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Diário do Comércio (SP) online

Pele natural renasce em laboratório

Publicado em 24 junho 2005

Pesquisa inédita realizada na Unicamp conseguiu reproduzir pele de paciente queimado

Uma pesquisa inédita está trazendo esperança para vítimas de queimaduras ou úlceras. Pesquisadora da Unicamp, Beatriz Puzzi, médica dermatologista, conseguiu desenvolver em laboratório o mais extenso "órgão" do corpo humano: a pele.
A partir de estudos desenvolvidos com cultura de células da pele, a pesquisadora produziu as camadas derme e epiderme para serem utilizadas em pacientes que necessitem de enxertos quando a área doadora é escassa. Hoje os procedimentos médicos são realizados com substitutos dérmicos e até mesmo com pele de cadáver, fornecida por bancos de pele.
Uma pequena amostra da pele do próprio paciente ulcerado ou queimado é o necessário para que se realize a reconstrução. Em laboratório, os pesquisadores separam a derme da epiderme e as cultivam separadamente. Os fibroblastos, células que fazem parte da derme, são implantados em colágeno bovino.
O segredo do trabalho está nesta fase, pois o colágeno consegue orientar o crescimento das células, que passam a produzir o colágeno humano. Depois, é só juntar derme e epiderme que a pele estará pronta para ser reimplantada. "Desta forma, conseguimos uma pele estruturada", explica Beatriz. Todo o processo leva de 20 a 30 dias.
A pesquisa começou há cinco anos, quando Beatriz voltou de um pós-doutorado na França. "Consegui montar um laboratório aqui na Unicamp e, com a ajuda de amigos, comecei a pesquisar", explica. O Laboratório de Cultura de Células da Pele foi feito com verbas da FAPESP e custou cerca de US$ 60 mil.
No início de maio a descoberta rendeu à dermatologista o segundo lugar em pesquisa inovadora no 4º Congresso Mundial de Banco de Tecidos. A pesquisadora concorreu com pelo menos 300 especialistas, de mais de 25 países.
Para Flávio Nadruz Novaes, coordenador da única unidade de tratamento de queimaduras da região, localizada em Limeira, a reprodução da pele humana em laboratório é uma grande revolução: "Tecnicamente esta é uma solução maravilhosa. Quando tivermos acesso a esta técnica, aumentaremos o número de cirurgias e, conseqüentemente, aumentaremos a sobrevida dos pacientes", sublinha. Mas, reconhecimento apenas não basta. A pesquisa, agora, está estagnada por falta de recursos. A equipe da dra. Beatriz tem pela frente mais testes. Será necessário aplicar a técnica em pelo menos 20 pacientes-cobaia antes de disponibilizar o recurso para a utilização clínica.