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Peixes de água doce, os mais ameaçados do Brasil

Publicado em 06 julho 2021

Por Sarah Schmidt | revista Pesquisa FAPESP

Desmatamento, hidrelétricas, poluição e mudanças climáticas põem em risco megadiversidade de rios, lagos e poças

Em dezembro de 2020, enquanto dirigia pela rodovia CE-040, que corta o município de Aquiraz, no litoral cearense, o biólogo Telton Ramos, da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), notou que uma poça temporária de cerca de 400 metros quadrados (m²) na várzea do rio Pacoti era aterrada por obras em andamento. Preocupado, ele parou o carro e fez fotografias e vídeos do que deve ter destruído parte do único hábitat conhecido de uma espécie de peixe, Hypsolebias longignatus, que atinge no máximo 4 centímetros (cm) de comprimento e cujo macho ostenta listras e manchas azuis nas barbatanas. Conhecidos como peixes-anuais ou peixes-das-nuvens, porque parecem chegar com as chuvas, os indivíduos dessa família, dos rivulídeos, têm um ciclo de vida curioso. Os peixes vivem por no máximo 9 meses em pequenas lagoas ou poças temporárias e morrem durante a seca, mas deixam ovos enterrados que, quando a chuva cai, eclodem e povoam o lugar novamente. “Aterrando uma poça, pode-se destruir uma população inteira e levar a espécie à extinção”, alerta Ramos.

Com o material que juntou, ele publicou uma denúncia no perfil Peixes da Caatinga, que mantém no Instagram com outros pesquisadores. O caso repercutiu em jornais locais e as obras de duplicação da rodovia e a construção de um prédio comercial foram embargadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O órgão exigiu que as empresas envolvidas façam estudos de impacto ambiental. “Estamos acompanhando de perto”, comenta o biólogo, que integra o Plano de Ação Nacional para a Conservação (PAN) dos Peixes Rivulídeos. No começo de junho uma equipe contratada pelos responsáveis pela obra encontrou a espécie em pontos não aterrados da poça, que lembra um brejo. Para alívio dos pesquisadores, ela não foi extinta, mas é preciso aguardar o término dos estudos para mensurar o impacto causado.

Veja o texto na íntegra: Revista Pesquisa Fapesp

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