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Parceria da Unicamp com indústria resulta no primeiro radar brasileiro

Publicado em 31 maio 2008

Grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) participou do desenvolvimento do primeiro radar genuinamente nacional, o Saber M60. O equipamento, projetado para proteger o espaço aéreo em um raio de 60 quilômetros e altitude de até 5 mil metros, foi testado nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro e está sendo usado pelo Exército brasileiro.

Os pesquisadores que desenvolveram a antena, dispositivo complexo e fundamental do radar, constituem o grupo do professor Hugo Enrique Hernández Figueroa, do Departamento de Microondas e Óptica (DMO) da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp.

O Saber M60 é apenas o primeiro de uma família de radares nacionais. O Exército, parceiro e interessado principal no projeto, busca aumentar a sua capacidade operacional, por isso encomendou estudos e pesquisas para um novo equipamento com 200 quilômetros de alcance. A empresa fabricante, a Orbisat da Amazônia, também tem planos de produzir radares mais específicos para o controle de tráfego aéreo, com raio de ação de 450 quilômetros e altitude de até 14 mil metros.

"É difícil estabelecer parcerias entre o meio acadêmico e a indústria, mas esta tem sido bastante interessante e produtiva para ambas as partes", avalia Hugo Figueroa. O professor credita boa parte do sucesso do projeto à formação intelectual dos dirigentes da Orbisat, os quais possuem doutorado e já estão habituados ao ritmo e aos entraves da pesquisa acadêmica.

A Orbisat tem sede em Manaus e dois centros de pesquisa e desenvolvimento: o de radares em Campinas e o de engenharia de eletrônica de consumo em São José dos Campos. "No final de 2005, diante da possibilidade deste contrato com o Exército, procurei o professor Hugo, que havia orientado um funcionário nosso no mestrado, para desenvolver a antena", afirma o engenheiro eletrônico João Roberto Moreira Neto, sócio-diretor da empresa.Mercado promissor — O engenheiro considera um marco o desenvolvimento de um sistema totalmente brasileiro, já que apenas oito países detêm a tecnologia de radares. "O mercado no Brasil é promissor. O Exército necessita de 40 unidades do Saber M60 e, considerando as demandas da Marinha e da Aeronáutica, a quantidade pode dobrar", prevê.

João Moreira revela que o preço deste primeiro radar é de aproximadamente R$ 3 milhões. O convênio com o DMO implica quase R$ 200 mil por ano. "Há outro grupo da FEEC, liderado pelos professores Rafael Santos Mendes e João Bosco do Val, responsável pelos projetos de rastreamento. Isso tornou a parceria economicamente viável, pois não tivemos de investir em laboratórios. A Unicamp foi um agente catalisador do projeto", explica.

Uma das aplicações do Saber M60 está na proteção do espaço aéreo de baixa altitude, que é mal controlado no País. Os grandes radares monitoram o tráfego de aeronaves apenas acima dos 5 mil metros. Assim como foi utilizado no Pan do Rio, o radar pode auxiliar na proteção de chefes de Estado ou em qualquer grande evento que exija medidas adicionais de segurança. A segunda aplicação está na vigilância das fronteiras.Formação — Figueroa comemora o bom retorno da parceria para a formação de recursos humanos: "Ao trabalhar sob pressão para o cumprimento de prazos, os alunos passam a entender como funciona a empresa. E a Orbisat, dirigida por quem já fez pesquisa acadêmica, teve muita tolerância, interpretando nossas dificuldades iniciais como uma situação temporária. Outra empresa, provavelmente, teria desfeito o contrato".

De acordo com o docente, os problemas foram superados e o projeto progrediu de forma exponencial. "A tolerância valeu a pena, pois passamos inclusive a inovar. Melhoramos o desempenho dessas antenas e chegamos a novos modelos. Tanto que já existe uma patente e vamos depositar outra".

Professor aposta em empresas nacionais

O grupo de pesquisa do professor Hugo Figueroa é um dos maiores da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC), com mais de 20 alunos de pós-graduação. Doze deles participam no projeto da Orbisat e alguns foram ou serão contratados pela empresa. "Temos outros projetos com a iniciativa privada e também nos associamos a um centro de excelência em pesquisa com aplicações em fotônica, o CePOF, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)", diz Figueroa.

O docente considera que a formação de recursos humanos precisa estar fortemente vinculada à indústria e, nos últimos anos, empenha-se em estabelecer parcerias com empresas nacionais. "Essas empresas, quando buscam a universidade, estão realmente interessadas na inovação, que para elas é uma questão de sobrevivência. As multinacionais, que mantêm seus centros de pesquisa e desenvolvimento distantes, não dependem do resultado dos investimentos em tecnologia que fazem aqui", compara.

Do Jornal da Unicamp