Notícia

Arquitetura & Urbanismo

Pensamento modular, construção poética

Publicado em 01 janeiro 2011

Por Edison Hiroyama

Eduardo Luiz Paulo Riesenkampf de Almeida teve formação em um ambiente familiar favorável às artes. Seus pais estimularam uma carreira como arquiteto, contrariando uma tradição de bacharéis em direito na família. O arquiteto se recorda, por exemplo, de uma visita feita na adolescência ao recém-lançado Edifício Prudência (1950), de Rino Levi, na avenida Higienópolis, São Paulo -e foi levado pela mãe, entusiasta da arquitetura. No início dos anos de 1950, teve que se afastar da vida escolar por dois anos por problemas de saúde. Em recuperação, dedicou-se de forma autodidata ao estudo da arquitetura moderna e da prática de desenho. Foi quando conheceu Frank Lloyd Wright e Richard Neutra.

Depois de ter aulas de perspectiva com Henrique Pait e com Júlio Katinsky no cursinho pré-vestibular da FAUUSP, aos 21 anos ingressou na Universidade de São Paulo.

Eduardo graduou-se pela FAUUSP em 1960. ``Meu trabalho não se destaca por nenhuma questão tecnológica. A construção, a arquitetura como construção, as máquinas, cuja montagem transparece de alguma forma, tudo isso é encantador. Mas a questão da tecnologia está relacionada mais ao modo de fazer, de fazer com economia de meios, onde você tira o máximo daquilo que está usando. Eu ainda considero como abordagens importantes da mesma questão tanto as obras de Vilanova Artigas quanto as do Millan. Eu me ancoro mais no Millan, prudentemente``, conta Eduardo sobre o contato com os mestres que lecionavam na FAUUSP.

Em seu período de estudante, visitou todas as obras de Carlos Millan - e durante a faculdade, os alunos fizeram greve para que o arquiteto fosse admitido nos quadros de professores da FAUUSP. Para Eduardo, Millan possuía uma visão mais completa do projeto, onde os detalhes eram reduzidos à essência, Sua importância está não na linguagem mas na abordagem dada ao projeto.

É impossível falar em uma geração de arquitetos paulistas sem citar Vilanova Artigas. Sua influência deu-se de maneira direta e indireta, principalmente nos alunos formados pela FAUUSP. Durante a faculdade, o contato de Eduardo com Artigas foi rápido. Mas a partir de 1978, quando fazia parte do grupo de professores que ministravam o TCI (Trabalho de Graduação Interdisciplinar) da FAU, os dois estabeleceram uma convivência que durou cinco anos - e que representa um importante período na formação de Eduardo sobre conhecimentos gerais, mais do que como arquiteto. Eduardo conta sobre um dia em que, juntamente com Edgar Dente e Abrahão Sanovicz, foram incumbidos de comunicar a Artigas, com profundo constrangimento, a obrigatoriedade imposta de lhe submeter a provas de conhecimento, para atender a uma estrutura burocrática que surgia na FAU. O alocamento de Artigas para a disciplina final de TCI surtiu um efeito contrário: grupo formado implantou novos focos de debate e inserção de aspectos culturais na produção de arquitetura, propiciando novas lideranças estudantis. Artigas cristaliza o significado cultural que o curso poderia ter.

Mas antes de ser professor, e logo depois da graduação, Eduardo de Almeida foi à Itália. Era 1962 e tinha recebido uma bolsa de estudos concedida pela Fundação Amerigo Rottellin para cursar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Florença os cursos de história da arte e de desenho industrial, ministrados por Leonardo Benévolo e por Pierluigí Spadolini.

A Itália vivia fortemente a industrialização da construção - a dois anos do final da segunda guerra mundial e no começo da reconstrução das cidades devastadas, a 8° Trienal de Milão, em 1947, por exemplo, explorou o tema da industrialização. Nessa época começaram os estudos sobre coordenação modular, que resultaram em formulações teóricas com seu desenvolvimento aplicável a todos os estágios da produção. Um dos resultados mais significativos será a publicação na Itália do manual Cuida Allá Progettazione Modulare (1970), cuja redação foi confiada ao Ministério das Obras Públicas.

Tal experiência influenciou Eduardo de Almeida que, ao longo de 1972, desenvolveu uma série de trabalhos acadêmicos na FAUUSP voltados para o tema da industrialização da construção civil, racionalização dos meios de produção e contextualização sociocultural. Tal pesquisa resultou, em 1973, na sua tese de doutorado pela mesma instituição, com o título Habitação: consumo, produto sob orientação de Lucic Crinover.

As tecnologias aplicadas à construção civil se manifestarão na obra co arquiteto tanto no projeto de residências quanto nos de maior escala - com o desenvolvimento de uma metodologia de projeto aplicável em várias escalas e demarcas. Essa metodologia dá-se de forma inconsciente e não premeditada. Resultam de processos e experimentações não lineares, muito menos automáticas, advindas muito mais de posturas pessoais de investigação e prudência, do que de modelos aplicáveis e extensíveis a um modo de produção de projetos. Para Eduardo, não há um caminho, um método. Na verdade é um processo lento e difícil, sem muitas certezas.

Ainda no período da FAUUSP surgiu o primeiro escritório do arquiteto, em sociedade com seus colegas Arthur Fajardo Netto, Dácio Ottoni, Henrique Pait e Ludovico Martino. Esse escritório foi montado sobre a garagem da residência de Fajardo, mudando-se em seguida para uma sala de escritórios que Pait havia projetado para um primo, na rua 7 de Abril, Centro de São Paulo. No mesmo prédio estava o escritório de Jon Maítrejea.

Associa-se a isso a proximidade com o IAB, na rua Bento Freitas, e com a FAUUSP na Maria Antônia, e a FAU-Mackenzie - e se desenhava um contexto propício para o convívio entre arquitetos, com debate intenso de ideias e experiências. Essa união foi de 1958 a 1962.

Durante seus estudos na Itália, Ludovico sai da sociedade para trabalhar com Plínio Croce. Depois associou-se a João Carlos Cauduro e formou um dos mais importantes escritórios de design gráfico do País. Em 1962, já de volta, Eduardo de Almeida implementa o escritório do arquiteto carioca Sérgio Bernardes em São Paulo, a convite do colega Ennes Silveira Netto. Desse período, Eduardo assimilou importantes lições de Sérgio Bernardes, que representava outra linha de arquitetura da chamada escola carioca, aproximando-se ao pensamento pau-lista de entender a construção em suas abordagens construtivas. Eduardo descreve que uma das características de Bernardes era desenvolver os projetos em papel milimetrado, e com farta utilização de cores.

Houve outras parcerias em projetos com Pedro Paulo Melo Saraiva e com Miguel Badra Jr, que mantinha uma construtora. O convite aos jovens arquitetos deu-se para a montagem de um departamento de projetos, um núcleo diferenciado na estrutura da empresa. As parcerias estenderam-se a outros importantes projetos: o segundo prêmio no concurso para a Secretaria da Fazenda de São Paulo, em 1968 (com Fajardo e Pait), o projeto não selecionado para o Pavilhão do Brasil na Expo Osaka de 1970 (com José Carlos Priester e Vallandro Keating), o Hospital Escola Júlio de Mesquita Neto, em 1969 (com Fábio Penteado, Teru Tamaki, Tito Lívio Frascino e Giselda Visconti), o Centro Cultural Beaubourg, em 1971 (com Dácio e David Ottoni).

O ano de 1968 marca uma nova etapa em sua produção. Dácio já se desligara para trabalhar com o irmão David, e Eduardo ressente-se de uma abordagem mais aprofundada e apurada nos processos construtivos do edifício. O escritório passa a se localizar na rua Joaquim Eugênio de Lima, e se torna um grande espaço para discussões e debates, com participação de colegas.

O entendimento da arquitetura estava muito mais associado a atividades artísticas. Em 1969, Eduardo estabelece escritório próprio e retoma os trabalhos em sociedade apenas em 1978 com o arquiteto Arnaldo Martino. Juntos, desenvolveram projetos voltados principalmente para residências unifamiliares e edifícios industriais. Destacamos o projeto da residência do Pacaembu (1986), em que se sintetiza uma série de experiências ligadas a sistemas construtivos em estrutura metálica, que perduraram na obra de ambos, mesmo depois de dissolvida a sociedade em 1986.

Convém destacar uma importante produção de edifícios voltados para habitação coletiva: os Edifícios Gemini (1970), Coronet (1972) e Lark (1971). Os Edifícios Gemini receberam o primeiro lugar na premiação anual do IAB, em 1974, na categoria Habitação Coletiva.

Neste projeto encontramos a síntese das pesquisas feitas na FAUUSP e em seu período de formação na Itália. Diante da estreita relação entre norma, projeto e tecnologia, é evidente como esta última não depende exclusivamente de instrumentos materiais e de máquinas, mas de instrumentos conceituais, de ideias coordenadas em um discurso coerente. Discurso lançado na direção de um objetivo específico e articulado rigorosamente de modo que os sinais que o compõem não constituam uma simples sequência, mas um sistema, e que possam gerar transformações.

Sobre os componentes, além de defini-los, os informa seja no sentido de fabricação seja no de manutenção: pode-se projetar a manutenção dos componentes. A unidade e a continuidade de projeto estão exatamente na elaboração, na execução, no uso e na administração. A chamada ``industrialização do projeto`` ocorre no momento do desenvolvimento do projeto, quando a administração representa, ao lado da execução, ao mesmo tempo o guia e o mecanismo que o materializa e o faz viver no tempo. Essas condições foram propiciadas pela Construtora Forma espaço. Num raro momento de visão empresarial associada à arquitetura de ponta, além de Eduardo, essa construtora executou projetos de Abrahão Sanovicz (os famosos Modulares) e Paulo Mendes da Rocha (Protótipo).

Eduardo desenvolveu projetos de edifícios para usos educacionais (escolas para o FDE, de 1964 até hoje), hospitalares (edifício para a ACTC, 2002), industriais (Indústrias Morlan em 1975 e Henkel em 1983), culturais (Novo Teatro de São Paulo, 1993; Museu de Arte Contemporânea da USP, 2001; Biblioteca Nacional do México, 2003; Museu Costantini em Buenos Aires, 1997 - menção honrosa em concurso presidido por Norman Foster) e institucionais (Edifício Sede da Fapesp, 1991; Novo Campus da Fundação Getúlio Vargas, 1995 - projeto vencedor de concurso; Edifício da Sede SAP, 2007, em parceria com César Shundi Iwamizu e o IEB-Brasilianas na USP em parceria com Rodrigo Mindlin Loeb e ainda em construção).

Eduardo desenvolveu projetos para as mais diversas necessidades e tipologias arquitetônicas. Entendemos que há uma abordagem metodológica desenvolvida por ele, que permite projetar em outras escalas de edifícios, e conteúdos programáticos distintos. Eduardo entende que um programa arquitetônico é apenas uma referência. Muitas vezes não vem pronto, como no IEB-Brasilianas onde em uma mesma edificação duas bibliotecas deveriam ser atendidas: a do IEB chegou com um programa extremamente minucioso e meticuloso, enquanto a biblioteca Mindlin foi se desenvolvendo ao longo do projeto. E ambos os programas podem interferir na configuração final do edifício.

Quando o programa é interpretado não de maneira meramente quantitativa, mas arquitetônica, percebem-se suas particularidades e potencialidades. Para o Museu Costantin (1997), Eduardo resolveu a qualificação dos grandes espaços expositivos. No MAC da USP (2001), a grande questão a ser resolvida foi sua inserção urbana e seu caráter vertical, em que as atividades poderiam se desenvolver no edifício, com o arranjo dos fluxos verticais de elevadores, do monta-cargas e das aberturas para captura de luz.

O Salão Caramelo, o espaço mais importante do prédio da FAUUSP (1961) não constava no programa, e Eduardo destaca que não bastava atender à demanda de estúdios: o grande mérito do projeto é o arranjo e articulação dos espaços oelas rampas, pela localização da biblioteca.

É na elaboração e resolução do projeto por meio das plantas que o arquiteto cria integrações espaciais, com domínio e consistência. Ao elaborar o desenho, organizam-se os eixos de circulação, os eixos visuais e as setorizações de usos, que integrados criam ambiências, que funcionam de maneira integral, aliando clareza funcional na distribuição dos fluxos dos usuários, com os ambientes acoplados a esses eixos organizadores. Nesse eixo, espinha que definirá o sistema estrutural, ocorrerão os momentos de exceção, que são: os focos de luz, propiciados pelo uso da luz zenital; e a supressão de vedos, formando os ambientes de destaque e de destino, no conjunto da demanda programática. Ocorrendo a promenade arquiteturale, o percurso que se dá de maneira dinâmica e rica. Há um importante momento nas decisões projetuais em que se observa um alinhamento entre o desenho, em seu rigor geométrico, e sua materialização nos materiais que constituem o edifício construído. Isso vem da organização modular estrutural, e sua subdivisão em módulos constitutivos dos demais componentes do sistema: pisos, vedos, aberturas.

Na definição dos materiais de acabamento ocorre a aplicação do rigor do desenho aliado à vocação do material empregado, em sua natureza original.

Os projetos de Eduardo de Almeida não têm pré-estabelecidos sistemas estruturais. A estrutura surgirá da análise aprofundada de adequação às necessidades programáticas e construtivas. O ponto decisivo mostra-se na definição das melhores explorações e potencialidades do material (madeira, concreto armado, metal) e a expressão de seus limites - e, assim, chegar à esbelez possível e às possibilidades da estrutura integrada de forma harmônica nos demais elementos compositivos. A modulação define rigor para os processos construtivos, mas não se apoia na máxima dos grandes vãos livres, ou desenhos mirabolantes estruturais. Mesmo nas experimentações com modelos estruturais hiperestáticos, como o pavilhão em Pinheiros, ou o Museu Costantini, elas se fazem de maneira a buscar a leveza estrutural, não a expressão plástica como fim.

Na caixilharia, há a organização de um sistema impecável e preciso. A adoção de sistemas de controle de luz, com brises móveis, ou telas metálicas em malha expandida como no prédio da SAP, ou no átrio iluminado zenitalmente da residência Pacheco.

As iluminações zenitais são um instrumento que o arquiteto utiliza com frequência, seja para iluminar os blocos hidráulicos inseridos no centro dos arranjos em planta dos projetos, seja para iluminar áreas importantes no conjunto plástico interno dos ambientes (residências Bressere Reinach).

Ao definir os sistemas construtivos, Eduardo de Almeida estabelece a linha de pesquisa e as tecnologias que se mostrem mais adequadas. Como essas opções terão expressão plástica definidas, todos os demais componentes se harmonizam com uma linha mestra. Daí, uma independência ao sistema estrutural definido originalmente. Aqui, mantém-se o respeito pela linguagem de cada elemento, possibilitando que caixilharias tradicionais das madeiras integrem-se harmoniosamente como um todo. Sem citações vernaculares nem rebuscamientos. Vemos essas variações aplicadas nas casas de praia projetadas com estruturas de madeira, desenvolvidas pelo engenheiro Hélio Olga (como a de 11habela, premiada com menção honrosa na 5? Bienal Internacional de Arquitetura de 2003, e a de Laranjeiras).

Vedos têm sido entendidos como sistemas independentes, mas condicionados à estrutura exposta. Desde as alvenarias convencionais aos painéis pré-fabricados, rigorosamente modulados. No caso da SAP, nos pilotis do bloco elevado, há um volume independente que pedia um acabamento diferenciado que o destacasse e dignificasse. Foi quando, lembrando o térreo do prédio do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, o arquiteto decidiu revesti-lo com ladrilhos hidráulicos especialmente desenhados, em dois tons de azul.

É também clara sua atenção aos detalhes construtivos, e a dificuldade de repeti-los, por entender que cada obra demanda um comportamento diferente. Cada espaço se expressa em seu conjunto de forma harmônica, sem gritos.