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JC Notícias (São Paulo, SP)

Pequena biografia de um grande cientista e humanista: Luiz Rodolpho Raja Gabaglia Travassos (26/09/1938 – 30/07/2020)

Publicado em 31 julho 2020

“Foram mais de 50 anos de convívio que considero um grande privilégio”, escreve o professor emérito da UnB, Isaac Roitman

Conheci Travassos em 1963 como Professor do Curso de Especialização em Microbiologia no Instituto de Microbiologia Paulo de Góes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ainda no campus da Praia Vermelha. Fui convidado por ele para trabalhar no Departamento de Microbiologia Geral que era chefiado pelo notável microbiologista Amadeu Cury que posteriormente foi o diretor do Instituto e Reitor da Universidade de Brasília. Foi meu orientador de Doutorado e mentor de minha carreira acadêmica até hoje. Frequentava sua casa no bairro do Flamengo. Convivi com o casal Travassos e Norma e acompanhei o crescimento de seus filhos Marta e Alexandre. Casei em sua residência. Foram mais de 50 anos de convívio que considero um grande privilégio.

Sua trajetória científica foi excepcional. Filho do renomado bacteriologista e virologista Joaquim Travassos da Rosa, sempre teve a vocação de cientista presente, o que o fez ingressar num laboratório de pesquisa já no primeiro ano do curso médico, sob a orientação de Carlos Solé Vernin. Neste laboratório isolou e caracterizou pela primeira vez no Brasil, bactérias patogênicas, de metabolismo oxidativo, produtoras de ácido glucônico, hoje classificadas como Acinetobacter e, na época, como membros da Tribu Mimeae (mimetizando Neisseria). No laboratório de Amadeu Cury continuou os estudos fisiológicos destas bactérias, mas a principal técnica incorporada foi a de estudos nutricionais utilizando leveduras saprófitas obrigatórias de animais de sangue quente. Esse estudo, que permitiu um considerável avanço na determinação de fatores de crescimento de microrganismos, fatores de temperatura, estabelecimento de dois métodos de dosagem microbiológica (colina e carnitina), estabelecimento de meios de cultura de composição química definida (sintéticos) e estudo do mecanismo de ação de antimetabólitos.

Seu mérito foi reconhecido pelo convite para apresentar uma revisão ao Annual Review of Microbiology, publicada em 1971. Nessa época e em grande parte de sua carreira recebeu a influência de Seymour H. Hutner do Haskins Laboratories em New York.

A partir de 1972, iniciou uma linha de investigação sobre bioquímica e imunoquímica de estruturas antigênicas de fungos patogênicos para o homem, inicialmente em colaboração com Kenneth O. Lloyd na Columbia University, New York e posteriormente com vários estudantes de grande talento no Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Numerosas novas estruturas foram identificadas em Sporothrix schenckii, Ceratocystis, Aspergillus, empregando métodos clássicos e, na época, inovadores, de ressonância nuclear magnética de C-13 e H-1 (primeiros espectros de C13 de heteropolissacarideos na literatura em colaboração com Philip A.J.Gorin).

O trabalho em Sporothrix schenckii foi revisto e atualizado em dois capítulos de livro, a convite, e em uma revisão no Microbiological Reviews. De volta a New York, foi Professor Visitante do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, onde ficou ligado ao grupo chefiado por Lloyd J. Old, que estudava antígenos tumor-específicos de células de melanoma humano.

A sua principal contribuição no período foi a identificação de gangliosídeos imunogênicos característicos de melanoma, o que abriu uma nova linha de investigação na área, tanto no Sloan-Kettering como em outros laboratórios. Anticorpos monoclonais foram preparados contra GD3 do melanoma (W.G. Dippold, A.N. Houghton) e utilizados no tratamento de pacientes com melanoma metastático. O trabalho, que reuniu numerosos colaboradores, e em particular, um estudante seu, Clifford S. Pukel, bem como o supervisor Kenneth O. Lloyd, gerou duas patentes institucionais e uma publicação no J. Exp. Med. atualmente com mais de 500 citações.

De volta ao Brasil, transferiu-se para a Escola Paulista de Medicina, hoje Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), onde iniciou duas linhas de pesquisa, uma relacionada aos componentes antigênicos de Trypanosoma cruzi reativos com anticorpos líticos, e outra ao antígeno de diagnóstico específico do Paracoccidioides brasiliensis. Nessas duas linhas, resultados importantes foram obtidos. Purificados estão sendo utilizados com grande sucesso no diagnóstico da Doença de Chagas ativa, em métodos quimioluminescentes de alta sensibilidade, adequados a bancos de sangue. Na segunda linha, o antígeno de diagnóstico específico de Paracoccididioides brasiliensis foi identificado como uma glicoproteina de 43.000 daltons, a qual foi purificada, clonada e inteiramente sequenciada. Publicou 263 artigos em periódicos científicos, 22 capítulos de livros e 02 livros.

Orientou 23 Mestrados e 28 Doutorados (família Travassos). Sua liderança se refletiu na organização de Departamentos e grupos de pesquisa na UFRJ e UNIFESP, fundação de Sociedade científica, criação e coordenação do Centro Interdisciplinar de Terapia Gênica (CINTERGEN) na UNIFESP, coordenação de Cursos de Pós-graduação, Direção do Setor de Biologia e Ciências Médicas do CNPq e participação de comitês assessores, atividades como Editor Senior de Ciência e Cultura, J. Braz. Assoc. Adv. Sci., relator, membro e Presidente de comissões no CNPq, CAPES e Academia Brasileira de Ciências, Coordenador dos Seminários Científicos da Praia Vermelha e muitas outras. A partir de 2008 foi consultor da Recepta Biopharma. Desde 2003 foi membro do Conselho de Curadores do Instituto Butantan. Recebeu prêmios e homenagens. Entre eles o Prêmio Nami Jafet (1963), Ordem Nacional do Mérito Científico (Comendador, 1996/ Grã Cruz, 2002, Prêmio Fiocruz (2000), Medalha Samuel Pessoa da Sociedade Brasileira de Protozoologia (1999) e Scopus / Elservier/CAPES (2008).

Travassos, além de cientista apresentava facetas raras em uma única pessoa. Era uma pessoa de bem. Era culto e elegante ao se dirigir a alguém. Adorava música e se esforçava para estimular a educação musical de seus estudantes e, sobretudo, do seu filho Alexandre. Foi compositor e notável pianista. Ao responder uma entrevista da revista FAPESP sobre sua estada em Nova York assim se pronunciou: “Tudo o que eu gosto na vida está em Nova York: música sinfônica de qualidade, ópera, teatro, parque e o frio”. Em Nova York morou em um bairro judaico e converteu-se ao judaísmo e dominou o hebraico e tornou-se um grande erudito da cultura e religião judaica. Travassos sempre teve um humor refinado. Travassos tinha um senso crítico aguçado. No entanto foi sempre um crítico construtivo, uma pessoa ética, características dos grandes humanistas. Ficará para sempre em nossas memórias.

Isaac Roitman

Professor Emérito da Universidade de Brasília

30/07/2020