A decisão do Ministério da Saúde de interromper temporariamente a estratégia de vacinação com a Butantan-DV colocou a farmacovigilância no centro do debate sobre segurança vacinal no Brasil.
Anunciada em 8 de junho, a medida ocorreu após a identificação de 42 casos com sinais de alerta compatíveis com dengue mais grave em um universo de aproximadamente 500 mil pessoas vacinadas. Entre esses registros estão três casos classificados como graves e dois óbitos que seguem sob investigação. Embora o governo federal, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o próprio Instituto Butantan ressaltem que não há, até o momento, evidências de causalidade entre os eventos observados e a vacina, a ocorrência de manifestações clínicas que não haviam sido identificadas nos estudos de desenvolvimento levou as autoridades sanitárias a adotarem uma postura de precaução até que todas as análises sejam concluídas.
Em nota enviada à imprensa, o Instituto Butantan informou que a interrupção ocorre por orientação do Ministério da Saúde e da Anvisa e tem caráter preventivo. A instituição destacou que continuará fornecendo informações às autoridades regulatórias, realizando novos estudos e colaborando com o monitoramento dos vacinados para aprofundar o conhecimento sobre os eventos registrados.
Sinal de alerta surgiu após vacinação em larga escala
Até 30 de maio, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, haviam sido aplicadas 501.044 doses da Butantan-DV. Desse total, 417.432 foram destinadas a profissionais da Atenção Primária à Saúde em todo o país e 83.612 foram utilizadas em estratégias ampliadas de vacinação da população.
Os 42 casos sob investigação representam cerca de 0,008% dos vacinados.
Entre os sinais observados estão dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos, manifestações que costumam ser classificadas como sinais de alerta para dengue grave. Três desses pacientes evoluíram para quadros considerados graves e dois óbitos passaram a ser investigados pelas autoridades sanitárias.
A vacinação havia sido iniciada em janeiro de 2026 e contemplava profissionais de saúde em todo o território nacional, além de campanhas ampliadas em áreas selecionadas, incluindo Botucatu (SP), Maranguape (CE), Nova Lima (MG) e a região de Araguaína.
Segundo o Ministério da Saúde, a decisão de interromper a estratégia foi motivada justamente pela necessidade de esclarecer se os eventos registrados representam uma coincidência temporal ou se existe alguma associação causal com a vacinação.
O que os estudos clínicos mostraram
A suspensão ocorre poucos meses após a incorporação da Butantan-DV ao SUS e contrasta com os resultados observados durante o desenvolvimento clínico do imunizante.
O diretor do Instituto Butantan, Esper Georges Kallás, ressaltou que a vacina percorreu todas as etapas exigidas para aprovação regulatória, desde os estudos pré-clínicos até os ensaios clínicos de fases 1, 2 e 3.
“Desde o seu processo de desenvolvimento, de produção, controles de qualidade e depois os estudos que a gente chama de pré-clínicos, entrando na fase 1, 2 e 3 de pesquisa clínica, nós tivemos resultados muito encorajadores. Observamos 65% de proteção ao longo de cinco anos após a imunização contra o desenvolvimento de dengue confirmada e mais de 80% de proteção contra formas graves da doença. Esses dados constituíram o dossiê apresentado à Anvisa, que decidiu em novembro do ano passado pela aprovação do produto, que a gente chama de licenciamento da vacina da dengue do Instituto Butantan”, afirmou.
O próprio Butantan destaca que estudos publicados em revista científica internacional demonstraram eficácia global de 79,6% contra a dengue sintomática e cerca de 89% contra a dengue grave.
Para Kallás, os dados acumulados até aqui continuam sustentando a importância da vacina no enfrentamento da doença.
“O que vem acontecendo em todo o Brasil entra agora numa pausa para avaliação dos resultados. Quem foi vacinado já está usufruindo da proteção que a vacina demonstrou nos estudos de pesquisa. Estamos falando de 65% de proteção contra a dengue e mais de 80% de proteção contra a dengue grave. Essas pessoas podem ficar tranquilas”, declarou.
O pesquisador também procurou tranquilizar aqueles que receberam recentemente a vacina, reforçando que a investigação não significa que a vacina tenha sido considerada insegura.
“Aqueles que foram vacinados há menos de 21 dias, se tiverem qualquer sintoma que lhes pareça diferente do habitual, devem comunicar à unidade de saúde. Essa informação será repassada para o Programa Nacional de Imunizações por meio da farmacovigilância e vai nutrir o conhecimento que temos sobre a vacina, ajudando nas conclusões que estamos tirando agora.”
Vigilância pós-comercialização é a principal hipótese para explicar a suspensão
Especialistas ouvidos pelo Medscape ressaltam que a situação observada com a Butantan-DV não é incomum no ciclo de vida de vacinas e medicamentos.
A presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mônica Levi, explica que estudos clínicos, mesmo quando envolvem dezenas de milhares de participantes, nem sempre conseguem detectar eventos extremamente raros.
“Quando você aumenta muito o número de pessoas vacinadas, eventos adversos raros e que não foram vistos nos estudos de fase 1, 2 e 3 podem aparecer. Isso não significa necessariamente que a vacina seja insegura. Significa que estamos entrando em uma nova etapa de observação, que é justamente aquela prevista após a aprovação regulatória.”
Segundo ela, o episódio evidencia o funcionamento adequado do sistema de farmacovigilância brasileiro.
“É necessário, depois que uma vacina é licenciada e introduzida em um programa onde milhões de doses vão ser aplicadas, que haja um monitoramento rigoroso. É o que chamamos de farmacovigilância ou estudos de fase 4. Nesse momento, observamos o que acontece durante a vacinação em massa e podemos detectar eventos que não foram identificados anteriormente.”
Levi considera que a suspensão temporária demonstra que os mecanismos de vigilância cumpriram exatamente o papel para o qual foram criados.
“A suspensão da vacina contra a dengue do Butantan mostra que a nossa vigilância funcionou corretamente. A atitude de suspensão temporária obedece rigorosamente aos princípios de precaução e aos princípios éticos. O objetivo é investigar a causalidade ou não desses óbitos e desses eventos adversos graves, entender melhor os 42 casos com sinais de alerta e esclarecer se existe alguma relação com a vacina.”
Difícil diferenciar reação vacinal de infecção natural
Um dos principais desafios enfrentados pelos investigadores é diferenciar uma possível reação associada ao vírus vacinal de uma infecção causada pelo vírus selvagem da dengue.
Segundo Mônica Levi, isso ocorre porque a Butantan-DV utiliza uma plataforma de vírus vivo atenuado.
“A vacina contra a dengue é feita com vírus vivo atenuado. As reações sistêmicas esperadas incluem febre baixa, dor de cabeça, cansaço, dor muscular, mal-estar e, em alguns casos, uma erupção avermelhada na pele, que chamamos de exantema. Isso acontece durante o período em que o vírus vacinal se replica no organismo.”
Ela explica que esses sintomas costumam surgir entre o quinto e o vigésimo primeiro dia após a aplicação. “O pico acontece geralmente por volta do nono dia.”
No entanto, alguns sinais exigem atenção imediata.
“Os sinais de alarme que motivam uma procura urgente por assistência médica são febre associada a dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramento de mucosas, tontura, sonolência, sinais de desidratação ou um estado geral muito comprometido.”
Já os sinais considerados graves incluem hipotensão persistente, choque, sangramentos importantes e comprometimento de órgãos.
“Quando falamos de gravidade, estamos nos referindo a pressão baixa persistente, choque, sangramentos intensos, comprometimento de rim, pulmão, fígado ou coração, além de alterações neurológicas. Esses pacientes podem precisar de internação e, em alguns casos, de terapia intensiva.”
A especialista ressalta que, do ponto de vista clínico, não é possível distinguir uma reação relacionada ao vírus vacinal de uma infecção natural.
“Não tem como diferenciar clinicamente uma reação à vacina de uma dengue pelo vírus selvagem. Os quadros podem ser muito semelhantes. Apenas exames específicos, como o PCR, conseguem identificar se estamos diante de uma reação relacionada ao vírus vacinal ou de uma infecção causada pelo vírus circulante.”
Como a investigação está sendo conduzida
A investigação mobiliza o Ministério da Saúde, a Anvisa, o Instituto Butantan, o Comitê Interinstitucional de Farmacovigilância de Vacinas e outros Imunobiológicos (Cifavi) e a Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização (Ctai).
Segundo Levi, o processo é bastante detalhado e envolve múltiplas etapas.
“A notificação pode ser feita por médicos, enfermeiros, serviços de vacinação, hospitais, vigilância epidemiológica, indústria farmacêutica e até pelo próprio cidadão. Todas essas informações precisam ser registradas nos sistemas oficiais.”
A análise inclui investigação clínica, epidemiológica e laboratorial.
“É feita uma avaliação completa da história clínica, dos antecedentes do paciente, exame físico detalhado, exames laboratoriais, análise temporal dos sintomas, avaliação dos lotes da vacina, verificação de outros casos semelhantes, técnica de aplicação e condições de armazenamento.”
Ao final, cada caso recebe uma classificação específica.
“A causalidade pode ser considerada relacionada à vacina, relacionada a erro programático, decorrente de reação psicogênica, coincidente — quando existe apenas associação temporal — ou permanecer indeterminada. É exatamente esse processo que está em andamento agora.”
Retomada dependerá das evidências
Embora a suspensão tenha gerado preocupação entre profissionais e população, o Instituto Butantan afirma manter confiança nos dados acumulados durante o desenvolvimento da vacina.
Kallás enfatiza que qualquer decisão futura dependerá exclusivamente das conclusões científicas.
“É isso que está em investigação neste momento e nós respeitamos essa pausa determinada pelo Ministério da Saúde para fazer esse aprofundamento. Precisamos entender a natureza desses eventos, aprofundar o conhecimento sobre o que aconteceu e tomar as decisões subsequentes.”
Segundo o diretor do Butantan, existe a possibilidade de retomada da vacinação caso os dados confirmem a segurança do imunizante.“Sim, a vacinação poderá ser retomada. Isso depende desse processo de discussão. Nós estamos confiantes de que a vacina é uma importante arma no enfrentamento da dengue, mas precisamos basear qualquer retomada em dados muito rigorosos e em metodologia científica criteriosa.”
Ele conclui ressaltando que o posicionamento da instituição seguirá pautado pelas evidências.
“O Butantan não está fazendo torcidas. Está respeitando a evidência dos dados e continuará fazendo isso para honrar sua história de dedicação ao desenvolvimento de novos produtos com base nos preceitos fundamentais da ciência.”
Enquanto as investigações prosseguem, especialistas reforçam que a suspensão não decorre de falhas demonstradas de eficácia nem de uma conclusão de insegurança da vacina. O objetivo, afirmam, é esclarecer um sinal detectado pela vigilância pós-comercialização antes de avançar para novas etapas de vacinação em larga escala. Trata-se, em essência, do funcionamento esperado de um sistema de monitoramento criado justamente para identificar, investigar e responder rapidamente a eventos raros que só se tornam visíveis quando centenas de milhares de pessoas passam a receber um novo imunizante.
Roseane Santos