em 1.680 domicílios distribuídos nas 19 cidades da região. Por meio de análises estatísticas, os pesquisadores do Nepo determinaram quatro zonas de vulnerabilidade (ZV), onde as pessoas domiciliadas estão mais ou menos vulneráveis. No caso da RMC, as ZV 1 e 2 são as mais periféricas e mais empobrecidas, e as ZV 3 e 4 representam um anel intermediário e central. Dentro desse contexto, algumas regiões de Campinas, Hortolândia, Monte Mor e Sumaré se mostram mais pobres do que outras. “Porém, há de se considerar que Campinas é o centro dessa região conurbada, em pleno desenvolvimento”, ponderou Cunha.

Na ZV 1, por exemplo, apenas 52,4% dos entrevistados afirmaram haver guias e sarjetas no bairro onde moram. A situação é praticamente a mesma com relação a calçada e pavimentação em boas condições. A única coisa que difere é iluminação pública. Dos entrevistados na área mais crítica, 99,3% afirmaram contar com o benefício. Um dos dados mais preocupantes foi com relação à regularidade das casas onde moram. Segundo a pesquisa, apenas 27,8% dos moradores da ZV 1 possuem escritura definitiva. Os demais vivem sem a posse legalizada. A análise da qualidade das casas, por exemplo, revelou que 78,4% das moradias nas zonas mais críticas têm a parede interna revestida. No caso da parede externa, o percentual cai para 59,1%.

A situação do saneamento básico foi outro ponto averiguado na pesquisa. Apenas 59,3% das moradias na zona 1 têm esgoto ligado à rede coletora. Mas um número que surpreendeu o pesquisador foi da coleta de lixo. Num todo, envolvendo as quatro zonas, apenas 40% dos entrevistados afirmaram contar com a coleta diária de lixo. “É muito baixo. Imagina você ficar armazenando lixo na sua casa à espera dos coletores. Lixo é uma questão importante e que deveria ser coletado diariamente”, afirmou Cunha. Outro ponto foi o fornecimento de água. Quase todos têm, porém o fornecimento não é continuado. “Isso foi notado principalmente em Sumaré. As pessoas têm ligação de água, só que o bem só chega de dois em dois dias, durante a madrugada.”

Outro ponto deficitário notado pelo levantamento foi a distância dos equipamentos públicos. Para acessar um ponto de ônibus, por exemplo, 97,3% dos entrevistados na ZV 1 afirmaram caminhar por mais de dez minutos para pegar o transporte. No caso de atendimento de saúde, o percentual caiu para 49,6%, enquanto para escola foi fixado em 58%.

‘Aqui falta tudo’, diz moradora do Satélite Íris

A única semelhança entre os bairros Gênesis e Satélite Íris 1, além de terem surgido após invasões, é que ainda não têm asfalto. “Aqui falta tudo. Falta rede de esgoto, regularização, transporte coletivo, posto de saúde, enfim, qualidade de vida”, disse a doméstica Maria Marques de Melo, de 49 anos, esposa de José Oliveira de Melo. Também questionada sobre o quem vem na cabeça quando abre a porta de casa e se depara com o bairro, Maria contou que o local e todo o entorno poderiam ser melhores. “Se tudo tivesse organizado, arrumadinho, seria bom, porque aqui é um lugar gostoso de morar.”

A filha do casal, Solange, contou que para chegar ao trabalho precisa caminhar rápido por cerca de 20 minutos até o ponto de ônibus mais próximo para, depois, seguir viagem por mais 40 minutos. “Às vezes, tenho vontade de comprar um carro para facilitar, mas a ideia não segue adiante porque penso na rua sem asfalto, no esgoto a céu aberto e em tantas outras coisas que nosso bairro tem e que deveria ser diferente.” Ela contou que a família mora no local há cerca de 20 anos e, desde então, luta pela regularização do imóvel. “Passamos muita necessidade e lutamos bastante para chegar até aqui e ter nossa casa. Queria mudar para um bairro melhor, mas gostamos daqui e vamos lutar para ter nossos direitos garantidos”, disse. (VBF/AAN)

SAIBA MAIS: Quem são os entrevistados na pesquisa

40,9% dos residentes entrevistados nasceram no próprio município onde moram

5,4% nasceram em Campinas

4,5% nasceram em outra cidade da região

23,5% nasceram em outra cidade do Estado

25,7% nasceram fora do Estado de São Paulo

O NÚMERO

61% DO CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO DA RMC

Corresponderam a movimentos migratórios durante a década de 90

Resultado pode nortear iniciativas do poder público

O sumário de dados com o retrato das dimensões sociodemográficas da RMC, resultado da pesquisa, poderá ser utilizado por planejadores regionais e sociedade civil. “Apenas começamos a interpretar as informações, mas optamos por divulgá-las, ao invés de guardá-las. O sumário, apesar de descritivo, representa um primeiro olhar da nossa equipe sobre os dados e um meio rápido de compartilhá-los com a comunidade. Já apresentamos o trabalho na Baixada Santista e ele despertou grande interesse”, disse o pesquisador José Marcos Pinto da Cunha.

O estudo está dividido em oito módulos: características do domicílio e seu entorno; características sociodemográficas gerais; trabalho e rendimentos; mobilidade espacial; família e comunidade; ambiente, riscos e perigos; condições e acesso a serviços de saúde, e sistema educacional e o contexto familiar. A maioria dos 19 municípios da RMC já demonstraram interesse no estudo. Campinas, Hortolândia e Sumaré, citadas como sede das zonas mais críticas, até já iniciaram medidas para combater a desigualdade.

Em Sumaré, por exemplo, a Prefeitura iniciou um mutirão para regularização de imóveis construídos em áreas públicas. De acordo com a assessoria de imprensa, o município possui cerca de 80 áreas que necessitam de algum tipo de regularização fundiária. Em março, a Administração do prefeito José Antonio Bacchim (PT) conseguiu a regularização de 170 lotes na região do bairro Luiz Cia. Os lotes foram vendidos pelos ocupantes, que agora pagam o imóvel em prestações. Atualmente, está em andamento o processo para regularizar três áreas — Davina, Vitória e Conceição — por meio do Ministério das Cidades. A verba a ser liberada poderá chegar a R$ 5 milhões.

Em Campinas, as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, estão amenizando os problemas urbanísticos em favelas. No bairro Gênesis, por exemplo, além das obras de saneamento básico, o Ribeirão Anhumas passa por processo de desassoreamento. Ao final, o bairro ganhará até outro nome: Residencial Parque Anhumas. A Prefeitura também tem um programa de regularização de imóveis. Atualmente, segundo levantamento da Secretaria Municipal de Habitação, 40% da população vive em situação irregular. A assessoria de imprensa da Prefeitura de Hortolândia não se manifestou. (VBF/AAN)