Notícia

Página 9

Parceria pelo desenvolvimento

Publicado em 15 setembro 2009

Estimular a cooperação científica e tecnológica entre o Brasil e o Reino Unido é o objetivo do acordo que será assinado nesta terça-feira (15/9), na Inglaterra, entre a FAPESP e os Conselhos de Pesquisa do Reino Unido (RCUK, na sigla em inglês).

O acordo permitirá que as duas instituições apoiem projetos cooperativos propostos por pesquisadores britânicos e brasileiros associados. "A dimensão da internacionalização é ingrediente importante no aprofundamento da cooperação da FAPESP com instituições britânicas e é uma forma de criar um processo de integração e trabalho conjunto de pesquisadores", disse Celso Lafer, presidente da FAPESP.

"Os RCUK são dedicados a promover a colaboração com os melhores dos melhores e esse acordo demonstra nosso comprometimento em ampliar as oportunidades para pesquisadores. Por meio dele, pesquisadores de classe mundial poderão trabalhar juntos em excelentes projetos", explicou Ian Diamond, presidente do conselho dos RCUK.

As propostas deverão ser submetidas diretamente, por pesquisadores no Reino Unido em associação com colegas pesquisadores vinculados a instituições de ensino superior e pesquisa no Estado de São Paulo, a uma ou mais entidades pertencentes aos RCUK, que informarão a FAPESP da submissão de proposta de pesquisa.

As propostas serão submetidas aos RCUK obedecendo cronograma e normas a serem divulgados em breve. A mesma proposta deverá ser submetida à FAPESP no formato e formulários apropriados.

Segundo o acordo, os gastos a serem financiados para os candidatos sediados no Reino Unido e no Brasil deverão ser compatíveis com as linhas de fomento existentes nos Conselhos de Pesquisa do Reino Unido e na FAPESP, respectivamente.

Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP e um dos representantes brasileiros à assinatura do acordo - que será realizada em Swindon, a 130 quilômetros de Londres, onde fica a sede dos RCUK -, destaca que o apoio à colaboração internacional é essencial para a FAPESP e será importante tanto para cientistas brasileiros como para britânicos.

"A cooperação com os RCUK abre possibilidades para que pesquisadores dos dois países colaborem de forma eficaz. O acordo cobre todas as áreas do conhecimento e estamos interessados em receber propostas notáveis, tanto em pesquisa fundamental como aplicada", disse.

Para o ministro britânico da Ciência, Lord Drayson, o acordo deverá permitir o fortalecimento de parcerias entre pesquisadores dos dois países, que poderão compartilhar conhecimento na abordagem dos mais diversos temas.

"É uma satisfação muito grande presenciar um acordo tão importante. Pesquisadores no Reino Unido e no Brasil poderão aproveitar os benefícios de colaborar sem ter que se preocupar em precisar passar por processos de aplicação separados", destacou.

Projetos conjuntos

O acordo de cooperação entre FAPESP e os Conselhos de Pesquisa do Reino Unido deverá fortalecer a realização de projetos de pesquisa conjunta entre cientistas brasileiros e britânicos, tendência que tem se acentuado nos últimos anos.

Carlos Alfredo Joly, coordenador do Programa Biota-FAPESP, que fez doutorado na Universidade de Saint Andrews e pós-doutorado na Universidade de Londres, tem conduzido projetos de pesquisa em parceria com pesquisadores do Reino Unido que objetivam a entender melhor o impacto das mudanças climáticas na perda da biodiversidade.

"No Projeto Temático, apoiado pela FAPESP, que conduzimos pelo gradiente altitudinal na Mata Atlântica, temos trabalhado com pesquisadores do Reino Unido para adaptar e desenvolver novas equações que permitam estimar os estoques de carbono na floresta. O acordo que será assinado representa uma oportunidade excelente de ampliar o escopo de nossa cooperação e de estimular um intercâmbio mais intenso entre estudantes e grupos de pesquisa", disse.

As pesquisas de Yadvinder Malhi, professor do Centro para o Meio Ambiente da Universidade de Oxford, são outro bom exemplo de parceria entre os dois países. O trabalho de pós-doutorado de Malhi, na década de 1990, teve como foco a medição de fluxos de carbono na Floresta Amazônica.

Desde então o cientista tem trabalhado em conjunto com colegas brasileiros. Em 2000, foi um dos fundadores da Rede Amazônica de Inventários Florestais (Rainfor), que tem ampliado o conhecimento a respeito da biogeografia da região e como ela responde a mudanças atmosféricas e climáticas mundiais.

"Nossa pesquisa na Amazônia tem apoio financeiro dos RCUK e é excelente saber que esse acordo tornará mais fácil para nosso grupo e colegas ter acesso aos recursos de que precisamos", disse Malhi.

Mais apoio

John Lucas, chefe do Departamento de Patologia e Microbiologia de Plantas da Rothamsted Research, um dos Conselhos de Pesquisa do Reino Unido, também acredita que o acordo será muito produtivo para os dois lados.

"Eu e meus colegas temos colaborado com cientistas de diversas instituições do Brasil há mais de 15 anos em pesquisas sobre agricultura sustentável. Nossos países, apesar de muito diferentes em relação às culturas agrícolas e condições climáticas e ambientais, enfrentam desafios comuns no debate atual a respeito de temas como segurança alimentar, bioenergia e sustentabilidade", disse à Agência FAPESP.

"As oportunidades para projetos de pesquisa conjuntos são excelentes. Mas, até então, temos visto recursos limitados para apoiar essas iniciativas. Nossas colaborações têm se limitado, principalmente em visitas de períodos curtos, à realização de eventos e ao intercâmbio de estudantes", contou.

"O acordo FAPESP-RCUK é um exemplo importante desse progresso e representa uma nova oportunidade para que cientistas britânicos e brasileiros possam não apenas compartilhar conhecimento, mas desenvolver projetos inovativos que beneficiem ambas as comunidades científicas e populações em geral", afirmou.

O acordo prevê a realização de parcerias nas mais variadas áreas do conhecimento. "Ambas as comunidades científicas se beneficiarão com o acordo. Ele facilitará a realização de pesquisas comparativas, tão importantes nas ciências sociais, e estimulará a divulgação de resultados de pesquisa entre os dois países, contribuindo tanto para o desenvolvimento científico como também para a criação de aplicações em um ritmo mais acelerado", disse a professora Terezinha Nunes, do Departamento de Educação da Universidade de Oxford, que, assim como Lucas e Malhi, estará presente na assinatura do convênio.

Graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais, a pesquisadora fez mestrado e doutorado pela City University of New York e pós-doutorado pela Universidade de Oxford. Seu grupo está sempre colaborando com pesquisadores brasileiros e recebendo estudantes para pós-graduação.

Terezinha destaca que o acordo permitirá o fortalecimento do processo de formação de novos pesquisadores nos programas de pós-graduação, que poderão apresentar seminários de pesquisa ao visitar o outro país durante trabalhos conjuntos

"Além disso, o próprio processo de elaboração e exame de projetos será beneficiado nos dois países: pesquisadores ingleses e brasileiros precisarão considerar as teorias, métodos e critérios relevantes nos dois países e muito poderão aprender durante esse processo", disse.

Produção crescente

O acordo FAPESP-RCUK também é resultado da crescente produção científica em São Paulo e no Brasil e a importância do investimento no setor. "Pesquisadores do Estado de São Paulo são hoje responsáveis por 50% dos artigos científicos, publicados em revistas estrangeiras", disse Brito Cruz.

Jonatham Adams, diretor de avaliação de pesquisas da Thomson Reuters, também destaca a importância da pesquisa paulista: "Em algumas áreas de pesquisa, é evidente que São Paulo não está apenas acima da média do impacto [dos trabalhos de pesquisas] para o país, mas bem acima da média mundial".

"Análises feitas pela Thomson Reuters mostram que São Paulo se constitui em um excelente parceiro para a colaboração internacional, com uma base de pesquisa forte e crescente que oferece oportunidades valiosas para a descoberta e a inovação", disse Adams, que também participará da assinatura do convênio.

O crescimento da ciência e tecnologia no Estado de São Paulo encontra ecos por todo o país. A ciência brasileira tem ganhado mais visibilidade global: o número de revistas científicas nacionais indexadas na base de dados internacional Web of Science-ISI (WoS) aumentou 205% entre 2002 e 2008.

A razão do aumento, de acordo com especialistas em cientometria e com a Thomson Reuters, responsável pela WoS, é o crescimento do interesse mundial pela pesquisa científica brasileira, atualmente considerada de alta qualidade.

O apoio das agências de fomento é um dos principais motivos para o aumento da pesquisa feita no país. A FAPESP, por exemplo, investiu em 2008 R$ 637,9 milhões no apoio à pesquisa científica e tecnológica.

Anualmente, a FAPESP desembolsa cerca de um terço de seu investimento na formação de pesquisadores por meio de bolsas; mais de 50% são destinados à pesquisa acadêmica e 10% são investidos em pesquisas voltadas para aplicações em empresas ou na formulação de políticas públicas.

Os RCUK reúnem sete Conselhos de Pesquisa do Reino Unido e investem anualmente cerca de R$ 9 bilhões em pesquisa nas mais diversas áreas do conhecimento.

Fonte: Agência FAPESP