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Pequi e leite de babaçu viram leite em pó

Publicado em 18 novembro 2013

Maranhense da região de Mata de Cocais - localizada entre a zona de transição dos biomas da Amazônia e da caatinga dos estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Tocantins e Pará, no Norte do Brasil - a engenheira de alimentos e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Audirene Amorim Santana sempre se sentiu incomodada com o desperdício das pessoas de vários frutos típicos daquela região, entre eles o babaçu e o pequi. Alimentos ricos em propriedades nutricionais, além de atuarem na prevenção de várias doenças, são consumidos tradicionalmente por milhares de pessoas, só que apenas por quatro meses do ano, quando se dá a frutificação. Depois disso, a única saída é esperar a próxima safra.

Foi pensando no maior aproveitamento desses produtos, que também sempre estiveram presentes na mesa da sua família, que Audirene Santana, quando ainda estudante da Unicamp, resolveu desenvolver uma tecnologia para equacionar a questão. Levou a ideia ao seu orientador de doutorado, o professor Kil Jin Park, do Departamento de Pré-Processamento de Produtos Agropecuários, e como resultado, depois de um tempo de dedicação à pesquisa, conseguiu obter leite em pó retirado da polpas do pequi e do leite do babaçu. Seu maior desafio foi trabalhar com esses produtos no interior de São Paulo, onde poucas pessoas os conheciam. Mas o resultado não poderia ter sido mais animador: "Esses alimentos conservaram em torno de 80% das propriedades nutricionais. Isso significa que, apesar de serem secos, conseguiram manter as propriedades que oferecem benefícios ao serem consumidos", conta a pesquisadora.

Equipamento usado pela pesquisadora para secar os frutos por aspersão

Depois de processar o pequi, a composição físico-química apresentou valores de 53,33% de umidade, 5,08% de proteínas, 30,66% de lipídeos e 18, 37% de fibras, resultados parecidos com os encontrados na literatura. Já em relação ao leite do babaçu, os resultados também coincidiram com os pesquisados na literatura: 78,31% de umidade, 2% de proteínas, 18,97% de lipídeos, 2,61% para açúcares redutores, e 3,65% para açúcares totais.

Tanto a polpa do pequi como o leite do babaçu foram transformadas em pó por meio do processo de secagem por aspersão, também conhecido como fluidização, nebulização ou spray drying. Para manter o máximo das qualidades nutricionais dos frutos, a professora utilizou carboidratos como microencapsulantes, com o objetivo de fixar a molécula dos frutos no pó. Ela usou três agentes: goma arábica, maltodextrina e dextrina. "Os encapsulantes usados ajudam a manter as moléculas do pequi e do leite de babaçu, garantindo suas características nutricionais", cita.

Os dados integraram a tese de doutorado de Audirene, graduada pela Universidade Federal do Tocantins, defendida há alguns meses no programa de Pós-Graduação da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp. Além do professor Kil Jin, como orientador, Audirene contou com a co-orientação da professora Louise Emy Kurozawa, da Universidade Estadual de Londrina, no Norte do Paraná, e ex-pesquisadora da Unicamp. Para levar adiante as pesquisas, a engenheira de alimentos conseguiu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e ajuda de pesquisadores e técnicos das faculdades de Engenharia Química(FEQ), e de Alimentos (FEA), ambas da Unicamp, e ainda do Instituto de Tecnologia de Alimentos de Campinas (Ital).

 

Babaçu e pequi, depois do processo, transformados em espécie de farinha

O fato de as pessoas de sua região, na Mata dos Cocais, onde o pequi e o babaçu continuam abundantes, terem gostado do resultado do trabalho deixou Audirene muito recompensada. "A repercussão foi muito boa, ainda mais porque o leite em pó do pequi e do babaçu podem ser consumidos sendo adicionados diretamente aos alimentos, ou então no seu preparo." A possibilidade em curto e médio prazo de o leite em pó do pequi e do babaçu serem produzidos numa escala maior, para ser comercializado existe e Audirene espera que haja interesse de alguma indústria se interessar pelo projeto.

"Nesse trabalho, avaliei também a vida dos pós na prateleira e em quatro meses eles mantiveram as propriedades em torno de 80%. Porém, acredito que seja possível prolongar essas propriedades por mais tempo, pois na pesquisa utilizamos os pontos mais extremos de conservação", acrescenta Audirene Santana. Como próximo projeto, a pesquisadora, que vive em Campinas, começa a trabalhar com a polpa da juçara, fruta da família do açaí, e também rica em propriedades antioxidantes.