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Guia Rio Claro

Pelos caminhos do senhor reitor

Publicado em 09 março 2009

O professor doutor Herman Voorwald está muito ocupado. A atmosfera, em um dos andares do prédio da reitoria da Universidade Estadual Paulista, em São Paulo, é de muito trabalho. Sua eleição para a reitoria da Unesp foi vista por ele como um caminho natural em sua evolução acadêmica. Desde muito cedo já ocupou cargos importantes nos quadros administrativos da universidade, que hoje figura entre as quinhentas melhores do mundo.

Em meio a mudanças e reuniões, o novo reitor da Unesp, rio-clarense de nascimento e cidadão do mundo por força de sua profissão, achou um tempo em sua concorrida agenda para receber a equipe da Drops para sua primeira entrevista depois de ter assumido o cargo em 14 de janeiro.

Pela sua mesa passam projetos, discussões, problemas, realizações e um orçamento de quase R$ 1 bilhão, dividido para as unidades da Unesp espalhadas pelo Estado de São Paulo com seus quase 50 mil alunos e mais de 10 mil funcionários, entre docentes e pessoal técnico administrativo.

Engenheiro por formação, professor Herman aponta os rumos para a instituição nos próximos dez anos e fala do novo campus da Unesp recém-inaugurado na Barra Funda.

Em uma parte inteiramente dedicada ao campus da Unesp em Rio Claro, o reitor não deixa de comentar o contra-senso de na cidade estar uma das mais importantes faculdades de Ecologia do mundo e, mesmo assim, o município figurar somente na 130ª posição na lista dos Municípios Verdes elaborada pelo Governo Estadual.  “O fato é que não nos procuram. E, quando nos procuram, é para pedir cursos e um campus novo”.

Para ele, há o que classifica de “visão de curto prazo” por parte dos Poderes Públicos em relação à universidade e seu potencial em participar das soluções dos problemas da comunidade. Provocador, o professor Herman se diz disposto a aceitar essas demandas. Ainda celebrando sua eleição à reitoria da Unesp, Voorwald parece inspirar a todos que o acompanham por ali em mais um dia de trabalho.

Qual ou quais são os maiores problemas a serem resolvidos na Unesp? Nesse contexto, onde é que a Unesp já se firmou como produtora de conhecimento?

A Unesp é muito dinâmica. É, das três universidades públicas, a que tem um modelo absolutamente desafiador. Ela está distribuída em 23 cidades do Estado de São Paulo com mais de trinta unidades universitárias. A Unesp inclui, interfere e colabora com o desenvolvimento econômico das cidades e das regiões onde ela está. Em última instância, seu orçamento está voltado para o Interior do Estado e permite que a juventude, que teria muitas dificuldades em vir para a Capital, possa estudar e se formar em cursos de qualidade. Então, a Unesp terá sempre uma dinâmica de muito desafio pelo crescimento. Induzido pela sociedade, que evidentemente quer uma maior participação da universidade na solução dos problemas. O desafio que considero mais importante a ser enfrentado na Unesp atualmente é quadro de pessoal. Ela teve, por conta de seus 33 anos, um envelhecimento natural. Há uma necessidade de reposição de aposentadorias de docentes e de servidores técnicos. Também, a partir de 2001, a Unesp cresceu muito, com a criação de 38 novos cursos e oito novos campus experimentais. A reposição de aposentadorias e a consolidação de um quadro de docentes e servidores para estes cursos novos são coisas importantes. Tenho ainda como meta o grande campus da Unesp na cidade de São Paulo, que está no plano de gestão. Assim, com a inauguração do campus na Barra Funda a Unesp se insere fortemente na Capital também.

Qual sua visão sobre a organização departamental das universidades brasileiras? Essa divisão em institutos, idealizado na década de 60 não precisaria passar por uma reformulação que favoreça maior interdependência e interdisciplinaridade?

O estatuto determina que o departamento é a célula básica da composição administrativa da instituição. Então, a vida do docente está ligada a um departamento. Depois, temos os conselhos de curso de graduação e pós-graduação, a congregação das unidades universitárias e, em última instância, os órgãos colegiados centrais. A base é o departamento. Discutimos esta estrutura departamental durante mais de dois anos. Esta discusão gerou o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), que projeta a Unesp para os próximos dez anos e esta projeção da Unesp contempla a inserção e sua presença entre as mais importantes universidades do mundo. Hoje, ela está entre as quinhentas melhores. A proposta é de que a Unesp avance muito nessa colocação nos próximos dez anos. Uma das questões discutidas foi exatamente a existência ou não dos departamentos. Embora essa discussão tenha sido muito rica, a comunidade que discutiu o PDI acabou por apresentar uma decisão extremamente conservadora e que concorre pela manutenção dos departamentos.

Há uma preocupação do governo em tornar a universidade mais acessível e próxima. Por outro lado, há ainda uma certa resistência da universidade em buscar recursos na iniciativa privada e se associar a ela para a produção de tecnologia. Como o senhor analisa isto?

Isso já mudou muito. Atualmente a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) tem programas muito interessantes, como o Programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) e o Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE), que são programas que incentivam e aportam recursos para pequenas e micro-empresas para a geração de emprego e renda e desenvolvimento de tecnologia. Posso afirmar que essa resistência está diminuindo. Percebe-se que a universidade, por meio de programas como esses, pode participar com seu conhecimento na solução de problemas que irão resultar na melhoria da condição de vida da população. Havia um conceito preestabelecido na universidade há alguns anos que vem sendo revisto, de que é possível essa interação sem que se perca o foco da pesquisa e do produção do conhecimento acadêmico.

Qual sua opinião sobre as cotas para negros e alunos da rede pública nas universidades?

Eu presidi um colegiado que tratou de toda a política de ensino, pesquisa e extensão, o CEPE. Durante um ano, trouxe especialistas que vieram falar de experiências em suas universidades com relação a programas de inclusão. Estiveram aqui especialistas da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Houve uma interação muito forte do colegiado em cima dessa questão. Mas, naquele momento, gostaríamos de saber sobre as experiências das outras universidades para obter informações importantes quando da tomada da decisão. Uma vez esgotadas essas palestras e relatos, eu pautei o assunto e percebi que o colegiado foi contra qualquer tipo de cota. A idéia, então, foi direcionada para a discussão de uma política de inclusão, mas que não tivesse a cota racial como forma de análise. Assim, a Unesp, através do seu colegiado que trata da matéria, não concordou, nem colocou na ordem do dia a discussão da cota racial. O que o colegiado aprovou foi, independentemente da questão de raça - um conceito extremamente complexo -, que a Unesp deva ter 50 % dos alunos que estão ingressando por meio do vestibular sejam egressos do Ensino Médio da rede pública de ensino. Ainda não atingimos este número, estamos beirando os 34%.

Em 2007, o campus de Rio Claro, recebeu cerca de R$ 70 milhões para o conjunto de suas despesas. Esse valor é aproximadamente um terço do orçamento do município, que tem mais de 180 mil habitantes. Considerando-se um universo de 5 a 6 mil pessoas diretamente envolvidas na Unesp Rio Claro, entre alunos, funcionários e professores, não é muito dinheiro?

Hoje as três universidades recebem 9,57% do ICMS, dos quais 2,3447% são para a Unesp. Esse recurso é destinado para todas as despesas da Unesp. Desse valor, 85% são para a folha de pagamento, o que é um quantitativo histórico das três universidades. Digo isso, porque o modelo é este. Defendo este modelo de forma ardorosa pois faz com que a administração veja no humano o seu diferencial. A universidade não é prédio, universidade é gente. Só se tem uma grande instituição se tivermos um grande quadro de docentes e servidores técnico-administrativos. Temos um controle muito grande sobre os custeios. Essas unidades, como a de Rio Claro, tem um orçamento compatível com o que ela precisa para os custeios com contratos. Digo com absoluto conhecimento de causa que as unidades universitárias da Unesp sabem cuidar muito bem desses recursos.

A Unesp Rio Claro tem uma das melhores faculdades de Ecologia do país e também é referência internacional para a área. No entanto, o município de Rio Claro ficou em 130º lugar no ranking dos Municípios Verdes divulgado recentemente pelo Governo do Estado. Isso não é um contra-senso? Não reflete uma certa distância da universidade em relação aos problemas da cidade?

O que há é uma falta de sintonia com os Poderes Públicos Estadual e Municipais. Há muito pouca demanda por parte destes poderes junto à Universidade. Sinto uma carência muito grande de pessoas vindo aqui, como secretários de Estado, secretários Municipais e prefeitos. E não se trata de vir aqui para pedir cursos novos. Porque, geralmente, a leitura que fazem é esta: ‘se eu tiver mais cursos, vou ter mais professores e mais alunos. Dessa forma terei mais arrecadação’. A leitura tem que ser outra. Se a cidade tem problemas que a universidade tem conhecimento para colaborar na suas resoluções, tragam os problemas para a instituição. A universidade tem a responsabilidade social d tentar buscar solução para os problemas públicos. O que ocorre é que há muito pouca procura por parte dos órgãos públicos. Eu gostaria que a Unesp fosse demandada mesmo, e de forma continuada, na busca de conhecimentos para solucionar os problemas das comunidades onde está inserida. E essa busca não precisa ser pontual, pode também ser para projetar soluções para daqui a cinco, dez ou vinte anos.

Durante oito anos, Rio Claro teve um prefeito que saiu dos quadros da Unesp, o professor doutor Cláudio de Mauro (PV), que entregou a cidade com apenas 27% do esgoto tratado. Ao terminar seu governo sem conseguir eleger o sucessor, o vencedor foi Nevoeiro Junior (DEM). Este, que também perdeu a reeleição, optou por fazer Perceria Público-Privada e deixou o governo sem tratar sequer um metro cúbico a mais do problema. São Carlos, cujos dois últimos prefeitos foram reitores da UfSCar, adotou um modelo de tratamento de esgoto a partir do envolvimento das universidades no problema e, hoje, têm 100% do problema resolvido. São Carlos pode servir de exemplo para o que o senhor disse anteriormente?

Sem dúvida que sim. O grande problema é que as respostas que se quer das universidades nem sempre são na velocidade que ela pode dar. Se houver um planejamento de médio prazo, sem que ele seja restrito a uma apenas uma gestão, claro que a universidade pode participar. Que venham as demandas. Mas, o fato é que não nos procuram. E quando nos procuram é para pedir cursos e um campus novo. Claro que essa demanda também é justa, mas a universidade não é só isso. Em Rio Claro, temos dois institutos fortíssimos, o Instituto de Geociências e Ciências Exatas e o Instituto de Biociências, com corpo docente altamente competente. O que falta na minha opinião é vontade política municipal em buscar a Unesp para participar da discussão dos problemas da cidade. É a tal da visão de curto prazo.

No ano passado, Rio Claro sediou pela primeira vez o InterUnesp. Boa parte da população se manifestou contrária ao evento e de forma veemente nos órgãos de imprensa locais. Qual sua visão sobre o InterUnesp?

Lembro de uma ocasião em que Guaratinguetá foi sede, não do InterUnesp, mas dos jogos dos estudantes de Economia, os Jogos Jurídicos, entre outros. A cidade fica absolutamente intransitável pela quantidade de veículos e pessoas, os restaurantes e bares ficam cheios e os alunos andam para todos os lados. O comércio gosta muito, mas a população não, porque sua rotina é prejudicada. Que há reclamação, há mesmo. Que há exagero dos jovens, há sim. Porém, o conceito do InterUnesp é muito bom. Não podemos nos esquecer que a universidade tem no aluno a razão da sua existência. Então, a proposta do Interunesp é integrar e congregar os estudantes que não estão no mesmo campus. Uma coisa é fazer isso na USP, onde os alunos já estão na mesma unidade. Outra é com jovens que estão em unidades bem distantes, como é o caso da Unesp. É lógico que pode ocorrer excessos por parte de alguns jovens, mas isso não ofusca o objetivo do InterUnesp, que é muito bom. A organização do evento é dos alunos, a Unesp apenas oferece uma infraestrutura.

O alcoolismo e as drogas são um problema também presntes na universidade.  O senhor não acha que a universidade deveria tomar para si esse problema, com mais orientação ou maior aproximação com os problemas pessoais de cada aluno?

Nós já fazemos essas campanhas. O assunto é muito mais complexo do que imaginar que esse problema ocorre apenas na universidade. É conseqüência de muitos fatores externos à universidade. Tenho hoje 53 anos. Quando jovem, eu tinha muito medo da polícia, de Deus e do meu pai. Hoje o jovem não tem mais medo do pai, nem da polícia e, muito menos, de Deus. Não há mais limites, não há barreiras. Isto leva à disseminação de algo que na minha época também existia, porém havia um controle maior, com uma escola de formação mais rígida e uma religião mais ativa. Hoje, de maneira geral, não se tem mais isso. A universidade está preocupada com isso sim e as unidades têm seus programas de prevenção, com palestras, programas de recuperação e orientação.

Quais lembranças boas guarda de Rio Claro?  

Entre tantas boas lembranças de Rio Claro está o Colégio Koelle. Durante a minha passagem pela cidade em campanha pela reitoria, fiz uma visita aos seus diretores, Theodoro, Gunar e Ingo, que deram aula para mim na época. Na ocasião, disse a eles que a base de educação que tive no Koelle foi fundamental para a minha formação, não só profissional, mas minha formação como ser humano, com disciplina, seriedade, responsabilidade. Com quinze anos, tive a oportunidade de estar em um laboratório fotográfico e aprender a revelar fotografias, ter aulas de alemão, inglês, natação, entre tantas outras coisas. Tenho uma lembrança muito boa e, em boa parte, muito do que sou devo à formação sólida, com professores sérios e ao humanismo com que fui educado no Ginásio Koelle, durante um período fundamental da minha vida. Eu sou exemplo de como uma formação sólida nos ensinos Fundamental e Médio, como a que tive no Koelle, é importante não só para uma formação superior, mas para a vida.

(Entrevista: Marcelo Lapola e Carlos Marques. Fotos: C. Marques)