Notícia

Gazeta Mercantil

Paterniani, inventor do híbrido no Brasil

Publicado em 12 setembro 2005

Por Isabel Dias de Aguiar, de São Paulo

Foram 50 anos dedicados à genética. Dificilmente esse trabalho poderá ser dimensionado. Mas não estaria muito errado quem afirmasse que boa parte, talvez 50%, das variedades do milho cultivadas no País têm como origem os cruzamentos realizados pelo geneticista Ernesto Paterniani. O reconhecimento dessa obra deverá ser demonstrado, ao menos em parte, dia 26, quando será entregue o Prêmio Fundação Bunge 2005, na categoria Agronegócio Vida e Obra.
O cálculo que esse professor aposentado da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (USP/Esalq) e ouvidor do campus Luiz de Queiroz faz para avaliar quanto do milho plantado nas lavouras brasileiras tem origem nos campos experimentais da Esalq é simples. Cerca de 80% das variedades cultivadas no País são híbridas. Dessas, 15% foram obtidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e, segundo calcula, o restante tem origem nos campos experimentais da Esalq, sob seu comando.
Caso o cálculo esteja correto, Paterniani pode ser considerado como um dos mais ilustres inventores de plantas do País, ao lado de outros pesquisadores que dedicaram sua vida profissional à pesquisa e que, por influência de seu trabalho, contribuíram para o avanço do agronegócio.
As variedades produzidas na Esalq, segundo Paterniani, não foram desenvolvidas em laboratório. Ele se considera um "melhorista" à moda antiga, porque prefere trabalhar no campo. "Ali temos uma melhor noção da realidade e maior precisão nos resultados". O geneticista diz também não ter sofrido as agruras da falta de recursos para o financiamento de suas pesquisas, como ocorre com a maioria dos pesquisadores de hoje. Contou quase sempre com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Fundação Rockefeller. Faltava apenas áreas para a realização de seus cruzamentos genéticos.
Um melhorista dedica sua vida profissional à busca da perfeição. No caso de Paterniani, a perfeição significa obter planta de elevada produtividade, resistente a pragas, melhor adaptação ao clima e às diversas épocas do ano. Essa última em função da capacidade brasileira de produzir em duas e até três safras por ano.
O pesquisador diz que também sempre procurou uma planta de menor porte, para resistir ao vento, e capaz de produzir o maior número possível de espigas. Foi buscando esses objetivos que Paterniani chegou ao "Piranão", que reúne todas essas qualidades indispensáveis para uma boa safra. O nome é resultado da união da cidade onde está a Esalq (Piracicaba) e de sua altura reduzida da planta (anão).

Produtividade
Quanto à produtividade, Paterniani diz que produzir entre 2 e 3 toneladas por hectare já foi considerado um bom resultado. Hoje, ficou comum safra de 8 toneladas por hectare. Mas, para ele, já é possível chegar a 20 toneladas por hectare.
Uma dificuldade que nunca é superada pelos pesquisadores é o controle de pragas. Sempre surge uma nova infestação a ser combatida e cada vez mais aumentam os ataques pelo avanço da agricultura e pela maior ocupação das áreas de plantio.