Notícia

Gazeta Mercantil

Pequena empresa, patrimônio da sociedade

Publicado em 27 agosto 1997

Por Sylvio Goulart Rosa Júnior *
Durante muitos anos o poder público viu as pequenas empresas com o mesmo olhar que reserva às de maior porte. Com os olhos voltados somente para a arrecadação de impostos, ignorou a contribuição dada à sociedade pelos pequenos empreendedores, verdadeiros geradores de emprego e de desenvolvimento social. Essa visão limitada e crescentemente burocratizada complicou a vida daqueles que sonham em ter seu próprio negócio. A realidade começa a mudar, mas há muito o que fazer em benefício das pequenas empresas. Não há como negar a força que a pequena empresa tem em nosso país e no mundo. Apenas na América do Sul, estima-se que existam 10 milhões de micro e pequenas empresas, que seriam responsáveis por 60% do Produto Interno Bruto (PIB) e por 80% da mão-de-obra empregada. Nos Estados Unidos, a conta que se faz é de uma empresa para cada dez habitantes. No Brasil, os números também surpreendem. De um universo de 4,5 milhões de empresas formais, 98% seriam micro e pequenas empresas. Apenas em São Paulo, para cada 47 habitantes, temos uma empresa constituída. Mas, em nosso país, a informalidade ainda é uma doença. Criou-se um verdadeiro "hospício burocrático" que impede que milhares de empreendedores possam trabalhar dentro da legalidade e com melhores condições de criar empresas sadias e competitivas. Nesse contexto, podemos dizer que a opção ao Simples foi um importante passo rumo a um processo de desburocratização que muito vai ajudar a microempresa. É uma mudança cultural na forma pela qual o poder público se relacionará com a pequena empresa. Essa mudança de postura já é realidade em muitas cidades do interior de São Paulo. Um concurso revelou que 85 cidades contavam com uma legislação própria em favor das micro e pequenas empresas, uma prática comum em sociedades democráticas. É preciso fomentar no nosso país um ambiente pró-negócios. Até porque o Brasil é hoje o maior mercado emergente do mundo. Nós, do Sebrae-SP, estamos trabalhando para isso e temos o firme propósito de transformar a entidade no instrumento de apoio mais eficaz da pequena empresa em São Paulo. No campo operacional interno, agilizamos processos administrativos e fizemos uma completa revisão da estrutura da entidade, objetivando uma ação mais ampla e eficaz. Criamos novos produtos e serviços e ampliamos a nossa rede de agências de 18 para 26 postos de atendimento. Até o final deste ano devemos inaugurar mais 5 agências na Grande São Paulo e outras 7 devem estar funcionando no primeiro semestre do ano que vem. Além disso, disponibilizamos o nosso atendimento para ou-, trás 150 cidades paulistas através de balcões avançados e de unidades móveis do Sebrae-SP. Mas estar perto do pequeno empreendedor não é o bastante. Precisamos criar condições para que ele não engrosse a lista daqueles que, sem estrutura, não conseguem comemorar o primeiro aniversário de suas empresas. E a experiência tem-nos demonstrado que as parcerias com entidades privadas, prefeituras, instituições de ensino, associações e outras entidades contribuem para a massificação dos serviços do Sebrae-SP em todo o estado e são uma ferramenta essencial na luta pela sobrevivência das nossas pequenas empresas. Podemos citar como exemplo dessas parcerias as Empresas de Participação Comunitária (EPCs). Sociedades anônimas formadas por meio de pequenas contribuições pessoais de seus membros - em geral, assalariados de diferentes profissões -, elas são verdadeiros bancos de investimento com o objetivo de viabilizar microempresas. Hoje, já são 96 EPCs em todo o estado. Estamos criando também uma rede com 50 Incubadoras de Empresas, 14 delas já estão funcionando - assistindo 140 empresas - e outras 8 devem estar funcionando até o final deste ano. O Programa Incubadoras consiste em instalar, num único local, empreendimentos nascentes na área de tecnologia, de forma que os empreendedores compartilhem uma infra-estrutura comum até o momento em que tenham condições de seguir por conta própria. Abrir espaço para a participação das micro e pequenas empresas no comércio exterior é outra prioridade do Sebrae-SP. A luta por novos mercados gerou a necessidade de reduzir custos, desenvolver ou adquirir novas tecnologias para aumentar a produtividade com maior qualidade. Os microempresários precisam estar capacitados e muito bem preparados para conquistar novos mercados. Pesquisa feita pelo Sistema Sebrae revela que 40% dos administradores da pequena empresa no Brasil não costumam fazer planejamento para a produção, 90% não utilizam a informática, 65% desconhecem sistemas de avaliação da produtividade, 85% não utilizam técnicas de marketing e 92% não participam das exportações. Enquanto isso, crescem os negócios entre o Brasil e os países do Mercosul. Segundo estudo do Ministério da Fazenda, juntos, os países do Mercosul ocupam hoje o segundo lugar na pauta das exportações brasileiras. Nos primeiros seis meses do ano, o Brasil exportou o equivalente a US$ 4,6 bilhões para os Estados Unidos. O resultado foi seguido de perto pelos negócios com a Argentina, Uruguai e Paraguai, que somaram US$ 4 bilhões. O Imposto de Importação, que varia entre 0 e 20%, a proximidade entre os países, a língua e as facilidades tarifárias são diferenciais que fortalecem as relações comerciais entre os parceiros do Cone Sul. Nós, do Sebrae-SP, estamos convencidos de que o Mercosul é a porta de entrada dos microempresários para o comércio exterior. Nesse sentido, incentivamos negócios promovendo maior capacitação dos empreendedores e também a promoção de Encontros de Negócios, participação em feiras e eventos internacionais. Só neste ano, grupos de empresários paulistas, assessorados pelo Sebrae-SP, participaram da Feira Industrial de Hannover, na Alemanha; Enbisul, na Argentina, e, mais recentemente, da Supermercados Latinoamérica, em Santiago, no Chile. Muitos desses empresários já estão exportando seus produtos como resultado da participação nesses eventos. Fortalecer e capacitar as micro e pequenas empresas é criar condições efetivas para a geração de emprego e para uma distribuição de renda mais justa no País. Se é verdade que o Brasil precisa voltar a crescer a taxas entre 6% e 7% ao ano, e que necessitamos criar de 1 milhão a 2 milhões de empregos por ano, a pequena empresa é a única saída. Exemplos não faltam. Esse foi o caminho trilhado por países como Japão, Itália, Coréia, Alemanha, Estados Unidos e tantos outros que hoje se alinham entre as economias do Primeiro Mundo. Professor universitário e presidente do conselho deliberativo do Sebrae-SP.