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Forbes Brasil

Passos necessários

Publicado em 12 setembro 2003

Por JOSÉ ALEXANDRE SCHEINKMAN
José Alexandre Scheinkman é um dos mais respeitados economistas brasileiros da atualidade. Professor da Universidade de Princeton, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, ele chegou a comandar o departamento de Economia da Universidade de Chicago, templo do pensamento econômico liberal. Scheinkman esteve no Brasil no fim de agosto para participar de um congresso promovido pela Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) em Campos do Jordão, no interior de São Paulo. Durante o evento, ele conversou com FORBES BRASIL. Na entrevista, Scheinkman afirma, entre outras coisas, que o País deve aumentar sua corrente de comércio, reduzir a informalidade e investir em educação. Alguns economistas, entre eles o senhor, têm defendido que o Brasil aumente sua corrente de comércio para reduzir o risco-país. Como fazer importações e exportações crescerem simultaneamente, de forma a evitar desequilíbrios no setor externo? José Alexandre Scheinkman - O Brasil é menos sensível a esse desequilíbrio hoje porque temos câmbio flutuante. Se as importações subirem, o dólar também sobe e acaba dando um incentivo às exportações. O que se pode fazer, então, além do câmbio flutuante? De um lado, acordos de livre comércio, como o México,ou unilaterais,como o Chile. É claro que, se o protecionismo agrícola nos países avançados diminuísse, o Brasil teria um espaço enorme para aumentar as exportações. Mesmo que isso não ocorra, é preciso olhar questões internas. Temos setores protegidos, que prejudicam outros em que poderíamos ser competitivos.Isso comprime a capacidade de exportar e importar. O senhor pode dar um exemplo? Hardware. Não há razão para o Brasil não ser competitivo como a China e a Índia em termos de software. Temos capital humano para isso, mas o setor tem sido prejudicado pelo fato de que é muito caro trabalhar com máquina do Brasil. Isso diminuiu, mas ainda está ruim. O Brasil precisa entender que não deveria tentar mudar suas vantagens comparativas, mas os determinantes dessas vantagens. Os países que têm tido vantagens comparativas nos setores que trazem riqueza são os que fizeram investimentos em educação, ciência e tecnologia e infra-estrutura. Esses países se caracterizaram também por baixas taxas de juro e câmbio competitivo. Como fazer isso no caso brasileiro sem ser limitado por pressões inflacionárias? A questão dos juros, no Brasil, tem a ver com a baixa taxa de poupança, o que se deve a dois fatores. Em primeiro lugar, o governo é um despoupador. De outro lado, a poupança privada em outros países também foi mais forte. Uma das razões que explicam isso são as instituições do mercado financeiro. No Brasil, intermediamos mal poupança e investimento. Temos muitos problemas de direito de credor, cunha fiscal, enfim, uma porção de coisas que deprime investimento e poupança. No Brasil, ao menos desde o início dos anos 80, a taxa de investimento se situa em 20% do PIB. Nos anos 90, depois da abertura, passamos a ter acesso a toda a poupança do mundo e não houve mudança nesse percentual. Portanto, nosso problema não é falta de poupança. Alguns economistas argumentam que um dos nossos problemas é o marco regulatório incerto, a insegurança jurídica etc. E citam como exemplo positivo a China, país comunista de partido único. A China tem como vantagem uma história recente de cumprir suas obrigações com os investidores estrangeiros e até mesmo de dar direitos demais a eles. Nossa solução não é copiar a China,de forma alguma. Uma explicação para a ineficiência na transformação de poupança em investimento está no marco jurídico. Não há mercado imobiliário de hipotecas no Brasil porque é difícil recuperar o imóvel em caso de inadimplência. O senhor também costuma citar o desenvolvimento do mercado de capitais para melhorar essa intermediação. Todo o mercado financeiro brasileiro está comprimido. O crédito ao setor privado em relação ao PIB é muito baixo. O mercado de capitais tem um reflexo especialmente ruim na economia porque no resto do mundo os investidores às vezes estão interessados em renda fixa e em outros momentos, em renda variável. O Brasil só tem chance de competir no mercado mundial de captação de renda fixa. Por que isso? Por questões como a do direito dos acionistas minoritários. Outra questão é que não temos empresas sendo formadas no Brasil. O senhor tem chamado a atenção para o problema de tecnologia no Brasil. Houve alguns órgãos que funcionaram muito bem para a ciência nacional. É o caso do CNPq, da Fapesp, da Capes etc. O que faltou ao Brasil foram duas coisas: aumentar o contato das nossas universidades com o resto do mundo e problemas institucionais. Por exemplo, aqui ainda é ilegal um professor se associar a uma empresa. O senhor diz que, mais importante do que gastar mais nessa área, é gastar bem. O Brasil deveria gastar mais, sim, mas bem. O programa atual do Ministério da Ciência e Tecnologia não levará ao sucesso. Descentraliza os recursos, o que é um absurdo. Em pesquisa e tecnologia, o que funciona é ter senso de excelência. O que pensa sobre política industrial? A expressão política industrial é usada em muitos sentidos diferentes, um dos perigos desse debate. O que já está claro é o que não devemos fazer: em primeiro lugar, escolher setores,a menos que se identifique algum no qual a ajuda a determinada empresa crie um processo em que todo o setor ganhe. Outra grande besteira do passado que ainda se discute é adensar a cadeia tecnológica. O governo deveria procurar corrigir as falhas de mercado. Não sou contra o governo investir num setor em que apareçam resultados.Há investimentos governamentais com altas taxas de retorno: pesquisa e tecnologia, padronização, prospecção de mercado, seguro de exportação etc. O senhor entende que o Brasil deve acertar um novo acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI)? O Brasil não está na situação de desespero de quem precisa fazer um acordo com o FMI. Portanto, está numa posição de negociação mais forte do que em outras ocasiões. A grande vantagem é que ficaremos menos dependentes de financiamentos no mercado. Qual a primeira medida que o senhor adotaria para colocar o País numa rota de crescimento sustentado? Pelo combate à informalidade, que acaba com a produtividade e diminui nossa capacidade de crescer. O segundo ponto é o marco institucional, com leis que dêem mais garantias ao credor.