Notícia

Jornal do Brasil

Pela medicina 'Verde'

Publicado em 05 junho 2000

Com uma das maiores biodiversidades planeta, o Brasil é uma verdadeira estufa de plantas medicinais. Para descobrir novas substâncias naturais e novas aplicações para as já existentes, as pesquisadoras Vanderlan Bolzani, do Instituto de Química da Unesp, e Maria Cláudia Young, Instituto de Botânica, ligado à Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo, se aventuraram floresta a dentro e coletaram cerca de 350 extratos de plantas da Mata Atlântica e do Cerrado paulista. Destes, 12 apresentaram ação antioxidante, antifúngica ou antitumoral. "É um resultado muito animador. Em pesquisas como essa, o errado é encontrar 1% de espécies atividade biológica de interesse. Das plantas analisadas, 3% podem ser aproveitadas para fins medicinais", disse Vanderlan. A pesquisa faz parte do projeto Biota, financiado pela Fapesp, que visa, financiado pela Fapesp que visa ao mapeamento e análise da flora e a fauna paulistas, Iniciado em março de 1999, o projeto deve ser concluído em 2002 eram até então desconhecidos. Um deles age contra bactérias que causam doenças respiratórias, como a pneumonia. O outro atua sobre a broca da cana, praga que ataca as lavouras canavieiras, diminuindo a produtividade da planta e, conseqüentemente, de açúcar e álcool. Os dois foram extraídos de plantas da Mata Atlântica. "Estamos nos preparando para pedir a patente das substâncias", contou Vanderlan. Já foram feitos testes de toxicidade em animais com o primeiro extrato. No caso do princípio ativo que age contra a broca da cana, Vanderlan ainda quer isolar quantidades maiores da substância para que os mesmos testes sejam feitos. "Se o extrato responder bem aos testes, será um ganho para a agricultura. Hoje, os agricultores usam agrotóxico para combater esta praga, causando danos ao meio ambiente e à saúde humana". Entre as espécies que apresentaram ação contra tumores, está a Cássia Leptophylla, árvore de flores amarelas muito comum no Paraná e Santa Catarina. Vanderlan está tentando modificar a estrutura da substância ativa para transformá-la num fármaco. Três espécies apresentaram propriedades antitumorais e antioxidantes. Para Vanderlan, a descoberta pode levar a medicamentos que tenham dupla ação. "É possível que organismos relacionados com o câncer também participem de processos oxidantes", explicou. A pesquisadora pretende fazer parceria com indústrias para a produção de medicamentos. Apesar de centenas de plantas não terem respondido positivamente aos testes antioxidante, antifúngico ou antitumoral, todas elas foram catalogadas e analisadas para que seu perfil químico pudesse ser traçado. Segundo a pesquisadora, é importante conhecer a constituição química da planta para entender como ela se adapta ao meio ambiente. "Temos que saber em que condições as plantas podem sobreviver para que elas não sofram ao serem transferidas". Além disso, as plantas podem sintetizar substâncias diferentes, dependendo do ambiente em que está. Através do perfil químico da planta também é possível identificar a época do ano em que a produção de princípios ativos é' maior, otimizando o processo de extração das substâncias. PROPRIEDADES ANTIOXIDANTES A solução para doenças degenerativas crônicas, como a artrose, pode vir de longe. Precisamente da região de Bordeaux, no Sul da França, que abriga as únicas mudas da espécie Pimus maritimus, espécie de pinheiro cuja casca dá origem a um extrato com propriedades antioxidantes. Estudo feito por Efrain Olszewer, do Centro de Medicina Preventiva, em São Paulo, mostra que o exato impede que as doenças progridam, evitando o consumo de antiinflamatórios cada vez mais fortes. O extrato inibe a produção de radicais livres, principalmente os solúveis em água, e recupera a ação de substâncias que, depois de oxidadas, ficam depositadas nos tecidos gordurosos, como a vitamina E. O excesso de radicais livres é a provável causa da degeneração dos tecidos. Há cinco anos, Efrain acompanha o efeito do extrato em 100 pessoas que têm problemas reumáticos. A dose administrada nos voluntários varia de 35g a 150g por dia. "O que temos percebido é que essas pessoas conseguem manter uma boa qualidade de vida. Não precisam ficar substituindo os remédios que estão tomando por outros mais fortes porque, como a degeneração dos tecidos não avança, a dor também não evolui", diz. Efrain também está avaliando o efeito do extrato em mais dois grupos de voluntários: pacientes com doenças cardiovasculares esportistas. Nos primeiros, ele funciona como uma espécie de aspirina natural, pois evita a formação de coágulos e dilata vasos capilares, prevenindo enfartes e derrames, com a vantagem de não agredir o estômago.