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Parasitas da Ciência, editorial da 'Folha de SP'

Publicado em 17 fevereiro 2003

Ao anunciar o compromisso com a ampliação do chamado 'programa de balcão', em oposição ao direcionamento político dos recursos, o futuro presidente do CNPq cria expectativas de mudança Numa economia que já foi vítima de sucessivas ondas de fugas de capitais nos últimos anos, a fuga de cérebros torna ainda mais difícil a retomada do desenvolvimento. O sistema nacional de inovação está muito longe dos padrões vigentes em países em desenvolvimento como a Índia ou a Coréia do Sul. São portanto animadoras algumas das intenções declaradas pelo futuro presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o médico parasitologista Erney Plessmann de Camargo. Em entrevista à Folha, ele reconheceu que sua prioridade estará no resgate da credibilidade da agência federal de fomento ao desenvolvimento científico. Motivos de desgaste não faltam, alguns de natureza a tal ponto estrutural que parece ingênuo ter esperanças. Como a política econômica continua subordinada a metas de ajuste fiscal draconianas, o contingenciamento de recursos deve prosseguir. Sem condições de investir em sua atividade-fim, a agência se consome no dia-a-dia da própria inércia burocrática, distorção que na prática privilegia clientelas habituadas ao xadrez corporativista, que relega a segundo plano a implementação de políticas de mérito. Ao anunciar o compromisso com a ampliação do chamado 'programa de balcão', em oposição ao direcionamento político dos recursos, o futuro presidente do CNPq cria expectativas de mudança. A referência nacional continua sendo a Fapesp, onde sistematização e transparência favorecem uma competição saudável por recursos. Competição que é possível, aliás, porque a agência paulista tem autonomia orçamentária garantida por lei, imune a contingenciamentos. O inchaço burocrático é outro empecilho reconhecido pelo professor, que constata como no setor público 'os cargos foram se acumulando'. Dirigido por um especialista no estudo de parasitas, o CNPq precisa ser reformado para servir melhor. (Folha de SP, 17/2) JC e-mail 2222