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Paradoxos da inovação

Publicado em 09 novembro 2007

Agência FAPESP — Além de o Estado de São Paulo ter a maior produção científica da América Latina, nos Estados Unidos não há nenhuma universidade que forme mais doutores por ano do que a Universidade de São Paulo (USP) ou a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A comparação foi feita por Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, no painel "Políticas de inovação e parcerias público-privadas: o que precisa ser feito", nesta quinta-feira (8/11), na capital paulista, durante o seminário O Desafio da Inovação no Brasil.

Brito Cruz ilustrou com um ranking do número de doutores formados por ano em universidades paulistas e norte-americanas.  A USP aparece em primeiro lugar por formar, todos os anos, cerca de 2 mil doutores, seguida da Unicamp, com cerca de 870.  Em terceiro aparece a Universidade da Califórnia em Berkeley, com média de 769, seguida da Universidade do Texas em Austin, com 702, e da Universidade da Califórnia em Los Angeles, com 664 doutores formados anualmente.

 "Temos capacidade de produzir conhecimento altamente competitivo mundialmente, o que seria suficiente para inovarmos mais.  Mas, como o foco da inovação deve estar nas empresas, há forte desequilíbrio no aproveitamento dessa capacidade científica pela indústria nacional", disse.

Uma das causas é que, do total de cientistas brasileiros, apenas 23% (menos de 20 mil) desenvolvem pesquisas em laboratórios industriais, enquanto que na Coréia do Sul e nos Estados Unidos, por exemplo, cerca de 54% (94 mil) e 80% (790 mil) dos cientistas, respectivamente, estão empregados nas indústrias para o desenvolvimento de produtos e processos inovadores.

Brito Cruz apresentou outros dados que ilustram a relação entre a capacidade da indústria em ter idéias relevantes que podem gerar patentes e o número de cientistas trabalhando em seus laboratórios.  "Na Espanha, país cujas condições de trabalho se aproximam das brasileiras e que também não tem nenhuma universidade que forma mais doutores que a USP, Unicamp ou Unesp [Universidade Estadual Paulista], as indústrias têm muito mais capacidade de trabalhar com conhecimento científico do que as paulistas.  Naquele país, pouco menos de 60% dos cientistas trabalham na indústria", destacou.

De acordo com a Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica (Pintec 2005), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um terço das empresas industriais brasileiras, pouco mais de 30 mil, diz fazer algum tipo de inovação, seja em produtos ou processos.  O Estado de São Paulo reúne 35,3% das empresas industriais inovadoras e, do total do gasto industrial em inovação em todo o país, mais da metade (55,6%) foi efetuada pelas empresas paulistas.

Além da falta de cientistas na indústria, Brito Cruz afirmou que a desconfiança institucional dos empresários pode ser outra causa potencial da baixa atividade inovativa da indústria brasileira.  Ao citar a Lei da Inovação (10.973/04) e a Lei do Bem (11.196/05), o diretor científico da FAPESP ressaltou que, "como as estratégias de inovação das empresas são feitas para durar uma ou duas décadas, a falta de confiança na continuidade dos recursos concedidos por meio dos marcos regulatórios é também um grande problema a ser analisado."

Carlos Américo Pacheco, secretário-adjunto da Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, também presente no encontro, complementou dizendo que a atividade de inovação no Brasil pode ser comparada com um copo meio cheio ou meio vazio.

 "Não tenho dúvida de que fizemos razoáveis progressos nos últimos anos, a começar pela explícita inserção do tema inovação na agenda das instituições públicas e privadas.  Mas, por outro lado, nosso desempenho ainda é frágil devido à complexidade das políticas brasileiras de estímulo à inovação", afirmou.

O seminário foi promovido pelo Woodrow Wilson International Center for Scholars, instituto voltado ao debate de políticas públicas sediado em Washington, nos Estados Unidos, e pela Prospectiva Consultoria Brasileira de Assuntos Internacionais.

Foi o segundo de uma série de três seminários que pretendem avaliar necessidades para mobilizar o potencial brasileiro em inovação e desenvolver uma agenda sobre o tema, que será distribuída aos representantes de agências governamentais, empresas e comunidade científica.