Notícia

Jornal da USP

Parceria em busca de novos medicamentos

Publicado em 13 julho 2015

Por Rui Sintra

A fim de oferecer suporte aos grupos de pesquisa com foco no estudo de compostos naturais que podem atuar como agentes terapêuticos contra diversas doenças, incluindo malária, doença de Chagas e leishmaniose, o National Institutes of Health (NIH), dos Estados Unidos, criou o projeto International Cooperative Biodiversity Groups (ICBG), no qual se inclui o Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (Cibfar), situado no Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP.
O objetivo da iniciativa é encontrar compostos com potenciais aplicações terapêuticas, a partir de bactérias que são simbiontes das formigas, incentivando o uso de recursos sustentáveis e reunindo especialistas de vários países em torno do tema. O Cibfar é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Nos formigueiros, existem jardins de fungos cultivados para o consumo de sua população – as formigas –, mas esses ninhos estão sempre sujeitos a inúmeras contaminações por outros micro-organismos, sendo que existem patógenos (organismos causadores de doenças) que podem atacar esses fungos. Com isso, há mais de 50 milhões de anos as formigas se associaram às bactérias capazes de produzir antifungos (produtos naturais), protegendo os formigueiros contra esses organismos. Esses produtos intrigaram os cientistas, nomeadamente os pesquisadores que atuam no IFSC, que há algum tempo têm estudado os citados compostos.

Cooperação – Entre as atividades do ICBG, o IFSC recebeu, recentemente, a visita do professor Jon Clardy, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e da doutora Flora Katz, diretora da Division International Training and Research, do NIH, que participaram de diversas reuniões com docentes e pesquisadores membros do Cibfar, com o objetivo de consolidar a cooperação entre as três instituições.
Segundo a professora Mônica Tallarico Pupo, que é docente da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP e coordenadora do Cibfar, a parceria entre a Universidade e essas duas instituições internacionais irá se consolidar por intermédio do citado projeto. “Nós já tínhamos uma parceria informal com Jon Clardy e Flora Katz, mas, com o desenvolvimento desse projeto, essa colaboração deverá se consolidar de forma muito mais intensa e próxima”, afirma.
Por outro lado, segundo o professor Adriano Andricopulo, docente do IFSC e pesquisador do Cibfar, que acompanhou os visitantes durante todo o encontro, a inserção do instituto nessa rede de cooperação é de suma importância, tendo em vista que a unidade tem grande interesse por pesquisas que visam ao desenvolvimento de fármacos para o combate de doenças como Chagas e leishmaniose. “Com esse projeto financiado pela Fapesp e o NIH, pesquisaremos moléculas que tenham uma diversidade química inédita, para desenvolvermos possíveis novos candidatos a fármacos”, afirma, acrescentando que os mais de mil substratos já encontrados serão analisados nos laboratórios do IFSC, o que eleva muito o grau de responsabilidade.

Agentes terapêuticos – A pesquisadora Flora Katz conta que esse projeto nasceu por meio do interesse em buscar novos caminhos para descobrir agentes terapêuticos, uma vez que há plena convicção de que existem milhares de moléculas capazes de solucionar doenças que ainda não têm cura. “Para que possamos tentar desenvolver fármacos efetivos, precisamos entender como funciona o sistema biológico desses micro-organismos”, explica. Ela ainda ressaltou a importância da cooperação entre as universidades e institutos de pesquisa para possibilitar o melhor avanço das investigações referentes à área de saúde.
O professor Jon Clardy, que atua no Departametno de Química Biológica e Farmacologia Molecular da Universidade de Harvard, ressalta a importância dos estudos envolvendo as pequenas moléculas biologicamente ativas, que exibem notável diversidade. Clardy diz que, por meio de estudos, já foi possível compreender alguns dos mecanismos genéticos dessas bactérias.
O pesquisador norte-americano também destaca a importância da colaboração que existe entre especialistas de diversos países que, mesmo atuando em diferentes áreas, têm como objetivo desenvolver novos fármacos, bem como estudar os produtos naturais liberados pelas bactérias antifúngicas. “Com o desenvolvimento desse projeto, vamos cooperar com a área da saúde e tentar desenvolver possíveis fármacos, inclusive, para o tratamento de câncer”, completa.
Para ele, também é preciso reconhecer a importância da existência desses micro-organismos, pois embora sejam responsáveis por muitas de nossas doenças, as bactérias também podem ter um duplo papel, podendo combater muitas patologias cujas soluções ainda não foram descobertas.

De São Carlos