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Pequenas ideias em ebulição

Publicado em 01 dezembro 2008

Parques tecnológicos e incubadoras estão ajudando pequenas empresas a se tornar referência na promissora área da nanotecnologia - uma nova fronteira da ciência que trata da transformação de substâncias e materiais em partículas até um milhão de vezes menores que um metro -, com a vantagem de economizar recursos sem perder qualidade. Um exemplo que já se tornou referência no mercado é a Nanox Tecnologia, sediada em São Carlos, interior de São Paulo, que desenvolveu um revestimento antibactericida à base de nanopartículas de titânio, incorporado há um ano pela Taiff na fabricação do seu secador Compacto. A empresa se transformou na primeira do setor a contar com recursos de um fundo de investimentos, o Novarum, além de receber verbas do Programa de Subvenção Econômica à Inovação por ter conquistado o primeiro lugar na categoria pequena empresa no Prêmio Finep, em 2007. 'Até há pouco tempo, essa área estava restrita às grandes corporações. Somente agora as pequenas acordaram para essa ótima oportunidade de negócios. A boa notícia é que as menores podem sair ganhando por ser mais ágeis e inovadoras', afirma Ronaldo Marchese, idealizador e coordenador da Nanotec 2008, feira especializada nesse mercado que teve sua primeira edição neste ano.

Atualmente, a nanotecnologia já está presente nos setores eletrônico, automotivo, têxtil, químico, alimentício e cosmético. Estimativas da Nanotec dão conta de que o mercado nano movimentou US$ 140 bilhões em todo o mundo em 2007. Mais de 500 produtos à venda hoje se beneficiam dessas partículas. O setor deve encerrar 2008 com faturamento em torno de US$ 500 bilhões, com 1.000 produtos nanotecnológicos. No Brasil, a previsão é de movimentar R$ 15 bilhões por ano, embora sua aplicação na produção industrial ainda seja bastante tímida, se comparada a países da Europa e aos Estados Unidos.

As nacionais SupraNano e Ciallyx fazem parte dessa cadeia. Instaladas no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), em São Paulo, as duas empresas receberam cerca de R$ 400.000 cada uma de instituições governamentais como Finep, Sebrae, Fapesp e CNPq. Fundada em março de 2007, a primeira teve o seu plano de negócios dedicado à aplicação de nanopartículas de prata em filtros de ar-condicionado automotivos. Outros estudos, porém, começaram a ter resultados mais efetivos, como, por exemplo, a esterilização de materiais plásticos com pequeninas partes de prata e a utilização de ouro como corante para pigmentação de cerâmicas, polímeros e tintas. 'Há espaço para pessoal qualificado, novas idéias e produtos inovadores', afirma Juliano Bonacin, sócio da SupraNano. Para Cristina Salles Gomes, sócia da Ciallyx, empresa criada em 2004, que deve fechar o ano com faturamento de R$ 500.000, as oportunidades da nanotecnologia não estão apenas no desenvolvimento de um produto, mas em toda a cadeia. 'Testar produtos que também tenham nanotecnologia é um fator de inovação competitiva.' No seu caso, esse fator diz respeito às moléculas nanoestruturadas em cosméticos e remédios analisadas antes de chegarem às prateleiras. Trata-se de um avanço e tanto: a técnica é capaz de revelar se os produtos podem ser nocivos ao consumidor. Da cartela de clientes da Ciallyx já fazem parte a Eurofarma, a Natura e a Biolab.

Os especialistas afirmam que o mercado de nanotecnologia só não é maior no Brasil devido à falta de estímulo para que haja uma convergência entre a academia e o mercado. Existem recursos governamentais para o fomento de pesquisas, como os oferecidos pela Fapesp e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), mas a burocracia, a inadequação de critérios para concessão de financiamentos e a falta de marcos regulatórios para a utilização da nanotecnologia prejudicam a expansão do setor no país, na opinião de Marchese. 'A falta de regulamentação e de conhecimento sobre o assunto tem sido um dos entraves para a atração de capital.' Para o professor Oswaldo Massambani, diretor do núcleo de inovação da Universidade de São Paulo (USP), pequenos e grandes poderiam ter avançado bem mais se não fossem esses obstáculos. 'Na maioria das vezes, a idéia do empreendedor é ótima. Mas os entraves são tantos que alguns acabam desistindo no meio do caminho', diz.

Segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), houve investimento de R$ 150 milhões no Brasil nos últimos quatro anos, por meio de ações do Programa Nacional de Nanotecnologia, fundos setoriais e aplicação de recursos públicos não-reembolsáveis em empresas. O país conta com pelo menos 14 redes de pesquisa, 300 pesquisadores e 77 instituições de ensino na área. Mas os investimentos governamentais são insignificantes se comparados a países como EUA e Japão, que destinam anualmente US$ 1 bilhão ao desenvolvimento da nanotecnologia. 'Mas esse panorama já está mudando', afirma Mário Baibich, coordenador geral de micro e nanotecnologia do MCT. Segundo ele, o ministério está investindo mais R$ 150 milhões na implantação de novos laboratórios regionais, no apoio a incubadoras de empresas de nanotecnologia e no incentivo para patentear produtos, além da formação de recursos humanos para a área. 'A curto prazo, teremos mais empreendedores nesse ramo e ainda mais inovações.' Vamos acreditar.