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Gazeta de Ribeirão online

Parque na Zona Oeste

Publicado em 16 outubro 2007

Projeto envolve a Prefeitura de Ribeirão e a iniciativa privada, que já desembolsou R$ 600 mil para viabilizar o projeto

Uma parceria entre a iniciativa privada e o poder público vai criar, na Zona Oeste, o maior parque ecológico de Ribeirão Preto. O Parque Fazenda Baixadão, no vale do Córrego dos Campos, vai ter área de 160 mil metros quadrados ou o equivalente a 20 campos de futebol. Além de oferecer lazer, o local servirá para o desenvolvimento de atividades educacionais e culturais.

A área constituía a antiga Fazenda Baixadão e foi adquirida pela Prefeitura em 1997 para a construção de moradias populares - os Jardins Paiva 1 e 2. Da fazenda restam a sede, algumas das casas de colônia, o terreiro de café, tulha e escombros do engenho onde era produzida aguardente.

Segundo o secretário de Planejamento e Gestão Ambiental de Ribeirão, Marcos Spínola de Castro, o projeto do Parque Fazenda Baixadão já dispõe de R$ 600 mil doados pela iniciativa privada. São R$ 200 mil da Socicam, empresa que administra a rodoviária, e R$ 400 mil da Ambient, responsável pelo tratamento de esgoto da cidade.

O secretário afirma que ainda não tem uma previsão de quanto a implantação do parque vai custar porque o projeto está em fase de elaboração. Mais empresas serão convidadas a colaborar financeiramente com a obra, diz Castro. De acordo com ele, o parque pode expandir sua área dos atuais 160 mil metros quadrados para 200 mil metros quadrados.

O secretário de Planejamento declara que já foram construídas 2.060 unidades habitacionais no entorno do parque, com previsão de que esse número chegue a até 6.256 unidades.

O parque vai servir de opção de lazer não somente para os moradores do Jardim Paiva, mas de outros bairros próximos, como o Alto do Ipiranga, Cidade Universitária e Planalto Verde.

O arquiteto Silvio Contart, da Contart & Takano, participa como voluntário na elaboração do projeto do Parque Fazenda Baixadão. Segundo ele, o projeto vai ser debatido em audiência pública no próximo dia 29, convocada pelo Ministério Público.

"Trata-se de uma idéia fantástica. Sempre fui favorável à implantação de parques em fundos de vales. Esse projeto tem um lado social muito interessante. Ali poderão ser concentrados serviços públicos que propiciem o desenvolvimento humano da população daquela região", diz.

Contart afirma que a idéia é oferecer inclusão digital, biblioteca e oficina de artesanato e reciclagem, entre outras atividades. Para o local, segundo ele, empresas poderão direcionar eventuais compensações ambientais decorrentes de ajustes feitos com o Ministério Público.

O arquiteto Contart assina alguns dos principais projetos de parques ambientais de Ribeirão. Entre eles o Curupira, Luiz Carlos Raya e o do bairro Nova Aliança, todos na Zona Sul de Ribeirão.

Para José Luiz Barbieri, diretor do Departamento de Gestão Ambiental, o Parque Fazenda Baixadão vai levar bem-estar social para uma região de Ribeirão na qual os moradores não contam com opções de lazer.

"É uma região da cidade com muita carência. Acredito que o parque possa até contribuir para a redução da violência", diz.

Unicamp treinou professores no local

No pátio entravam os caminhões. A cana era descarregada em uma esteira. Havia o túnel por onde saía a cinza em baixo da chaminé do engenho. Na sede antiga moraram o Sr. Antonio [PAIVA] e o Sr. Francisco Paiva. O pagamento era feito na sede da fazenda, onde morava o Sr. Mario [PAIVA].

Diante das fotografias atuais das edificações (em ruína) da Fazenda Baixadão, o Sr. Diogo Nunes explica a função de cada prédio quando trabalhou, em duas oportunidades diferentes, ambas na década de 1960, para a família Paiva. E continua:

"Na mata havia macaco. Veados vinham beber água aqui [represa de contenção]. Uma vez foi pega uma onça e levada para o Bosque [MUNICIPAL]".

O Sr. Nunes relembra da mata que existiu, foi incendiada na década de 1970. Seus remanescentes atuais acham-se restritos a poucas árvores de cerrado.

A recuperação da história regional e da história da agricultura paulista a partir das ruínas da Fazenda Baixadão é o resultado de pesquisa realizada por professores e alunos do ensino médio de escolas estaduais. Iniciativa que envolveu a parceria do Instituto de Geociências (Unicamp) e Diretoria de Ensino da Região de Ribeirão Preto com apoio da Fapesp, CNPq, técnicos do Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto e da Secretaria Municipal de Planejamento e Gestão Ambiental, bem como informes de moradores da cidade. De 2003 até a presente data, alunos e professores visitam as ruínas e avançam o conhecimento sobre as mudanças ocorridas em pouco mais de 100 anos no local. Foi construído um modelo de educação ambiental mediante estudo sistemático que valoriza o lugar por meio do conhecimento pesquisado e sensibiliza esses agentes em defesa da restauração dos edifícios para manter essas atividades educacionais.

Parcelas de uma história adormecida, do século XIX ao final do século XX, que gradualmente estava sendo perdida pela degradação de prédios e outras marcas deixadas pela atividade agrícola e agroindustrial foram recuperadas. Fazem parte do conhecimento dos alunos de algumas escolas da cidade.

As ruínas ajudam a recompor como era a fazenda, o que significou o ciclo do café na cidade, os efeitos da crise de 1929, a substituição gradual do café por outras culturas (dentre elas a cana e a produção de pinga materializada no engenho que, durante anos, produziu a pinga da Fazenda Baixadão).

Colonos (filhos de imigrantes) falam da vila da Fazenda com cerca de 160 casas. Relatam como era seu trabalho e seu cotidiano do contrato para cuidar do café. Relembram como viviam suas famílias quando eram crianças, quais eram os conflitos entre colonos e proprietários, as festas e o esforço de acumulação para deixar de ser colonos. Alunos e professores discutiram os resultados desses depoimentos e contextualizaram esses fatos na história econômica do Brasil.

Essa reunião de marcas da história humana acha-se em um lugar que é a microbacia do córrego dos Campos (área aproximada da antiga Fazenda da Pontinha ou Fazenda Baixadão já delimitada por volta de 1850). Isso permite que os professores avancem com seus alunos o conhecimento sobre o meio físico e as mudanças ambientais decorrentes da transformação do espaço rural em urbano. Parte da área da Fazenda Baixadão, nas cabeceiras do córrego dos Campos, é ocupada hoje pelo Jardim Paiva.

Na Fazenda Baixadão há o encontro da história da natureza com a história econômica e as formas atuais de ocupação da terra, absolutamente singular na cidade. Por si só isso justifica um esforço para preservar os edifícios antigos e divulgar esse conhecimento para toda sociedade.

Pedro Wagner Gonçalves é chefe do Departamento de Geociências Aplicadas ao Ensino Instituto de Geociências - Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)