Notícia

Ambiente Energia

Peixes do Tietê

Publicado em 12 agosto 2010

Por Alex Sander Alcântara, da Agência Fapesp - O rio Tietê está intimamente ligado à história de São Paulo. Suas margens serviram como via de acesso para jesuítas e bandeirantes entre os séculos 16 e 18. Com o surgimento das cidades, o rio - que nasce na Serra do Mar, dentro dos limites do município de Salesópolis e percorre cerca de 1.150 quilômetros até desaguar no rio Paraná, na divisa com o Mato Grosso do Sul - passou a sofrer fortemente o impacto da ocupação humana.

Atualmente, apesar de se manter relativamente preservado até o município de Mogi das Cruzes SP , em uma área conhecida como alto Tietê que vai da nascente até mais ou menos os limites do município de Sorocaba , o rio apresenta cerca de 40% de seu volume total formado por esgoto industrial e residencial, com índice zero de oxigênio.

Mas uma combinação de ações governamentais e de empresas - com a participação ativa de pesquisadores - tem possibilitando repovoar espécies de peixes e recuperar áreas degradadas.

Com o objetivo de registrar a diversidade de peixes dos rios das cabeceiras do alto Tietê e do rio Itatinga, localizado no Parque das Neblinas, entre os municípios paulistas de Mogi das Cruzes e Bertioga, pesquisadores da Universidade de Mogi das Cruzes UMC lançarão em breve o livro Peixes das cabeceiras do rio Tietê e Parque das Neblinas.

A obra é resultado de pesquisas e atividades de conservação realizadas por Alexandre Pires Marceniuk e Alexandre Wagner Silva Hilsdorf, professores da UMC, em parceria com empresas e órgãos estaduais, junto às regiões de cabeceiras.

O livro recebeu apoio da Fapesp na modalidade Auxílio à Pesquisa - Publicações. Teve também apoio da Suzano Papel e Celulose, da Fundação de Amparo ao Ensino e Pesquisa Faep e do Departamento de Águas e Energia Elétrica, órgão gestor dos recursos hídricos do Estado de São Paulo.

Segundo Hilsdorf, responsável pelo Laboratório de Genética de Organismos Aquáticos e Aquicultura da UMC, o livro foi concebido para um público não familiarizado com regras e nomenclatura zoológicas e com termos específicos utilizados na identificação das espécies.

Pensamos em organizá-los de forma didática para que o livro atingisse um público maior, de forma que alunos do ensino fundamental e médio e professores possam usá-lo em trabalhos de educação ambiental sobre a região, além de despertar uma consciência ecológica para as futuras gerações , disse à Agência Fapesp.

A obra abriga também informações mais especializadas, traz definição e caracterização histórica da área, aspectos gerais sobre a ictiofauna conjunto das espécies de peixes de uma região biogeográfica , imagens de suas paisagens, além da descrição morfológica, anatômica e funcional básica das espécies.

Incluímos também aspectos de sistemática, com categorias taxonômicas como ordem, família e subfamília, mais nomes populares, dados sobre distribuição, ecologia e habitat, estado de conservação e comentários , disse Hilsdorf.

A publicação reúne 53 espécies de peixes, encontradas nas cabeceiras do Tietê e no Parque das Neblinas, em uma reserva de 2.800 hectares gerenciada pelo Instituto Ecofuturo. Não fizemos um inventário completo em todos os rios da cabeceira. O livro traz o que coletamos em um primeiro momento nessas regiões e no parque , ressaltou.

Foram 17 áreas de coletas, compreendidas entre rios e represas. A região de cabeceiras ocupa uma área de 1.889 km² entre a nascente do Tietê e Itaquaquecetuba, incluindo os municípios de Biritiba-Mirim, Ferraz de Vasconcelos, Guararema, Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Poá, Salesópolis e Suzano. Os principais afluentes do Tietê, que formam a bacia de cabeceiras, são os rios Claro, Paraitinga, Biritiba-Mirim, Jundiaí e Taiaçupeba-Mirim.

As regiões de cabeceiras são habitadas principalmente por espécies de pequeno porte, com menos de 15 centímeros de comprimento e bastante dependentes da vegetação ciliar para alimentação, abrigo e reprodução. Essas espécies geralmente são caracterizadas por alto grau de endemismo e distribuição geográfica restrita , explicou Hilsdorf.

Novas espécies - Espécies de carás, lambaris, bagres, traíras, tabaranas, tilápia, entre outras, por serem muito dependentes do material orgânico originário da vegetação encontrada nas margens dos rios, estão fortemente ameaçadas. A eliminação de matas ciliares e o uso excessivo de fertilizantes e praguicidas nas atividades agrícolas têm contribuído para as mudanças e degradação no ambiente natural, indicam os autores.

O conhecimento da diversidade, evolução e biologia das espécies de peixes das cabeceiras é um dos maiores desafios da ictiologia brasileira no início deste século , ressaltou Hilsdorf.

Ao fazer a comparação taxonômica e morfológica das espécies, os pesquisadores estimam que quatro delas sejam novas. Estamos em fase de descrição dessas espécies e vamos submeter artigos para publicação , disse.

Grande parte das espécies não tem valor comercial, com exceção da tabarana parente do dourado , da traíra e da tilápia. A comunidade de pescadores vive da pesca, principalmente nos reservatórios. Eles nos ajudaram muito durante o processo de captura e estamos coordenando trabalhos para a criação de uma cooperativa , disse.

Segundo o professor da UMC, parte dos livros será doada a bibliotecas de escolas da região. Queremos convidar professores de ciência e alunos para fazer o lançamento, que será acompanhado de palestras sobre conservação do rio Tietê , disse.

Título: Peixes das cabeceiras do rio Tietê e Parque das Neblinas

Autores: Alexandre Pires Marceniuk e Alexandre Wagner Silva Hilsdorf

Editora: Canal 6

Páginas: 158

Mais informações: wagner@umc.br