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Revista Pack

Pequenas partículas, grandes efeitos

Publicado em 01 agosto 2005

As novas descobertas do mundo nanotecnológico prometem revolucionar e promover o desenvolvimento da indústria brasileira
Imaginem plásticos biodegradáveis produzidos por bactérias que evitam a poluição do meio ambiente; revestimentos de garrafas muito mais resistentes e leves; e embalagens inteligentes capazes de bloquear o oxigênio, o dióxido de carbono e a umidade para que não atinjam as bebidas e os alimentos. E, que tal ainda, os sensores que detectam patógenos nos alimentos e provocam a alteração na cor das embalagens, alertando o consumidor que o produto não é indicado para o consumo? Essa é a nova realidade do mundo plástico, resultado da crescente capacidade de manipulação de átomos e de moléculas, com amplas possibilidades de descobertas nas áreas de novos materiais, novas ligas e no desenvolvimento de novos processos industriais e produtos de consumo. O presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), Merheg Cachum, afirma que: "Tendo em vista a importância da nanotecnologia para o setor plástico, a entidade apoiou institucionalmente a Nanotec Expo 2005 — 1ºCongresso Internacional de Nanotecnologia e Exposição Internacional de Projetos, Produtos e Materiais Nanotecnológicos — , organizada pela RJR Eventos entre os dias 5 a 8 de julho, no ITM Expo, em São Paulo. E, principalmente, co-promoveu o seminário setorial A Revolução Nanotecnológica nas Indústrias do Plástico." Os temas e os conferencistas foram escolhidos com o objetivo de tratar a nanotecnologia sob a ótica empresarial e do chão de fábrica, sem, no entanto, abrir mão do mais alto nível técnico científico. "A nanotecnologia é importante para todos os segmentos industriais", complementa. Não é por acaso que, em 2004, os investimentos internacionais em nanotecnologia foram de US$ 75 bilhões. No Brasil, de aproximadamente R$ 30 milhões. Para 2015, a projeção é de que esse montante chegue a um trilhão de euros. O secretário-executivo de ciência, tecnologia e desenvolvimento econômico do Estado de São Paulo, Lourival Carmo Mônaco, revela que o governo de São Paulo está investindo mais de US$ 2 bilhões nas universidades e nas instituições, além da Fapesp, em nanotecnologia e novos conhecimentos. "A Nanotec Expo é o primeiro passo dentro do modelo São Paulo Competitivo que o governo estadual está empenhado em manipular", revela.
O presidente da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), Pedro Buzzatto Costa, acredita que o Brasil deve estar engajado nessa nova tendência tecnológica. "A nanotecnologia precisa apenas sair da visão científica e integrar-se ao mercado por meio da utilização industrial e da difusão de seus benefícios à sociedade. As normas podem prover os requisitos necessários para que seja empregada de maneira segura, eficaz e efetiva no mercado nacional", conclui.
A aplicação dos nanomateriais no setor de embalagem
É forte o potencial de aplicação de nanomateriais em embalagens, especialmente visando ao aumento da vida útil do produto. O custo é imprescindível para o setor já que a embalagem tem baixo valor agregado. "Nesse sentido, a nanotecnologia permitirá a redução de material e a otimização de perdas na estocagem ou na distribuição. Além disso, vai propiciar, por exemplo, melhorar as propriedades de barreira a gases, vapor d'agua, aromas, luz UV etc.", afirma a pesquisadora do Centro de Tecnologia de Embalagem do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), Eloísa F.C. Garcia.
O sistema de embalagem ativa, segundo ela, será um grande passo para a garantia de segurança alimentar ao consumidor, na medida em que contribuirá para preservar as qualidades funcionais, o sabor e o odor dos produtos. "Para realizar essa tarefa, sensores vão detectar a presença de microorganismos." Eloísa afirma que a aplicação de soluções nanotecnológicas na área de embalagens já vem sendo empregada há algum tempo, principalmente, mediante o revestimento metalizado. "Essa prática está ligada diretamente às atividades do Cetea, órgão da administração direta do Estado de S. Paulo."
Para o gerente técnico da petroquímica Polibrasil, fabricante de resina PP, Cláudio Marcondes, "O Brasil não pode perder esse bonde da história. Precisamos acordar para a nova revolução da indústria." Ele defendeu, em suas declarações, investimentos em tecnologia de nanosoluções, como uma forma de aumentar o valor agregado aos produtos.
As novidades da Polibrasil já estão a caminho. Em princípio, serão lançados dois produtos para os setores automotivo e de embalagens, previstos para chegar ao mercado no final de 2005. De acordo com o presidente da empresa, José Ricardo Roriz Coelho, esses segmentos representam 55% do share que a companhia detém. O projeto recebeu investimentos de US$ 20 milhões, e, de acordo com ele, em breve as resinas fabricadas utilizando a nanotecnologia terão destaque nas vendas. "A expectativa é de que até 2010 elas representem entre 5% e 8%", acredita.
A pesquisadora do Centro de Tecnologia e Inovação Braskem, Susana Liberman, disse que quem não entrar na nova tecnologia vai comprometer a sua continuidade ou decretar o seu fim. "Os materiais nanoestruturados serão os grandes responsáveis pela revolução do século 21 por atenderem a uma gama enorme de mercados — automotivo, têxtil, plástico, construção civil." Os nanocompósitos à base de argila são os mais utilizados para a modificação de plástico. Hoje, algumas resinas não têm propriedades para determinadas aplicações e os nanocompósitos vão viabilizar novas oportunidades de mercado", avalia Susana. Ela aponta que o crescimento anual do mercado de nanocompósitos, até 2008, será da ordem de 20% para resinas termoplásticas e 10% para resinas termorrígidas. "O próximo passo para as empresas ingressarem nesse mundo nanotecnológico é a quebra de paradigmas. Isso envolve não só a capacitação tecnológica (desenvolver novas competências, avaliar as propriedades do produto com novas técnicas e preparar os profissionais de venda), mas capacidade para inovar e descobrir novos nichos de atuação", ressalta.
Em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e a Universidade Federal de São Carlos, a Braskem está desenvolvendo estudos para nanocompósitos em poliolefinas, um projeto que deve representar um salto tecnológico para os materiais termoplásticos no mundo. Com a Universidade do Rio Grande do Sul, os estudos estão dirigidos para a criação de materiais mais resistentes e de novas aplicações para as resinas. Já com a Universidade Federal de São Carlos, o foco da parceria está na área de polietileno. Liberman conta que já há pesquisas em andamento para aplicações nos segmentos automobilístico, eletroeletrônico e de embalagem, entre outros.
Filme plástico nanocomposto
A proposta primária dos filmes para embalagens de alimentos é a proteção contra umidade e oxigênio. Mas, para o Prof. Dr. Ralph Ulrich, da empresa alemã Lanxess, a realidade é outra. Sua companhia — inicialmente um braço da Bayer para pesquisas nas áreas química e física, mas independente desde 2003 — já está comercializando a todo vapor um filme plástico nanocomposto chamado Durethan KU 2-2601 de alta barreira, que previne a infiltração de líquidos e gases, garantindo que alimentos como carnes e queijos permaneçam frescos por mais tempo e aumentando o shelf life. "O Durethan KU 2- 2601 apresenta um desempenho 50% superior ao dos materiais anteriormente utilizados para a mesma finalidade, oferecendo ainda melhor barreira aos odores, aos vapores e ao ar, menor absorção de umidade (devido ao seu alto teor de cristalização), menor viscosidade e maior estabilidade", destaca. De acordo com Ulrich, isso se traduz em redução de peso e em aumento de qualidade do material, além de maior velocidade de produção e elevada lucratividade para a indústria de embalagens. "A aplicação do Durethan KU 2-2601 como revestimento plástico em substituição à camada de barreira de alumínio, atualmente empregada em embalagens cartonadas assépticas de sucos, é bastante promissora." Ele acredita que: "O custo 40% mais alto do que o da matéria-prima padrão no mercado ainda assusta um pouco. Problema que deve ser resolvido assim que outros players entrarem no negócio, ainda monopolizado pela pioneira Lanxess."
Soluções para a indústria do plástico
1. Nanocompósitos poliméricos — materiais nanoestruturados fabricados com borracha natural, outros tipos de látex e argilas, com propriedades mecânicas e de barreira a gases (99,99%) muito superiores aos atuais existentes. A tecnologia desenvolvida pela Unicamp tem aplicação em adesivos de alto desempenho para metais e plásticos e aditivos opacificantes e estruturantes para tintas de base aquosa.
2. Plástico biodegrável — A USP desenvolveu plásticos produzidos por bactérias que se degradam, evitando a poluição do meio ambiente.

Informações
Abiplast......................... tel.: (11) 3060-9688, site: www.abiplast.org.br
Braskem ...................... tel.: (11) 3443-9999, site: www.braskem.com.br
Cetea...................... tel.: (19) 3743-1900, site: www.cetea.ital.org.br
Lanxess......................... tel.: +49 (0) 214/30-1, site: www.lanxess.com
Polibrasil..................... tel.: (11) 3345-5900, site: www.polibrasil.com.br
RJV Eventos ................... tel.: (11) 3812-2115, site: www.nanotec2005.com