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Gazeta do Povo

Paraná fora da elite nacional

Publicado em 25 setembro 2010

O Paraná não tem nenhum curso de pós-graduação com qualidade máxima segundo avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação, divulgada na semana passada. A maior concentração de programas com nota 7 está na Região Sudeste. Encabeçam a lista a Universidade de São Paulo (USP), com 33 cursos, seguida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com 14 cada. Na Região Sul, o destaque é a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), terceira no ranking, com dez cursos. A avaliação vai de 1 a 7 e os conceitos 6 e 7 são dados apenas a programas com alto padrão internacional. A abrangência é o triênio 2007-2009.

As explicações para a inexistência de cursos com qualidade internacional no estado são variadas, mas estão ligadas, principalmente, à questão do financiamento. Enquanto a USP, por exemplo, tem planejado para 2010 um orçamento de quase R$ 3 bilhões, a UFPR ficará com apenas R$ 725 milhões. Além disso, o estado de São Paulo possui uma agência fomentadora de pesquisa, a Fapesp, que investirá até o final do ano R$ 400 milhões nos pesquisadores. No Paraná, o orçamento da Fundação Araucária, a agência estadual, é de R$ 28 milhões, quase 15 vezes menor.

Entre as universidades que encabeçam a lista das mais qualificadas também há outra semelhança: investimento em recursos humanos. No Rio Grande do Sul, por exemplo, muitos professores doutores foram estimulados a realizar pesquisas fora do país. Além disso, boa parte dos cursos nota 7 foi fundada na década de 60 e tem uma tradição na área. Para ter qualidade internacional, é preciso investir no intercâmbio de professor e também de alunos. Outro fator que pesa para a Capes é a publicação em revistas científicas de qualidade mundial.

Otimismo

Apesar disso, a perspectiva para o Paraná nos próximos anos é positiva. Só a UFPR abriu, nos últimos dois anos, oito novos cursos. Dos 56 programas avaliados, 17 melhoraram de conceito, 33 mantiveram ou não puderam ser avaliados porque são posteriores a 2007. O número de programas com nota 5 dobrou em relação à avaliação anterior, passando de nove para 20. Com as verbas do Reuni (Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), a instituição tem mais dinheiro para pesquisa, infra-estrutura e pagamento de bolsistas.

Para o coordenador de Programas de Mestrado e Doutorado da UFPR, Edilson Silveira, há fatores históricos que impediram que o Paraná ocupasse um lugar de ponta nas pesquisas. "Mas estamos crescendo a um ritmo chinês nos últimos anos", explica, em alusão ao crescimento acelerado da economia chinesa. "Quem faz mais pesquisa tem mais condições de concorrer a verbas. Quanto maior a produção científica, mais chances de angariar recurso. Por isso o prognóstico é favorável. Há muito espaço para crescer". A instituição também tem apostado na contratação de doutores.

Na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) o prognóstico é semelhante. Há cinco anos a instituição se transformou em universidade e passou a receber mais recursos via Reuni. Além disso, a contratação de professores foi ampliada. Dos 12 programas de pós, quatro eram novos e não entraram na avaliação e outros três não tiveram a avaliação completa porque iniciaram depois de 2007. Entre os cinco restantes, quatro aumentaram de nota. "A nossa expansão da pós é reflexo da ampliação da própria universidade", afirma o diretor dos programas de pós-graduação da UTFPR, Celso Kaestner.

Segundo o diretor, a UTFPR não pode ser comparada a outras instituições porque não oferta cursos em áreas como saúde e humanas. "Se compararmos só programas de engenharia, somos a número um do estado. Já criamos um polo de excelência." O país tem hoje 4.099 cursos e 85 foram descredenciados por não atingirem a nota mínima.

Bons exemplos

A doutoranda Suelen Neves Boschetto, 27 anos, é um exemplo de como a pós-graduação do Paraná vem ganhando destaque nos últimos anos. Aluna do programa de pós-graduação em Engenharia Elétrica e Informática Industrial na UTFPR, ela ganhou, em 2009, o prêmio Petrobras de Tecnologia. Suelen se graduou em Matemática Industrial na UFPR e depois já ingressou no mestrado da ITFPR. "Para mim foi fundamental, já que recebi bolsa de estudos e pude me dedicar em tempo integral."

A professora do setor de Agronomia da UFPR, Louise Larissa May De Mio, é ex-aluna de graduação da instituição. Após ingressar como professora, foi aos Estados Unidos fazer um curso de pós-doutorado. "Hoje a ciência avança muito rápido. Somente o curso de graduação às vezes não basta. Ficam lacunas em que é preciso mais especialização. Isso proporciona uma visão mais criteriosa ao profissional."

Alto nível garante inovação e autonomia

O desenvolvimento de cursos de pós-graduação com qualidade internacional é importante porque contribui com a inovação do país. Com a criação de novas tecnologias, o Brasil pode garantir autonomia em setores importantes. Hoje há uma média no Brasil de 1,4 doutores a cada mil alunos. Nos Estados Unidos são oito, Alemanha 13 e Suíça 23. "Na nossa sociedade o valor do conhecimento é ingrediente chave no desenvolvimento do país. Isso em qualquer área, desde a agricultura até o setor de serviços", diz o pró-reitor de pós-graduação da Unicamp, Euclides de Mesquita Neto.

Para o Paraná, ter esses cursos é a garantia de formar mão de obra intelectual com alta qualificação. "Há maior inovação e formação de uma massa crítica de pesquisadores", afirma o coordenador de Programas de Mestrado e Doutorado da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Edilson Silveira. Para o diretor dos programas de pós-graduação da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Celso Kaestner, os cursos de alta qualificação contribuem para o desenvolvimento do estado e a criação de produtos que trarão um diferencial econômico para empresas e sociedade.

Interatividade

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