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Nexo Jornal

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Publicado em 22 dezembro 2018

As leituras que nutrem minha prática como curador são incoerentes já que, trabalhando no campo ampliado da cultura, não separo a arte das supostas outras esferas da vida. Vivendo num tempo esfarelado, desenvolvi, assim como muita gente, novas relações com os livros: além dos raros novos encontros, há aqueles livros-ferramentas que saem da estante quando vou escrever um texto, os clássicos que releio compulsivamente e, por fim, os que me fazem companhia em viagens, mas com os quais tenho só breves momentos – quando se deixam folhear e me oferecem trechos, ora luminosos, ora banais. Junto aqui algumas leituras do ano que passou, olhando para o ano por vir.

Lia Vainer Shucman, Fapesp, Annablume, 2014

Não se pode fazer a economia de ler os clássicos sobre negritude, colonialismo, racismo créolité – de Aimé Cesaire a Patrick Chamoiseau, passando por Edouard Glissant e Frantz Fanon. Por questões biográficas, muitas referências minhas passam pela língua francesa, mas Elida Lima, Peter Pal Pelbart e o Instituto Ibirapitanga me fazem ler, aos poucos, Lia Vainer Shucman, Lourenço Cardoso, Maria Aparecida Silva Bento e Ruth Frankenberg para entender melhor o que nas últimas décadas vem sendo chamado de “branquitude”, não como uma inversão simétrica da negritude, mas como uma possibilidade de particularizar o que tende a se impor como universal. Tornar a branquitude visível tem sido uma forma de questionar o racismo estrutural de outra forma.

Stephen Wright, Edições Aurora, 2016

Por ser um glossário, este livro deve ser folheado mais do que lido. Trombei com ele em 2014, quando fui curador associado da 31a Bienal de São Paulo – edição bastante diferente da recente 33a Bienal (2018). Essa diferença fica ainda mais visível se resolvemos, justamente, usar essa publicação como bússola. A versão em português foi lançada pela Edições Aurora. Apesar de Stephen apontar para uma mudança de paradigma que me parece rígida, continuo pescando definições, ora para criticá-las, ora para usá-las. Sempre me fazem pensar no que a arte pode fazer hoje – o que ele chama da sua “utilidade”.

Alexandre Nodari, Brian Massumi, Eduardo Viveiros de Castro, Giorgio Agamben, Laymert Garcia dos Santos, Marilene Felinto, Maurizio Lazzarato, Peter Pál Pelbart, Suely Rolnik, Vladimir Safatle, n-1 edições, 2016

Apesar de a coleção ser um pouco masculina demais, com pequenos textos de grandes autores – como Suely Rolnik e Eduardo Viveiros de Castro – os editores da N-1 conseguiram uma proeza. Juntaram pedras preciosas para desenharmos e/ou encontrarmos nosso próprio caminho neste momento tão confuso que se finge de simplório com políticos trazendo receitas prontas. Novos cordéis saem regularmente. Cada um é uma arma conceitual para seguir pensando e se movimentando no presente.

Sigmund Freud,Imago Editora, 1996

2019 é um bom ano para voltar pro beabá da psicanálise e entender aquele famoso iceberg do inconsciente. Somos bombardeados por discursos violentos, racistas e machistas a tal ponto que o nosso mundo parece estar de ponta cabeça como se o iceberg inteiro ficasse para fora: o que estava recalcado voltou à tona com o rosto monstruoso da reação às mudanças em curso. Freud explica!

René Char, N/A, 1946

É raro eu viajar sem um livro de René Char no bolso. Ele não se desvenda facilmente. A tradução do francês é árdua. Mas se conseguir entrar nas frestas do texto, torna-se um leal companheiro de caminhada. Como René Char disse “Le poète ne peut pas longtemps demeurer dans la stratosphère du Verbe. Il doit se lover dans de nouvelles larmes, et pousser plus avant dans son ordre.” (Feuillet 19) (“O poeta não pode ficar muito tempo na estratosfera do verbo. Ele tem que se deitar em novas lágrimas e empurrar mais adiante sua ordem.”) Em 2019, estaremos presentes!

Benjamin Seroussi nasceu na França, em 1980. Atua como curador, editor e gestor cultural. É diretor da Casa do Povo, em São Paulo, e coordena COINCIDÊNCIA, intercâmbios culturais entre Suíça e países da América do Sul, programa trienal realizado por Pro Helvetia, fundação suíça para a cultura.