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TV TEM (São José do Rio Preto, SP)

Peixes Pit Bull

Publicado em 25 fevereiro 2006

Por Luís Cardoso
Pesquisador da Unesp-Bauru estuda espécies híbridas maiores e faz alerta sobre risco ambiental e biológico dessa mistura sem controle

Na disputa pelos clientes, os pesque-pague têm como uma das estratégias de concorrência os peixes híbridos, criados a partir da mistura de duas espécies diferentes.
São peixes maiores, mais atraentes, que chamam a atenção e são cobiçados pelas características não encontradas nas espécies conhecidas.
Mas representam riscos graves ao meio ambiente.
"Estão brincando de Deus", afirma o pesquisador Fábio Porto Foresti, da Unesp-Bauru. Ele é um dos coordenadores do Laboratório de Genética de Peixes da universidade, o único no Brasil a trabalhar com a genética aplicada à piscicultura. O risco é de extinção de espécies, por causa da interferência, sem regras, na natureza. Ainda faltam estudos para concluir se os peixes híbridos são estéreis ou não, mas, nos dois casos, o meio ambiente está ameaçado.
Caso eles sejam estéreis, podem atrair fêmeas das espécies naturais para o acasalamento e estas vão desperdiçar seus ovos, provocando um decréscimo da população. No caso contrário, o cruzamento com espécies nativas provocará a perda da identidade original, gerando uma nova espécie.

Contaminação
Os estudos feitos pelo laboratório da Unesp-Bauru, em parceria com o Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros Continentais do Ibama, tem como um dos objetivos criar regras para a criação dos híbridos.
Hoje isso é feito de forma desordenada, sem nenhum controle. Os ameaçadores híbridos podem chegar aos rios por meio de enchentes, que inundam pesqueiros e tanques de criadores e arrastam os peixes modificados. Isso, provavelmente, já ocorreu. "Já foram encontrados peixes híbridos na natureza", informa o pesquisador. Por isso há pressa no andamento da pesquisa, iniciada em 2003. Além de criar regras, os estudiosos trabalham na determinação dos tipos genéticos produzidos. Já foram fixados marcadores cromossômicos e moleculares de quatro espécies entre as cinco mais produzidas no país.
O conhecimento do perfil genético e as práticas corretas de manejo, regulamentadas por lei, podem diminuir os riscos ambientais e biológicos.
A intenção dos pesquisadores de Bauru é oferecer aos piscicultores um serviço de consultoria e aconselhamento genético.

Misturas
De acordo com Foresti, a maior parte dos grandes criadores de peixes fazem as misturas que dão origem aos híbridos. Misturadas, as espécies são vendidas para os pesque-pague ou mesmo para piscicultores.
Um exemplo de hibridação é a cachapira, mistura genética da cachara com a pirarara. A atração nos pesque-pague não é a única explicação para o abuso da técnica. A mistura genética facilita a reprodução, e, é claro, o lucro de quem vende peixe. Por isso, até mesmo quem nunca foi a um pesqueiro pode ter contato com um híbrido sem saber.
Um exemplo: uma dona-de-casa que vai ao supermercado comprar um pacu e acabe levando um tambacu -resultado do cruzamento da fêmea de tambaqui com o macho do pacu.
Vantagem para os criadores, perigo para a natureza.
"Hoje, o homem é maior causador da extinção de espécies. Em segundo lugar vem a hibridação", explica Foresti.

Laboratório
O Laboratório de Genética de Peixes da Unesp foi instalado em 2003, com recursos da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).
Foresti obteve R$ 250 mil para montar a estrutura e pesquisar a genética de peixes, área em que já atuava durante o mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unesp de Botucatu. Além de Foresti, o laboratório é coordenado pelo professor Jehud Bortolozzi e integrado ao Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Ciências. Atualmente, cinco estagiários de iniciação científica desenvolvem seus trabalhos sob a coordenação direta de professores.
A mistura genética aumenta a reprodução e o lucro de quem vende peixe: vantagem para os criadores, perigo para a natureza. No detalhe, de cima para baixo, as espécies Cachapira, Piaupara e Pintachara