Notícia

Gazeta Mercantil

Parceria fez software licenciado pela Microsoft

Publicado em 04 julho 2000

Por Adriana Vilella - De São Paulo
De São Carlos e Campinas, com paradas na Irlanda e nos Estados Unidos, para o resto do mundo. Este é o itinerário do software desenvolvido em parceria entre a Itautec/Philco e as universidades de Campinas e a USP de São Carlos, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Licenciado com exclusividade pela gigante norte-americana Microsoft, que tem base de testes na Irlanda, o processador de textos brasileiro, incorporado ao Office 2000, é resultado de uma tendência que ganha cada vez mais espaço no País: a cooperação entre a iniciativa privada e o poder público no investimento em conhecimento e inovações tecnológicas. Mais do que uma maneira de incentivar a formação de recursos humanos nas universidades, o retorno do Estado no investimento em pesquisa é uma decisão política. Com uma rapidez típica de votações de interesse do governo, foram aprovados na semana passada, no Senado, cinco dos seis projetos de lei que criam os fundos setoriais de investimento em ciência e tecnologia os anteprojetos, foi enviado em abril para o Congresso Nacional. Na prática, a medida significa cerca de R$ 1 bilhão no orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia para pesquisas nas universidades federais, inclusive as que envolvem a iniciativa privada. O mesmo interesse existe em São Paulo, onde as parcerias entre empresas e o poder público para a pesquisa de inovações tecnológicas existem há cinco anos e têm espaço para crescer. O orçamento anual de R$ 400 milhões da Fapesp é suficiente para praticamente dobrar o número de 168 projetos envolvendo empresas financiadas atualmente no estado, Informa o diretor científico da instituição, José Fernando Perez. "Se conseguirmos dobrar este número, será uma verdadeira revolução no estado. Estaremos no topo da inovação tecnológica. É essa a filosofia que queremos implantar. Fazer a pesquisa sair do ambiente acadêmico para o empresarial", afirma. Estar no topo, só que no investimento, é a intenção do secretário de Ciência, Tecnologia, e Desenvolvimento Econômico de: São Paulo, José Aníbal. Para ele, investir em tecnologia é uma poderosa arma na briga por investimentos. Além de ser uma manutenção da soberania do estado, significa criar um ambiente acolhedor para atrair empresas. No ano passado, 42% dos investimentos feitos no País vieram para São Paulo e representaram 36% do Produto Interno Bruto. "Tenho certeza de que contou a infra-estrutura que temos aqui". As empresas, por sua vez, observam os resultados práticos da união. No caso da Itautec/Philco, eles foram tão bons que a expectativa é de fechamento de mais um acordo com as mesmas universidades, segundo Elizabeth Costa, gerente de desenvolvimento de software. "A parceria para atualização do revisor continua, está sendo renovada a cada ano. Mas também estamos pensando num outro projeto com o mesmo grupo, composto de profissionais da melhor qualidade e que também respeitam nossos prazos e os da Microsoft" diz a gerente. A primeira pesquisa envolveu lingüistas e professores de computação e consumiu cerca de US$ 1,2 milhão para cada parte - empresa e Fapesp. Prorrogar o prazo de parceria, que expira era setembro, também é a intenção da, Opto Eletrônica, de São Carlos. Financiada pela Fapesp e com uma equipe própria de nove pesquisadores, a empresa acaba de desenvolver um medidor de distância a laser, uma espécie de radar que, em vez ide utilizar ondas de rádio, utiliza o raio laser. A tecnologia é similar à usada em aviões militares norte-americanos. Prestadora de serviço para a Companhia Vale do Rio Doce há 15 anos, a Opto resolveu desenvolver o projeto a partida dificuldade do cliente em estacionar seus vagões de trem nós locais corretos sem ajuda humana - as partículas em suspensão são prejudiciais à saúde. Com o medidor, não há necessidade de acompanhamento. O Vale do Rio Doce comprou cinco protótipos antes mesmo dos testes finais, que estão em andamento agora. A empresa e a Fapesp investiram cerca de US$ 140 mil na pesquisa. Já os motivos que levaram a Copersucar a entrar na parceria com a Fapesp foram mais acadêmicos. O interesse surgiu após o início do projeto Genoma do amarelinho, doença que ataca laranjas. Envolvida em parcerias com 13 institutos de pesquisa em nove países diferentes, a empresa se surpreendeu com o interesse brasileiro e resolveu aderir, pesquisando o código genético da cana-de-açúcar. "Vimos o interesse da Fapesp em mapeamento genético como uma oportunidade para a empresa, que sempre investigou biologia molecular", explica William Burnquist, gerente de fitotecnia da Copersucar. A previsão inicial era que o projeto consumisse US$ 8 milhões em três anos, mas agora a expectativa é que a pesquisa acabe um ano antes do esperado. Mais do que os resultados buscados pelos 23 laboratórios de seqüenciamento e pelos 47 grupos de análise, a Copersucar comemora a reunião de mais de 200 pesquisadores de todo o País em torno dê sua área de atuação. "Isso é muito mais que qualquer outro país do mundo. O Brasil pulou para líder mundial na pesquisa da cana-de-açúcar", diz William Burnquist. PESQUISAS FINANCIADAS PELA FAPESP Pite - Parceria Para Inovação Tecnológica Início - 1995 Número de empresas - 55 Investimento em cinco anos - US$133 milhões PIPE Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas Início - 1998 Número de empresas - 113 Investimento em cinco anos - US$ 8,9 milhões EMPRESAS GARANTEM VERBAS PARA FACULDADE Rosely Vargas de Florianópolis Quando a Empresa Brasileira de Compressores (Embraco) precisou adaptar alguns componentes de refrigeradores para se adequar à exigência de eliminação dos gases refrigerantes halogenados (CFCS) buscou a ajuda do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Isso ocorreu há quase duas décadas e marcou o início de uma forte parceria entre a maior fabricante mundial de compressores e a instituição de ensino. Hoje, além da Embraco, o departamento de Engenharia Mecânica da UFSC tem dezenas de grandes companhias como parceiras. Graças a esse trabalho de integração, mais da metade do seu orçamento é garantido pelas empresas privadas. De quebra, a união da pesquisa com o trabalho prático ainda garante mais qualidade ao ensino. A prova é que o curso de Engenharia Mecânica da UFSC é classificado pelo Ministério da Educação como o melhor do País. "A verba do governo serve para pagar os salários dos professores e dos funcionários. Mas não é suficiente para bancar a manutenção dos nossos equipamentos", diz o coordenador do curso de pós - graduação em Engenharia Mecânica, Júlio César Passos. Apesar do dinheiro público não cobrir as despesas, os 20 laboratórios do departamento estão muito bem equipados. Em vez de esperar por aumento dos repasses federais, os 65 professores do departamento, 57 com doutorado, preferem trabalhar direta ou indiretamente para aumentar os convênios de pesquisa com as empresas privadas. No caso do Centro de Informação Metal Mecânico (CIMM), por exemplo, a lista de parceiros inclui empresas como a Villares e a Tupy. Para o coordenador geral do CIMM, engenheiro Lourival Boehs, as vantagens dessas parcerias são amplas tanto para as empresas quanto para as instituições de ensino. Para as indústrias, a maior vantagem é o acesso às pesquisas feitas por especialistas de alto nível e os estudantes podem aprender, na prática, a seguir os prazos e exigências do mercado.