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Pasta de dente sozinha não trata erosão e sensibilidade

Publicado em 21 março 2018

Vivemos na era da Erosão e da Sensibilidade Dental. Seguindo essa demanda, o mercado nos metralha diariamente com propagandas de pasta de dente que prometem resolver a sensibilidade e até “regenerar” esmalte perdido. Uma pesquisa realizada na Universidade de Berna da Suíça, com participação de uma professora e uma doutoranda da USP, publicada em dezembro de 2017 no Scientific Reports da Revista Nature, mostra que todas essas pastas que prometem curar sensibilidade ou regenerar esmalte causam desgaste e não são capazes de tratar problemas sérios como Erosão Ácida e Hipersensibilidade dentinária por si só.

Os comerciais mostram celebridades bebendo seus cafés ou mordendo seus sorvetes sem medo nenhum após o simples uso contínuo dessas pastas. Animações gráficas fantásticas mostram nitidamente regeneração de esmalte – um milagre!!! – em áreas onde antes víamos dentina exposta. E para quem não sabe, dentina exposta tem grande chance de doer. Nosso dente é assim. Uma polpa interna com nervos e vasos, protegida por uma dentina, tecido de suporte mineralizado vivo que por sua vez é coberto pelo esmalte dental na região da coroa, tecido extremamente duro e nobre. Esmalte não se regenera sozinho e nem com uso de pastas que teoricamente prometem isso em seus rótulos.

O estudo importantíssimo que contou com os pesquisadores Samira Helena João-Souza, Adrian Lussi, Tommy Bauman, Taís Scaramucci, Anna Cecília Corrêa Aranha e Thiago Saads Carvalho testou 9 pastas de dentes do mercado brasileiro e europeu que se propõem a resolver problemas como sensibilidade e erosão de esmalte.

E não é que as pastas que alegam regenerar esmalte foram as que mais causaram perda de superfície acumulativa de esmalte?

Erosão e Hipersensibilidade não podem ser tratadas apenas com pastas de dente. Você precisa ir ao seu dentista. Elas são doenças causadas por múltiplos fatores como a dieta, mordida instável e a escovação traumática. Lembrando que a Erosão é a perda de substância dental causada por ácidos não bacterianos. Quando a perda dental é causada por ácido bacterianos, nós chamamos isso de cárie! Ácidos não bacterianos vêm da sua dieta. O estudo demonstrou que nenhuma das pastas analisadas foi capaz de diminuir a perda de estrutura do esmalte, isto é, nenhuma delas protege o esmalte da erosão e da abrasão e mais: todas elas foram responsáveis por perda de estrutura mensurável.

Os autores alegam que essas pastas podem ser usadas como um complemento e não como o tratamento em si, diferente do que pregam em seus rótulos e em suas campanhas publicitárias.

Sensibilidade precisa ser investigada, junto com erosão e abrasão dental. Essas perdas acontecem com mais frequência naquela parte do dente perto da gengiva, onde a camada de esmalte é mais fina. Pode ter a ver com a estabilidade da sua mordida, com sua alimentação e com o tipo de escova que você usa. A recomendação atual é que se utilize escovas de cerdas macias.

Então, na próxima vez que você começar a sentir uma sensibilidade ou perceber pequenas perdas de esmalte perto da região das gengivas, ou ainda retração da gengiva, mesmo que seja leve, procure logo seu dentista. Quanto mais você demora ou tenta curar isso com pastas de dente (que comprovadamente não resolvem esse problema sozinhas), maior a chance da erosão aumentar e levar a outras situações mais chatas de resolver.

Esse é um assunto que vem sendo muito estudado e recentemente, o professor Paulo Vinícius Soares editou um livro junto com outras feras da Odontologia focando nas lesões cervicais não cariosas e na hipersensibilidade dentinária. O livro é espetacular e recomendo a todos os dentistas. Um tratado muito especial para reciclar conhecimentos.

Artigo científico completo – REVISTA NATURE

via Agência FAPESP