Notícia

Correio Popular

Parque tecnológico e desenvolvimento

Publicado em 22 dezembro 2005

Por José Tadeu Jorge
Há exatamente um mês, o governo do Estado anunciou Campinas como um dos cinco pólos regionais que sediarão os parques científicos e tecnológicos previstos para serem instalados nos próximos anos, ao lado de São Carlos, São José dos Campos, Ribeirão Preto e da Capital. Ao fazê-lo, o governo reafirma e reforça a condição histórica da cidade como uma das melhores opções no País, se não a melhor, para a localização de atividades públicas e privadas de pesquisa e desenvolvimento e a instalação de empresas de base tecnológica.
Essa condição já havia sido apontada por estudo recente da ONU e pela prestigiosa revista Wired Magazine em julho de 2000, num levantamento que elencava os principais pólos de atração de investimentos nos cinco continentes. Muitos fatores são levados em conta em rankings dessa natureza. No caso de Campinas, conta seguramente a existência de universidades consolidadas e de nove outras instituições de pesquisa (sozinha, a Unicamp responde por 15% da produção científica e tecnológica brasileira), a capacidade de gerar mão-de-obra qualificada e diversificada, a presença de uma florescente indústria de tecnologia limpa, forte concentração de empresas voltadas para a inovação tecnológica e uma infra-estrutura física com malha rodoviária de primeira ordem, aeroporto internacional, excelente estrutura de telefonia e facilidade de transmissão de dados.
Em realidade, ciente da singularidade de sua posição, Campinas já se havia antecipado ao anúncio do governo e deflagrado, em 2003, por iniciativa da Unicamp e da Prefeitura local, com apoio financeiro da Finep e da Fapesp, um estudo de fundo visando a conceituação do parque — cuja ênfase estará na produção de tecnologia da informação e de comunicação —, a organização de suas condições físico-territoriais e a formulação de alternativas de um plano urbanístico básico. Já em discussão nas esferas federal, estadual e do município, o estudo leva em conta uma outra vantagem considerável da cidade, que é a existência de um primeiro parque tecnológico em funcionamento desde a década de 80, em função do qual foi constituída uma empresa municipal de economia mista encarregada de fomentá-lo, a Ciatec. O novo parque ocupará uma área dez vezes maior — cerca de oito milhões metros quadrados — e seu plano diretor, instituído já em 1996 pela Ciatec, compreende um perímetro que limita com a Unicamp, a PUC-Campinas e a rodovia Campinas Mogi-Mirim.
O sistema de parques científicos e tecnológicos, já consagrado nos países de economia desenvolvida, é hoje uma tendência mundial inescapável. Ao reunir empresas e institutos de pesquisa num espaço planejado e organizado de modo a permitir o uso de serviços compartilhados, quase sempre próximos dos laboratórios de grandes universidades, os parques são ambientes muito favoráveis ao desenvolvimento de atividades de alto valor agregado e propício aos surgimento de empresas de base tecnológica.
Daí o caráter estratégico dos parques e sua inserção no âmbito de programas e ações públicas de desenvolvimento regional, bem como a definição de seu perfil produtivo conforme a vocação tecnológica demonstrada em cada região. Concebidos como empreendimentos imobiliários a serem desenvolvidos pela iniciativa privada com o apoio do Estado, seu êxito depende do comprometimento de um leque de parceiros que vão das universidades e institutos de pesquisa ao empresariado e aos governos municipal, estadual e federal. Dos cinco projetos que compõem o programa paulista, o de Campinas é dos que apresentam perfil mais definido — a começar pela existência de 30 empresas já instaladas no local, as quais empregam hoje quase três mil pessoas — e alternativas de plano urbanístico que podem orientar desde já a implantação da infra-estrutura de serviços viários, de energia, de comunicação e de saneamento básico, necessários para a viabilização do projeto.
O projeto do parque de Campinas prevê uma área corporativa destinada à implantação de atividades de base tecnológica (um núcleo central onde ficarão as edificações de pré-incubação e incubação de empresas e as instalações de serviços compartilhados, além da sede gestora do empreendimento) e uma segunda área de uso misto que inclui, além do comércio e serviços de âmbito local, um setor de domínio residencial. Isto implica uma operação imobiliária de grande porte que, como aconteceu em todos os parques tecnológicos bem-sucedidos pelo mundo, servirá como forma de alavancagem e de sustentação financeira do projeto como um todo, a começar pela incorporação das terras não públicas.
Os fatores positivos aqui apontados constituem uma base sólida para que se chegue o mais cedo possível a um acordo com os proprietários das áreas ainda não ocupadas, capaz de interessá-los na consolidação e na expansão do Parque Tecnológico de Campinas, de importância inquestionável para o desenvolvimento da cidade e da Região. Esta é uma oportunidade rara para Campinas, para não dizer histórica, sobretudo agora que o governo do Estado se prepara para definir os dois primeiros projetos — os de consolidação mais visível — para assim estabelecer seu cronograma de investimentos e estabelecer prioridades.

José Tadeu Jorge é reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)