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Blog do Claudio Humberto

Paulo Vanzolini, até mais!

Publicado em 01 maio 2013

Por Pedro Luiz Rodrigues

Uma tarde, em setembro de 1987, servia na Embaixada do Brasil em Washington, procura-me, indicado por conhecidos, um senhor muito educado, desejoso de informações sobre um acidente radiológico que teria acabado de acontecer no Brasil. Explicou-me que era biólogo, trabalhava na Universidade de São Paulo, e estava passando algum tempo convidado não me lembro se da George Washington ou da Universidade de Georgetown.

Como ainda não havia a Internet e o assunto ainda não fora divulgado pelas agências de notícias, resolvi chamar o Carlos Chagas, em Brasília, que certamente teria condições de apurar o que tinha acontecido. Chagas logo devolveu a ligação, contando a história da contaminação produzida pelo arrombamento de um aparelho de radioterapia, encontrado por não se sabe lá quem, numa clínica abandonada em Goiânia. A contaminação seria mais tarde classificada como nível 5 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares. Havia gente hospitalizada, mas o Governo pensava que já tinha a situação sob controle.

Foi assim que conheci o Paulo Vanzolini. De tão simpático que era aceitou ir jantar lá em casa naquela mesma noite, para particular alegria minha e do colega Antonino Mena Gonçalves, que além de ser um dos mais competentes diplomatas brasileiros, é também um dos que mais entende e aprecia de música popular brasileira.

Foi uma noitada e tanto. Cantou pouco, mas contou muito. De como, desde cedo, conseguiu manter vivas, ao mesmo tempo, as paixões pela ciência e pela música. Foi um dos fundadores do internacionalmente conhecido Instituto Butantã, mas foi também inigualável compositor, " autor de letras imortais, boêmio por natureza e grande amante da cidade de São Paulo", como o descreve Maria Helena de Sousa, filha do principal parceiro de Vanzolini, Adoniran Barbosa: "foram muito bons amigos, ele e Adoniran, os dois com sangue italiano, ambos com a inteligência à flor da pele; Vanzolini muito instruído, com bagagem intelectual de primeira; Adoniran com as lições aprendidas na escola da vida".

Depois daquela ocasião, nos encontramos vez por outra em São Paulo, principalmente no final dos anos noventa, quando passei alguns anos trabalhando no Estadão. Vanzolini era amigo de uma amiga, Sílvia Fischer (especialista em urbanismo, leciona na UnB), o que facilitou a aproximação.

Entrou na faculdade de Medicina aos vinte anos, em 1942. Foi um bom aluno, mas foi também um frequentador assíduo das rodas boêmias, onde encontrou inspiração para suas primeiras composições. Dois anos depois, com seu primo Henrique Lobo, colaborou com o programa Consultório Sentimental, que Cacilda Becker mantinha na rádio América. A boemia não o impediu de concluir sua vida acadêmica com chave de ouro: obteve o título de doutor pela Universidade de Harvard.

Como homem de ciência, era respeitado. A ele deve o museu de zoologia da Universidade de São Paulo sua extraordinária coleção de répteis, de quase 250 mil exemplares. Foi um dos idealizadores da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), hoje presidida pelo ex-chanceler Celso Lafer.

Foi em 1951 que, atingido por extraordinária onda criativa, compôes o samba "Ronda", em minha opinião a obra musical que mais retrata a cidade de São Paulo da segunda metade do século 20. Isso sem desmerecer tudo mais que fez de excelente, como "Samba erudito", "Praça Clóvis" e "Volta por cima".

"Ronda"

De noite eu rondo a cidade

A te procurar sem encontrar

No meio de olhares espio em todos os bares

Você não está

Volto pra casa abatida

Desencantada da vida

O sonho alegria me dá

Nele você está

Ah, se eu tivesse quem bem me quisesse

Esse alguém me diria

Desiste, esta busca é inútil

Eu não desistia

Porém, com perfeita paciência

Volto a te buscar

Hei de encontrar

Bebendo com outras mulheres

Rolando um dadinho

Jogando bilhar

E neste dia então

Vai dar na primeira edição

Cena de sangue num bar

Da avenida são João

 

Paulo Vanzolini morreu no domingo, quatro dias após ter completado 89 anos de idade.|