Notícia

Gazeta Mercantil

Pensar pequeno é o novo grande desafio

Publicado em 30 julho 2001

Por Luciana Tuszel - São Paulo
O novo desafio do mundo científico é dominar a nanotecnologia, já considerada pelos países desenvolvidos como uma das três áreas mais importantes dos novos tempos, ao lado da biotecnologia e da tecnologia da informação. A novidade promete grandes avanços em diversas áreas, como a fabricação de alimentos e de produtos eletrônicos. Nos Estados Unidos foi lançado recentemente o Programa Nacional de Nanotecnologia com orçamento de US$ 495 milhões aprovado pelo congresso em outubro do ano passado. O Japão pretende gastar US$ 400 milhões neste ano - valor 41% maior do que o destinado à área no ano passado. A nanotecnologia é a tecnologia em escala nanométrica, ou seja, em que a medida utilizada é o nanômetro, a bilionésima parte de um metro, cerca de 10 mil vezes mais fino que o diâmetro de um fio de cabelo ou cerca de dez átomos. Essa nova área é considerada pelo mundo acadêmico como o próximo passo na evolução da ciência. No Brasil, apesar de não haver ainda um programa nacional, existem iniciativas isoladas em São Paulo e outros estados que funcionam com modestos investimentos governamentais. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) lançou há poucos meses a Chamada de Nanociência e Nanotecnologia com o objetivo de identificar os profissionais dessa área e tirá-los do isolamento. Na fase inicial, o CNPq destinou US$ 1,3 milhão para a formação de redes de cooperação entre os pesquisadores. De acordo com o diretor de políticas horizontais e instrumentais da instituição. Celso de Melo, se a formação das redes for bem-sucedida pode-se sonhar com um programa brasileiro de nanotecnologia e a formação de centros de competência em um futuro breve. Pesquisadores brasileiros trabalham há pelo menos dez anos e já encontram possíveis aplicações para suas descobertas. O professor Henrique Toma do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) e seu colaborador Koiti Araki trabalham com o desenvolvimento de supermoléculas e dispositivos moleculares. O trabalho desenvolvido pelos dois cientistas consiste em ordenar moléculas de forma a promover reações químicas otimizadas. Dos resultados concretos pode-se destacar a elaboração de algumas substâncias, como o sensor de sul-fito (oxido de enxofre), por exemplo. Trata-se de um filme molecular útil para vinícolas, que usam o sulfito - substância que impede a oxidação da bebida. Em excesso, o sulfito pode causar danos à saúde, motivo pelo qual a quantidade da substância deve estar sempre sob controle, papel desempenhado pelo sensor. Segundo Toma, as vantagens do sensor de sulfito em relação aos equipamentos tradicionais são o custo baixo e a rapidez do resultado. O sensor permite a obtenção do resultado em 30 segundos, enquanto o processo tradicional leva até 40 minutos. Para fazer a medição, são necessários poucos mililitros de vinho, evitando o desperdício da bebida. Os dois pesquisadores também desenvolveram o sensor de nitrito, conservante e corante utilizado para carnes. Em excesso, o nitrito pode causar anemia e até câncer. Nos próximos quatro anos, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Paulo (Fapesp) vai investir 120 mil dólares na pesquisa. No campo da eletrônica, o coordenador da divisão de Microscopia Eletrônica do Laboratório de Luz Síncroton, Daniel Ugarte, trabalha no desenvolvimento de novos materiais a partir de estruturas chamadas nanotubos de carbono. Os nanotubos são dispostos para funcionar como um emissor de elétrons utilizados para fabricar telas planas de computadores e televisores. Para essa e outras pesquisas do mesmo campo as agências de pesquisa investiram cerca de US$ 70 mil. O laboratório - organização civil mantida pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, CNPq e Fapesp - adquiriu no início deste microscópio com poder de ampliação de 1,5 milhão de vezes e capacidade de resolução de 0,17 nanômetros. Com isso, é possível ver os mínimos detalhes da maior parte dos materiais. NO FUTURO, O GRAFITE PODERÁ VIRAR DIAMANTE O objetivo principal da inovação científica representada pela nanotecnologia não é a diminuição do espaço utilizado como se poderia imaginar. A vantagem de se trabalhar em escala nanométrica é o aumento do desempenho e da qualidade dos materiais usados em quase todas as áreas do conhecimento. Para o coordenador da divisão de Microscopia Eletrônica do Laboratório de Luz Síncroton, Daniel Ugarte, um dos principais benefícios é a descoberta de novas propriedades da matéria. Pedaços nanométricos de ímã ou de ferro podem ter comportamentos diferentes de materiais macroscópicos e, portanto, novas utilidades, afirma o pesquisador. Para a nanotecnologia química, o maior desafio está em descobrir como ordenar as moléculas de modo a modificar suas propriedades. É o caso do diamante e do grafite, formados somente por átomos de carbono. A diferença está na forma como esses átomos estão estruturados. A distância entre os átomos e a maneira como estão dispostos é que confere as características de dureza e transparência ao diamante e maciez e cor escura ao grafite. No futuro, o avanço da nanotecnologia pode permitir a reorganização dos átomos de carbono do grafite e transformá-lo em diamante. Na área de medicina pode ocorrer um grande avanço, com a cura para muitas doenças. Moléculas ingeridas por pacientes desentupiriam artérias evitando o enfarte, por exemplo. Outros nanocompostos poderiam destruir células cancerosas sem afetar tecidos saudáveis e sem intervenção cirúrgica. Tais inovações ainda estão distantes, mas os primeiros passos para chegar até lá já foram dados. FUNDOS PRIVADOS FINANCIAM AS PESQUISAS NO EXTERIOR No exterior, já existem fundos de investimentos privados específicos na área de nanotecnologia e especialistas alertam para o perigo de uma nova bolha de especulações como a que aconteceu com as empresas digitais. A Chevron Technology Ventures lançou há alguns meses um fundo de US$ 100 milhões que será aplicado em parte nas novas empresas de nanotecnologia. O investidor interessado em novidades pode consultar os últimos avanços na página da internet www.nanoinvestorsnews.com. No Brasil, é ainda cedo para falar, sobre investimentos do setor privado. Segundo o professor Henrique Toma, do Instituto de Química da USP, o setor privado não investe na pesquisa acadêmica e não se interessa em vender os produtos desenvolvidos nas universidades. "Esforços do governo e da sociedade precisam ser feitos para mudar a cultura das empresas que atuam no país", diz Toma. O diretor do CNPq, Celso de Melo, afirma que o grande desafio do governo é modificar a política de desenvolvimento industrial, criando incentivos para que as empresas transfiram recursos para os centros de pesquisa. De acordo com os cientistas brasileiros, ainda deve demorar de 10 a 20 anos para que as pesquisas possam se transformar em bens comercializáveis de modo significativo.