Notícia

Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações

Partículas ultrafinas de aerossol intensificam as chuvas na Amazônia, diz estudo

Publicado em 31 janeiro 2018

Um estudo desenvolvido por pesquisadores brasileiros, incluindo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), revela como a presença de partículas ultrafinas de aerossol na atmosfera pode intensificar o processo de formação de nuvens e também as chuvas na região amazônica. Essas partículas, que possuem diâmetro menor do que 50 nanômetros (ou bilionésimos de metro), teriam papel menor na regulação do ciclo hidrológico – o que, de fato, ocorre em regiões continentais poluídas, como as cidades europeias, norte-americanas ou mesmo São Paulo. Na Amazônia, porém, seu papel é diferente.

“A descoberta permite compreender melhor como a poluição urbana afeta os processos relacionados à formação de tempestades convectivas na Amazônia e deve aumentar a acuidade dos modelos climáticos e de previsão do tempo”, explicou o pesquisador Luiz Augusto Toledo Machado, do Inpe.

Publicada na revista Science de janeiro, a pesquisa foi conduzida no âmbito da campanha científica Green Ocean Amazon (GOAmazon) com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Realizada em 2014 e 2015, teve entre seus objetivos investigar o efeito da poluição urbana de Manaus sobre as nuvens amazônicas e avançar no conhecimento sobre os processos de formação de chuva e a dinâmica da interação entre a biosfera amazônica e a atmosfera. Com base nos achados, os pesquisadores pretendem estimar mudanças futuras no balanço radiativo, na distribuição de energia, no clima regional e seus impactos para o clima global.

De acordo com o pesquisador Henrique de Melo Jorge Barbosa, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, os dados foram coletados durante a estação chuvosa de 2014 – entre os meses de março e abril –, período em que a Amazônia está livre das queimadas e, portanto, em que a única fonte de poluição relevante é a cidade de Manaus.

“Manaus é uma cidade com cerca de 2 milhões de habitantes, mais de 500 mil veículos e abastecida por termelétricas. É, portanto, uma grande fonte poluidora cercada de floresta pristina. Nosso principal sítio experimental foi instalado em Manacapuru – cidade a 80 quilômetros da capital amazônica e que, alternadamente, recebe a pluma de poluição carregada pelos ventos alísios e também ar limpo da floresta”, afirmou Barbosa.

Com o auxílio de instrumentos capazes de medir a concentração de aerossóis na atmosfera e calcular o tamanho das partículas, bem como o de radares que medem o tamanho das gotículas de nuvem, a quantidade de chuva e a velocidade com que o vapor é levado da superfície terrestre para a nuvem, o grupo de pesquisadores comparou o processo de convecção (movimento vertical dos gases causado pela transferência de calor) e de formação de nuvens quando a pluma de Manaus estava ou não presente sobre Manacapuru.

“As partículas de aerossol são essenciais no processo de formação de nuvens porque são elas que oferecem uma superfície para o vapor d’água se condensar. As gotículas formadas pela condensação são pequenas, mas elas acabam colidindo umas com as outras e, assim, crescendo. As gotas aumentam de tamanho e, quando ficam pesadas o suficiente, precipitam”, disse o pesquisador da USP.

“Nunca entendemos como podem ocorrer aguaceiros tão frequentes na Amazônia se a região tem tão poucos núcleos de condensação de nuvens – algo na ordem de 300 ou 350 partículas por centímetro cúbico [São Paulo, por exemplo, chega a ter de 10 mil a 20 mil]. Mas é porque nunca havíamos considerado o papel dessas partículas ultrafinas de aerossol”, comentou o pesquisador Paulo Artaxo, também da USP.

Segundo ele, a descoberta mostra que os cientistas que estudam as regiões tropicais não devem se basear apenas em conceitos desenvolvidos em países de clima temperado. “Precisamos olhar para as particularidades da Amazônia. É possível que, no passado, quando a atmosfera global ainda não estava poluída pelas emissões humanas, esse fenômeno de intensificação de tempestades também ocorresse em outras regiões do planeta. Mas não sabemos ao certo e precisamos aprofundar as investigações”, acrescentou.