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Pequi, o fruto do Cerrado que pode prevenir um câncer

Publicado em 18 janeiro 2018

Por Lúcia Helena

Repare: basta surgir um novo estudo no pedaço sobre qualquer “_berry_” e o povo todo, guloso por saúde, cai de boca. É um tal de _goji_ pra cá, _cranberries _pra lá e, graças à boa fama, essas frutinhas vindas lá do outro lado do planeta, ou seja, de longe pra dedéu, provavelmente agorinha mesmo estão no mercado mais próximo de você. Bacana. Afinal, elas têm lá o seu valor.

Só fico encafifada pensando por que as pesquisas sobre os frutos nativos brasileiros não despertam esse mesmo apetite. As investigações da ciência sobre o pequi, por exemplo, têm resultados espantosos e é sobre um deles que quero falar — mas, lamento, eu não encontro pequi na esquina de casa. Bem, você talvez nem lamentasse. Afinal, já experimentou pequi?

O que para uns é perfume, para outros é quase um fedor. E nem dá para disfarçar. Se entra na receita  — na culinária do Centro-Oeste, o pequi costuma ir no arroz ou no frango—, pronto, ele logo domina. Espalha por todo o prato e sem pedir licença o amarelo-ouro de sua polpa carnuda. O aroma, então, explode na primeira garfada. E fica. Ah, fica… Cheio de fibras e óleo, ácidos graxos ômega dos bons, a iguaria ainda por cima pode dar uma dor de barriga em turistas mais entusiasmados.

Na hora agá de encarar o pequi, gente  — como direi?— dona de uma coragem tímida vai só arranhando a polpa com a faca. Nem arrisca levar o caroço para perto dos lábios. Já os ousados esnobam e usam os dentes para raspar a carne. Isso, sim, é coisa de entendedor. Os espinhos nas redondezas da semente branca não estão ali pra brincadeira. Feito farpas microscópicas, eles se agrupam em mais de dez por milímetro quadrado — faz ideia do estrago que é morder um pequi? Algo como abocanhar um ouriço-do-mar. Aliás, os índios tupis passaram o recado e a gente é que não entendeu sua língua: pequi quer dizer “pele com espinhos”.

Por essas e por outras, o fruto do pequizeiro — uma árvore tortuosa que pode alcançar 10 metros — nasce para ser amado ou odiado. Não tem meio-termo. Melhor, não tinha, até eu conversar para este blog com a bióloga mato-grossense Simone Morais Palmeira, que faz seu doutorado na Universidade de São Paulo justamente para entender como se dá a ação do pequi na prevenção do câncer — e, logo para ela, o pequi é … ok. Quer dizer, deixa eu ser clara: à mesa. No laboratório, a história é bem diferente, é a sua paixão. E ela brotou há alguns anos.

Em 2012, a bióloga resolveu estudar o potencial do pequi contra tumores de fígado, em um trabalho realizado com o apoio da Fapesp e a colaboração de outros cientistas, como o seu professor Francisco Hernandez Blazquez — um espanhol, diga-se, fascinado com o sabor desse ouro do Cerrado.

A escolha do fruto foi inspirada nas investigações que somam duas décadas de outro biólogo e colaborador, César Grisolia, da Universidade de Brasília. Ele já demonstrou que o óleo do pequi ajuda a reduzir o colesterol e possui uma capacidade antiinflamatória de respeito. Há achados de seus efeitos sobre o lúpus, o diabete e até mesmo na diminuição de lesões em atletas. Simone, no entanto, queria focar no câncer. E não desejava se debruçar sobre outras espécies brasileiríssimas porque, apesar de promissoras, elas nem sempre estão presentes na dieta da população. O pequi, ao menos, vive nas cozinhas da região Centro-Oeste.

A experiência  foi realizada em camundongos com determinadas lesões no fígado que costumam anteceder o aparecimento de um câncer. Os animais passaram 25 semanas ingerindo, além da alimentação normal, o óleo do pequi. e esse regime especial provocou uma redução de 51%  desses pré-tumores. De fato, não caiu apenas a quantidade — a ponto de o fígado dos bichinhos voltar a ter uma aparência normal. Mais do que isso, Simone percebeu que as lesões restantes, com o tempo, íam diminuindo de volume, considerando a altura, a largura e a profundidade de cada uma delas. Ou seja, é prova mais do que contundente de um efeito preventivo.

O pequi tem uma quantidade absurda de vitaminas, minerais e outras tantas substâncias antioxidantes — entre eles, os carotenoides que lhe dão cor . Mas ninguém pretende se conformar com essa explicação. Ora, outros frutos também oferecem um bocado de antioxidantes, não é mesmo? Como será que, na intimidade das células, os componentes do pequi agiriam? É a resposta que Simone Palmeira segue buscando hoje em dia.

Outra questão que pode passar por sua cabeça é se a ação preventiva valeria apenas para o fígado.  Por uma série de características, as células hepáticas são uma das mais fáceis de analisar quando um cientista quer entender como nasce um tumor — ou, como no caso, o que o impediria de nascer. Mas pode ser que, lá adiante, o efeito preventivo seja observado em outros tipos da doença.

E, para quem não aprecia o fruto, atualmente há o óleo em forma de cápsulas. No entanto, se eu fosse você, primeiro daria uma chance ao sabor intenso do pequi. Até para valorizar o bioma brasileiro que, de longe, corre o maior risco de desaparecer do mapa — sim, ganha da Amazônia nesse ranking devastador. Só nos últimos dez anos, foi desmatada uma área de Cerrado maior do que um Estado do Rio de Janeiro inteiro. Vai saber quantas possibilidades incríveis — como as de prevenir e curar doenças — nós derrubamos junto.