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Peixe venenoso no tratamento da asma

Publicado em 22 janeiro 2011

No Brasil existem cerca de 15 milhões de asmáticos dependentes de medicamentos para respirar. Muitos vivem em grandes cidades, onde a poluição atmosférica agrava e torna mais frequente a falta de ar. Para eles, não há alternativa para amenizar as crises senão recorrer a comprimidos, inalações ou bombinhas com broncodilatadores, muitas vezes associados aos perigosos corticoides.

Mas há perspectivas de dias melhores. E o novo fôlego vem de uma fonte inusitada: um peixe tropical de 14 centímetros, nativo do Nordeste brasileiro, venenoso e de aspecto esquisito, popularmente chamado de niquim, peixe-pedra, peixe-escorpião ou, para os cientistas, Thalassophryne nattereri.

Habitante de estuários e da orla marítima, o niquim costuma permanecer imóvel em águas rasas, em fundos de areia ou lodo. Facilmente confundido com uma pedra, acaba causando acidentes com seu eficiente sistema de defesa: um tipo de ``ferrão`` ou ``espinho`` na base da nadadeira dorsal, conectado a uma glândula cutânea de veneno. Se ele for pisado, o veneno é injetado por pressão, causando dor, queimação, inchaço, inflamação e uma necrose muito precoce. O ferimento ainda custa a cicatrizar.

``Os acidentes são muito comuns entre catadores de mariscos e membros de comunidades de pescadores na Bahia, Alagoas, Sergipe, Ceará e Pará``, comenta Mônica Lopes Ferreira, pesquisadora do Laboratório Especial de Toxinologia Aplicada (LETA), do Instituto Butantan. ``Mas, para nós, tanto o veneno como o muco que reveste a pele desses peixes - assim como das arraias do Tocantins - são fontes de pesquisa, dada a possibilidade de encontrarmos proteínas inéditas entre as toxinas e os compostos ali presentes``.

Mônica destaca como exemplo a proteína isolada no veneno do niquim chamada de nattectina. Trata-se de uma lectina tipo C, quer dizer, uma proteína de ligação de carboidratos, particularmente interessante por suas características biológicas, farmacológicas e bioquímicas. ``A nattectina tem ação anti-inflamatória nos casos de inflamação pulmonar, porém sem o efeito colateral dos corticoides``, explica a pesquisadora. ``Acreditamos que ela pode agir tanto no sentido de impedir que o asmático entre em crise como para tirar o paciente da crise``.

A equipe do Butantan trabalha ``de mangas arregaçadas``, em parceria com um laboratório comercial e com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), com o objetivo de colocar rapidamente no mercado um medicamento feito com a nova proteína. ``Mas ainda precisamos fazer os testes clínicos, que levam de um a três anos, e precisamos produzir a nattectina em larga escala para obter este medicamento a um custo acessível``, lembra Mônica Lopes Ferreira.

O LETA também desenvolve um soro para os acidentados, pois o tratamento com analgésicos ou anti-histamínicos não funciona contra os efeitos do poderoso veneno do niquim. Nos casos mais graves, as vítimas têm, inclusive, a perna atrofiada e perda de função.

Como se costuma dizer, a dose certa diferencia o veneno do remédio. E aqui vale acrescentar: a pesquisa certa diferencia os supostos vilões da biodiversidade útil...