Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Parafina no tanque, o foguete do futuro

Publicado em 02 outubro 2006

Por Da reportagem

Graças à crônica falta de verbas, entre outros fatores, o Programa Espacial Brasileiro nunca conseguiu alcançar grande destaque mundial. O acidente ocorrido na Base de lançamento de foguetes de Alcântara, no Maranhão, em agosto de 2003, na qual morreram 21 pessoas, piorou ainda mais a situação.
A base, criada em 1983, é tida como uma das melhores do mundo do ponto de vista geográfico. Por estar próxima da linha do Equador, ela permite efetuar lançamentos espaciais com grande economia de combustível - de 13% a 31% em relação a bases como Cabo Canaveral (EUA), Baikonur (Casaquistão) ou Rosaviakosmos.
Enquanto o Brasil 'patina' nesse bilionário mercado de lançamentos de foguetes, países como a Índia, por exemplo, já planejam para 2008 a sua primeira viagem à Lua. Será uma missão não- tripulada, cuja sonda, batizada Chandrayaan-1 deverá orbitar nosso satélite natural a uma altitude de 100 quilômetros, durante dois anos.
Mas, apesar disso, a ciência brasileira 'rema' contra a maré e surpreende o mundo mesmo diante de tantas dificuldades e indefinições.
Na Universidade de Brasília (UnB), uma equipe coordenada pelo professor Carlos Alberto Gurgel, está desenvolvendo um novo tipo de combustível, que além de muito mais barato que os similares usados atualmente, é também menos poluente.

Inédito
Ele é feito a partir de uma substância que pode ser encontrada na maioria dos lares brasileiros: a parafina comum, usada em velas, que depois de derretida é misturada a um corante e depois colocada em tubos de PVC, que, ao final do processo, transforma-se em grão.
Além dela, o propulsor, feito em alumínio, recebeu ainda com uma mistura de o óxido nitroso (N2O), uma tecnologia inédita na América Latina. "É o foguete do futuro", diz Gurgel, acrescentando que ele poderá alcançar até 50 quilômetros de altitude.
O novo veículo também apresenta alto nível de segurança, uma vez que seus combustíveis não são tóxicos ou explosivos. Eles também são de fácil produção e podem ser encontrados em abundância na natureza.
Segundo José Bezerra Pessoa Filho, chefe da Divisão de Sistemas Espaciais do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), vinculado ao Centro Técnico Aeroespacial (CTA), graças ao novo combustível, o custo de lançamento será 20 a 30 vezes menor do que o dos modelos atuais.
Segundo Pessoa Filho, a nova tecnologia permitiria manter as equipes das bases de Alcântara (MA) e da Barreira do Inferno (RN), localizadas próximo ao Equador, operando continuamente.
"Com esse foguete (e com lançamentos mais frequentes), poderemos testar dispositivos de segurança, sistemas de rastreamento das bases e a recuperação de foguetes em alto-mar, por exemplo", disse o chefe da Divisão de Sistemas Espaciais do IAE. (Com Agências Fapesp e UnB)

Para assistir:
Vídeo do lançamento do foguete brasileiro: http://www.unb.br/acs/unbagencia/ag0904-48.htm
Combustíveis usados em foguetes
V Sólido
O combustível e o oxidante são sólidos. A desvantagem é que os resíduos produzidos são tóxicos e instáveis. Uma vez iniciada a queima, não é possível parar a combustão.
V Líquido
O combustível e o oxidante são líquidos. Esse tipo de motor é complexo, caro e muito potente. É a tecnologia mais utilizada atualmente, e foi, inclusive, adotada pela Nasa em seus projetos. É volátil e perigoso, além de ser cancerígeno.
V Híbrido
Preparado em duas fases: o combustível é sólido e o oxidante pode ser gasoso ou líquido. É o mais barato e simples de ser trabalhado. A combustão pode ser parada, por isso, sua manipulação é mais segura. Não é tóxico e não causa doenças, além de não ser poluente.