Notícia

Inovação Unicamp

Parque Tecnológico de São José dos Campos

Publicado em 04 setembro 2006

A Embraer, o Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA) e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) anunciaram, no dia 30 de agosto, a criação em parceria do Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Aeronáutica (CDTA). O CDTA é o primeiro centro de pesquisa e desenvolvimento (P&D) a se instalar no núcleo do futuro Parque Tecnológico de São José dos Campos, no quilômetro 138 da rodovia Presidente Dutra.

O governador Cláudio Lembo foi o convidado principal da solenidade organizada pela prefeitura da cidade para marcar o anúncio. O governo do Estado, por meio do Sistema Paulista de Parques Tecnológicos, organiza a implantação de outros quatro parques em Campinas, São Carlos, São Paulo e Ribeirão Preto. O parque de São José é o que está mais avançado: a prefeitura comprou o prédio onde funciona o núcleo do parque e já busca empreendedores interessados no desenvolvimento imobiliário da área que abrigará empresas de base tecnológica ou centros de pesquisa e desenvolvimento. A notícia da parceria Embraer, ITA e IPT reforça a iniciativa. Depois das eleições, o governo do Estado repassará R$ 2 milhões à prefeitura para obras no núcleo do parque. O prédio, de 30 mil metros quadrados, foi construído para ser a sede de uma empresa que deixou a cidade.

O Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Aeronáutica

Segundo Satoshi Yokota, vice-presidente executivo de engenharia e desenvolvimento da Embraer, a primeira atividade da empresa a ser instalada no CDTA será o Programa de Especialização em Engenharia (PEE). Trata-se de um mestrado profissionalizante, feito pela empresa em parceria com o ITA, para aprimorar a formação dos engenheiros contratados pela companhia. O curso já está formando 126 alunos e outros 79 começaram o programa em julho. De acordo com o vice-presidente, a empresa executará no centro projetos escolhidos entre dez de sua carteira, a maioria já apresentada à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), e em fase de exame. "Temos, por exemplo, projetos voltados para o desenvolvimento de estruturas aeronáuticas leves. Estamos trabalhando muito para desenvolver mecanismos de estudo, avaliação, desenvolvimento de corpos de prova e de testes, por exemplo, através do IPT, para avaliação de propriedades de elementos estruturais", diz. "Mesmo já tendo uma equipe e instalações para P&D, a Embraer optou por participar do parque porque existem competências fora dela e das quais precisamos", justifica Yokota. Na avaliação da companhia, o tipo de arranjo feito em um parque tecnológico facilita o trabalho conjunto de diversos atores, por estarem em um ambiente comum.

De acordo com Marco Antônio Raupp, o gestor que coordena a implantação do parque de São José dos Campos, a instalação plena do CDTA requererá investimentos de US$ 100 milhões, em quatro anos. Parte dos investimentos será privada e parte, pública. Ele não soube definir quanto virá de cada um dos setores. "A parte de infra-estrutura, que é de uso compartilhado, será financiada pelo setor público. Estamos procurando programas de financiamento já existentes junto à Fapesp, à Finep, ao BNDES para aportar no projeto", explica. Segundo ele, já em outubro o PEE estará em funcionamento no núcleo do parque.

Raupp explica que a segunda estrutura do CDTA será um centro de realidade virtual, voltado para simulação de sistemas e desenvolvimento de tecnologias de visualização. "Será um laboratório computacional para fazer experimentos com software embarcado, com integração de sistemas de um avião. Já existe uma estrutura assim na Embraer, que será o ponto de partida. Vamos atualizá-la", afirma. Equipes do ITA e da Embraer vão trabalhar nesse laboratório, inicialmente. O custo ficará na casa de US$ 1 milhão, e o laboratório deve começar a operar no final de 2006. A terceira estrutura será um centro de pesquisa e desenvolvimento de estruturas leves, que buscará novos materiais de interesse da aeronáutica, como compósitos, materiais metálicos mais leves, fibras de carbono. O custo desse laboratório está em torno de US$ 15 milhões, e ele deve iniciar suas atividades no meio do ano que vem.

"Esses laboratórios não serão utilizados só por empresas de aeronáutica", observa Raupp, que deixou a direção do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), para participar da implantação do parque de São José. Segundo ele, a indústria do petróleo, por exemplo, é uma que pode se beneficiar dos futuros laboratórios do CDTA. Raupp revela que está iniciando contatos com a Petrobras para atrair as atividades de P&D da empresa para o parque. Em São José funciona a Refinaria Henrique Lage, a segunda maior do País. Também o setor biomédico poderá usar esses laboratórios de simulação, avalia ele. "Estamos em entendimentos com a Unifesp para que ela se instale no núcleo do parque, pois queremos atrair e fomentar empresas que se utilizem do conhecimento das ciências biomédicas. Esses laboratórios podem ser utilizados por esse setor, para simulação, por exemplo, de intervenções cirúrgicas", completa.

Raupp conta que a segunda plataforma de atuação do parque será voltada para a indústria aeroespacial — dada a presença do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e do Centro de Tecnologia Aeronáutica (CTA) no município. "Queremos fazer algo similar ao que ITA e IPT estão fazendo com a Embraer, mas agora quem vai participar é o INPE, na parte de satélites, o CTA, na parte de foguetes, e as empresas do setor espacial", enumera. "A questão é colocar tecnologias atualizadas nessas empresas, para que possam desenvolver esses projetos do setor espacial, hoje de origem exclusivamente governamental", diz.

A preocupação é com a capacitação tecnológica das empresas. "O programa espacial precisa operar tecnologicamente atualizado e isso estamos perdendo. Quando o projeto de cooperação do Brasil com a China [em satélites, os CBERS] começou, os parceiros estavam no mesmo nível. Mas agora a defasagem tecnológica é grande", observa. Raupp dirigiu o INPE de 1985 a 1989, na época em que Brasil e China decidiram construir juntos os satélites de sensoriamento remoto. Ele acrescenta que essa capacitação das empresas visa a prepará-las também para atuar no mercado global.

"Hoje, poucos recursos do programa espacial são destinados à capacitação tecnológica das empresas. Queremos, a partir de um projeto de desenvolvimento de infra-estrutura e de estabelecimento de um modelo de cooperação entre as instituições, partir para a canalização dos investimentos, uma outra área de atuação do parque", comenta Raupp. Para ele, os projetos englobados pelo parque tecnológico se encaixam "perfeitamente" na Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE) do governo.

A situação dos outros parques

O Sistema Paulista de Parques Tecnológicos, criado por decreto do ex-governador Geraldo Alckmin em 6 de fevereiro de 2006, é coordenado pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico e financiado por meio de um projeto especial da Fapesp, com recursos repassados pelo Estado. João Evangelista Steiner é o coordenador do projeto. Ele abriu a cerimônia do dia 30, com uma apresentação do sistema, do conceito de parque tecnológico e de sua importância para o desenvolvimento dos países. Ele contou que, depois de São José dos Campos, o parque tecnológico de São Carlos é que está em estágio mais adiantado. Ele será voltado para os setores de ótica e instrumentação. Há duas ofertas de empreendedores privados sendo analisadas, uma delas envolvendo uma área de 15 milhões de metros quadrados. Esse parque, disse, deve ser lançado ainda em 2006.

Em Campinas, o Pólo Ciatec II foi a área definida por lei para abrigar o parque. Fica ao lado da Unicamp e nele já existem empresas de tecnologia, como a Nortel, e centros de P&D, como o CPqD. A Natura adquiriu há três semanas um terreno no pólo para construir um centro de P&D. O parque deverá trabalhar com os setores de tecnologia da informação e biotecnologia. A prefeitura da cidade anunciou no dia 25 de agosto que vai enviar à Camara um projeto de lei que revê o Plano Diretor da cidade e prevê mudanças no zoneamento da área que facilitarão o desenvolvimento do parque.

Ribeirão Preto também tem uma área ofertada por empreendedores privados. Fica próxima ao campus da Universidade de São Paulo (USP) e tem 14 milhões de metros quadrados. Esse parque se volta para empresas e pesquisa em tecnologia para saúde. Em São Paulo, onde há menos espaço livre, estuda-se revitalizar a área industrial do Jaguaré e do Ceagesp, localizados no entorno da USP, para construção do parque paulista, voltado para serviços, design e nanotecnologia. (J.S.)