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Rádio Evangelho

Peixe ‘quase humano’ é aliado em pesquisas científicas pelo mundo

Publicado em 17 outubro 2018

Um grande aliado da ciência surgiu de onde menos se esperava. Com tamanho que varia entre 3 e 4 centímetros, o zebrafish – também conhecido como paulistinha – veio do Sudoeste da Ásia como um animal meramente ornamental. Pesquisas mostraram, contudo, que o seu lugar não era apenas em aquários de pet shops, mas também como um importante instrumento para o bem-estar dos seres humanos.

O levantamento do genoma dessa espécie de peixe mostrou que 75% de seus 26 mil genes são semelhantes aos dos humanos. Maior que o visto nos camundongos, muito utilizados em pesquisas. "Ele veio para nos ajudar; podemos dizer que o zebrafish é o modelo animal ideal para as pesquisas", Mônica Lopes Ferreira, professora e pesquisadora do Instituto Butantan Com essa semelhança genética, menor custo de criação, fácil manejo, alta taxa reprodutiva e um desenvolvimento acelerado (vai de ovo a larva em 72 horas e em apenas três meses já é considerado um adulto), a cada ano que passa a espécie vem substituindo o papel dos roedores para a realização de testes em laboratórios de várias instituições brasileiras e internacionais.

Descobertas e aprimoramentos na área de medicamentos, por exemplo, podem ser conquistas importantes a partir dessa iniciativa. Pesquisas vão de depressão a doenças cardíacas: a natureza oferece uma alternativa para a ciência Instituto Butantan/Divulgação Um dos lugares que utilizam o zebrafish para avançar com seus projetos é o Instituto Butantan, em São Paulo, um dos maiores centros de pesquisa do mundo.

Ali, a professora e pesquisadora Mônica Lopes Ferreira, diretora do Laboratório Especial de Toxinologia e responsável pela plataforma de trabalhos com essa espécie, confirma a importância da alternativa oferecida pela natureza. “É uma alternativa perfeita. A indústria brasileira já acordou para isso, mas lá fora a prática é bem mais antiga e forte”, diz ela.

O Butantan conta atualmente com 6 mil indivíduos adultos para trabalhar. Ao redor do planeta, cerca de 3,5 mil artigos já foram publicados com o pequeno peixe como base de estudos. Outra vantagem é que o zebrafish vive até os 5 anos de idade. Já os camundongos, geralmente, chegam a dois. Além disso, em quatro dias vários dos seus órgãos estão formados. O fato de os embriões serem totalmente transparentes permite observar ainda uma série de fenômenos, sem a necessidade de métodos invasivos.

No momento, o Butantan mantém uma parceria com o Ministério da Saúde e a Fiocruz na análise de 20 tipos de agrotóxicos e as suas consequências para as pessoas e o meio ambiente. “Temos mais de 15 projetos em andamento com esse peixe por aqui, alguns nas áreas de imunologia, comportamento e até mesmo testes relacionados a doenças cardíacas”, informa Mônica, lembrando que o uso do zebrafish ganhou impulso no País de três anos para cá.

A origem Nativo do Sudoeste da Ásia, onde é encontrado em rios calmos e rasos e nas plantações alagadas de arroz e juta, esse peixe chegou aos laboratórios de pesquisa no final dos anos 1960, com o biólogo norte-americano George Streisinger, da Universidade do Oregon. Ele trabalhou sozinho por uma década para selecionar linhagens que permitissem entender como defeitos em diferentes genes afetavam o desenvolvimento. Seu esforço só conseguiu reduzir o ceticismo dos colegas em 1981, quando publicou um artigo na revista Nature apresentando o modelo consolidado. Nos anos seguintes, o número de artigos científicos que usavam o peixe como modelo biológico cresceu aceleradamente, em especial nos estudos de genética e desenvolvimento.

“Temos mais de 15 projetos em andamento com esse peixe no Butantan atualmente. É mais barato, ocupa um espaço menor e não há necessidade de adotarmos condutas invasivas." Depressão e ansiedade De acordo com o site da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), os primeiros trabalhos com esse peixe feitos no Brasil saíram do laboratório da pesquisadora Rosana Mattioli, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no Interior de São Paulo. Naquela época, o zebrafish começava a ser usado nas pesquisas em neurociências, mas o comportamento natural da espécie ainda era pouco conhecido.

Rosana realizou uma série de experimentos que ajudou a identificar a preferência do peixe por viver em ambientes escuros. Ela colocava os exemplares em um aquário pintado de duas cores – metade preto e metade branco – e media o tempo que passavam em cada uma das partes. Assim, observou que eles ficavam a maior parte do tempo (cerca de 80%) no lado negro. Viu também que, uma vez colocados na parte clara, eles rapidamente nadavam para a parte escura. Esse trabalho, publicado em 1999 no Brazilian Journal of Medical and Biological Research, começou a estabelecer a base de um importante teste de ansiedade, aprimorado em seguida por ela e outros pesquisadores e hoje utilizado para avaliar o efeito de compostos que combatem a depressão e a ansiedade.