O volume de água produzido pelo DAE e que é perdido na rede de distribuição, principalmente devido a vazamentos, é superior à média nacional. De acordo com o Ranking do Saneamento 2023, elaborado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, Bauru desperdiçou, em 2021, 47,71% do montante captado, sendo que o indicador médio nacional ficou em 36,51%.
Trata-se de uma estatística que traz reflexão neste 22 de março, Dia Mundial da Água, sobre a necessidade de investimentos mais robustos para combater este crônico problema. O levantamento considerou dados dos 100 maiores municípios brasileiros e os melhores colocados foram Nova Iguaçu (RJ), com 7,9%; Santos (SP), com 15,94%; e Taboão da Serra (SP), com 17,42%, que registraram índices bem inferiores a Bauru. E apenas 29 cidades alcançaram níveis menores que 25%, considerados adequados.
Já o Indicador de Perdas Volumétricas revelou que Bauru desperdiçou 474,88 litros de água por ligação de rede ao dia em 2021, enquanto o índice médio foi de 461,96, mais que o dobro do patamar considerado ótimo, de 216 L/ligação/dia.
Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do projeto Soluções Integradas Para Cidades Resilientes (Sacre), da instituição de ensino, Ricardo Hirata avalia que municípios modernos, além de planejarem a produção e boa distribuição de água, também precisam encontrar soluções a fim de reduzir perdas. Ele explica que, no passado, políticas de saneamento foram implementadas no País, resultando em uma alta cobertura de rede de água e esgoto no Estado.
INVESTIMENTO
Porém, com o passar das décadas, estes investimentos foram diminuindo. "Significa que aquelas estruturas que nos serviram bem no passado não receberam manutenção e, agora, registram perdas altas de água, como é o caso de Bauru. O valor deste bem está aumentando, frente à sua indisponibilidade em vários lugares, então, vale a pena investir seriamente na manutenção da rede para diminuir as perdas, em vez de aumentar demasiadamente a produção", avalia.
Trata-se de uma estratégia, segundo ele, não apenas voltada ao bem-estar da população, mas também em prol dos cofres públicos e do meio ambiente. "O retorno do investimento, em médio prazo, é vantajoso, porque os custos envolvidos, não apenas de capital, mas também ambientais, pesam muito. Tirar água de rios e aquíferos traz impactos", pontua.
Por meio de nota, o DAE informou que o índice de 47,71% corresponde a vazamentos em ruas e calçadas, ramais e cavaletes, além de ligações clandestinas de água. Acrescentou, ainda, que o Serviço de Controle de Perdas da autarquia executa ações, como a substituição de hidrômetros e obras de setorização nos bairros, para diminuir o percentual.
‘As águas do Guarani têm mais de 100 mil anos’, diz pesquisador
De acordo com o professor e pesquisador Ricardo Hirata, as águas do Aquífero Guarani sob Bauru, e que abastecem a maior parte da cidade, possuem, provavelmente, mais de 100 mil anos. E, como a reposição é lenta, os níveis estão sofrendo declínio ao longo do tempo.
"As águas deste aquífero se infiltram em Botucatu e caminham de forma extremamente lenta em direção a Bauru. Esta demora ajuda a purificar a água, porque os contaminantes se degradam nos primeiros quilômetros, e chega em Bauru com excelente qualidade", descreve.
Para monitorar e levantar dados sobre a disponibilidade hídrica desta fonte de abastecimento, bem como do Aquífero Bauru, que leva água para cerca de 500 poços privados da cidade, e do Rio Batalha, foi criado o projeto Sacre.. A pesquisa conta com financiamento da Fapesp e convênio com a prefeitura e terá duração de cinco a seis anos, com a participação, já neste primeiro, de 27 alunos, entre doutorandos, pós-doutorandos, mestrandos e estudantes de iniciação científica e mais 40 profissionais.
"Precisamos saber se este declínio é um problema permanente ou de adaptação do aquífero frente a sua exploração. E queremos saber se esta queda pode ser reduzida ou mesmo estabilizada", diz Hirata, que está, nesta semana, representando a USP no United Nations 2023 Water Conference (Conferência das Nações Unidas sobre Água), em Nova Iorque (EUA).
Outra resposta que o estudo irá buscar será se, como e quanto o Aquífero Bauru, posicionado acima do Guarani, poderá contribuir, por meio dos poços privados, para suprir as necessidades da cidade, especialmente durante os períodos de estiagem. Trata-se de uma fonte contaminada por vazamentos de esgoto que se infiltram no solo em uma grande extensão. Porém, por algum motivo, que também será investigado pelo projeto, sua porção inferior (fundo) não tem contato com rejeitos.