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Painel Acadêmico

Peixe-zebra é testado como modelo para experimentos com anestésico

Publicado em 20 janeiro 2017

Por Antonio Carlos Quinto

Um pequeno peixe, com cerca de 3 centímetros de tamanho, o zebrafish (Danio rerio), popularmente conhecido como peixe-zebra, mostrou-se um excelente modelo animal no estudo e detecção da cetamina, uma droga usada como anestésico veterinário para animais de grande porte. “A cetamina é aplicada em doses terapêuticas nos procedimentos operatórios dos animais de grande porte ou até mesmo, em alguns casos, em animais de pequeno porte”, conta o químico Eduardo Geraldo de Campos.

O pesquisador utilizou os peixes-zebra em experimentos no Laboratório de Análises Toxicológicas Forenses do Departamento de Química da FFLCRP (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto) da USP, onde desenvolveu sua dissertação de mestrado Zebrafish como organismo-modelo para análises de efeitos comportamentais e toxicológicas da cetamina empregando cromatografia em fase gasosa e estatística multivariada. Campos teve a orientação do professor Bruno Spinosa De Martinis e o projeto teve apoio financeiro da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

A cetamina já foi usada, nos anos 1970 e 1980, como adulterante em comprimidos de ecstasy (metilenodioximetanfetamina), droga sintética cujo efeito na fisiologia humana é a diminuição da reabsorção da serotonina, dopamina e noradrenalina. A cetamina possui propriedades alucinógenas e já passou a ser utilizada como droga única, inclusive. “Trata-se de uma droga proibida, de uso controlado e sua prescrição é feita somente por médicos e médicos veterinários”, diz o pesquisador. “Por isso pode ser considerada de interesse forense por ser já classificada como uma droga de abuso.”

Campos iniciou sua pesquisa no ano de 2014. “A ideia sempre foi a de caracterizar alguns efeitos provocados pela droga, que ainda não é muito conhecida em alguns aspectos, mas também testar o zebrafish como modelo na pesquisa”, conta.

Nos experimentos, foram realizados, segundo Campos, dois estudos: a análise de efeitos comportamentais, especialmente o efeito ansiolítico — que já foi caracterizado na literatura — e a análise química. “A droga reduz comportamentos tipicamente ansiosos em zebrafish e os testes foram realizados no sentido de verificar esse efeito ansiolítico”, descreve o químico.

Em relação aos testes comportamentais, os animais passaram por uma avaliação conhecida como Teste de Claro/Escuro. “Neste teste, o aquário é dividido em duas partes: uma escura e outra clara”, explica. Quando o peixe transita de uma área para outra há registros em vídeo do comportamento. “Por exemplo, em um dos parâmetros avaliados, se o peixe passa mais tempo na área clara do aquário significa que ele está menos ansioso. Quando ocorre ao contrário, de o animal preferir a área escura, quer dizer que ele está mais ansioso”, completa.

Após os registros em vídeo, os pesquisadores utilizaram métodos estatísticos multivariados para interpretar os resultados dos testes de forma mais precisa, com a contribuição da professora Aline Thaís Bruni, também Departamento de Química da FFCLRP. Esses métodos estatísticos avaliam diversos parâmetros comportamentais em uma mesma análise e permitem uma interpretação mais detalhada desses dados.

Os peixes também passaram por experimentos para detectar a cetamina em seus tecidos. Eles foram deixados em aquário que continha a substância. Em seguida, os cientistas retiraram amostras teciduais do animal que foram analisadas em um cromatógrafo em fase gasosa. “A cromatografia separa a droga de outras substâncias no tecido do animal e isso permite detectar a cetamina e quantificar quanto da substância continha o tecido”, explica o cientista. Segundo Campos, alguns mecanismos de ação da cetamina no organismo humano ainda não são muito bem estabelecidos. Parte dos resultados já foi publicada em revistas científicas de circulação internacional.

O Danio rerio é um peixe tropical de origem asiática, com tempo de vida médio entre três e cinco anos. É um importante organismo modelo, frequentemente utilizado em pesquisas genéticas e análises voltadas para a biologia do desenvolvimento.

(*) Publicado originalmente pelo Jornal da USP