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Paraíba Informa

Peixe tem a ‘chave’ da cura para esclerose múltipla

Publicado em 31 outubro 2016

Um peptídeo encontrado em uma espécie de peixe conhecida por niquim é capaz de adiar o surgimento dos sintomas e reduzir os sinais clínicos da esclerose múltipla, doença inflamatória autoimune neurológica e degenerativa. A constatação está em um estudo realizado por pesquisadoras do Laboratório Especial de Toxinologia do Instituto Butantan, em São Paulo, e pode ser a esperança de melhora para pacientes que já têm a doença, adiando o aparecimento das manifestações que, em alguns casos, pode levar à morte.

O peptídeo, denominado TnP (peptídeo do T. nattereri), foi descoberto em 2007, quando a imunofarmacologista Mônica Lopes-Ferreira resolveu pesquisar se o veneno do peixe era composto por peptídeos, além de proteínas. Simultaneamente, a pesquisadora Carla Lima havia padronizado no laboratório testes em murinos (roedores) para avaliação de esclerose múltipla. As duas resolveram testar a eficácia do peptídeo no tratamento da doença.

“Inicialmente, descobrimos a função anti-inflamatória do peptídeo e, mais recentemente, a função imunomoduladora”, disse Mônica Lopes-Ferreira. Segundo ela, todos os ensaios científicos para a comprovação da eficácia do peptídeo no tratamento da esclerose múltipla foram feitos no Laboratório de Toxinologia do Butantan, em parceria com o laboratório Cristália, de Itapira (SP).

As próximas etapas rumo a um medicamento necessitam da continuação da parceria com o laboratório ou com outro que tenha interesse na descoberta e na sua aplicação. Mas os pesquisadores ainda aguardam a aprovação do pedido de patente solicitada ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). “Depositamos, em 2007, o pedido da patente que ainda está pendente de aprovação. Nesse meio tempo, a patente já foi requerida e aprovada na Comunidade Europeia, nos Estados Unidos, Canadá, México, Japão, Coreia do Sul, Índia e China. Em média, cada processo levou um ano para ser aprovado”, disse Carla Lima.

“Identificamos um peptídio com atividade antiinflamatória comprovada nos casos de esclerose múltipla. Em camundongos, o peptídeo bloqueia o trânsito e a infiltração de linfócitos patogênicos e macrófagos para o sistema nervoso central, o que favorece o aumento de células reguladoras. Isso resulta na atenuação da neuroinflamação e na prevenção da desmielinização, refletindo no adiamento do aparecimento dos sintomas e na melhoria dos sinais clínicos da doença”,   declarou a imunofarmacologista do Instituto Butantan Carla Lima.

Neurologistas pregam cautela

Na Paraíba, especialistas na área de Neurologia aplaudiram a ideia, embora tenham observado que ainda é preciso aguardar o andamento da pesquisa.  O neurocirurgião Emerson Magno de Andrade acredita que a o estudo é importante, merecendo destaque por ser uma pesquisa nacional.

No entanto, afirmou que é preciso maior aprofundamento. “Por ter uma atividade anti-inflamatória e imunomoduladora, as moléculas isoladas do veneno do peixe niquim podem se tornar uma nova arma terapêutica no tratamento da esclerose múltipla. Porém, a pesquisa deve ser vista com cautela, porque ainda está na fase experimental e ainda há um longo trajeto até seu uso em humanos”, opinou.

A neurologista Bianca Etelvina Santos de Oliveira, coordenadora do Centro de Referência em Esclerose Múltipla da Paraíba, que funciona na Fundação de Apoio ao Deficiente (Funad), em João Pessoa, também é otimista em relação à pesquisa. “É uma ideia que pode ser que dê certo, fazendo com que os linfócitos da periferia não entrem no sistema nervoso central (SNC) e impedindo atingir a bainha de mielina. É uma área da Neurologia que tem avançado bastante”, afirmou.

Por outro lado, ela destacou que, fora do Brasil, existem três medicações em uso que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já liberou. No entanto, o Ministério da Saúde ainda não fornece. A médica acrescentou que estes medicamentos são mais modernos e permitem ao paciente manter o ritmo de trabalho, além de aumentar a sobrevida, melhorando o prognóstico.

Agência Fapesp