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Paracelsus e os venenos

Publicado em 03 setembro 2015

Por Ciro Antonio Rosolem

É incrível como muitas pessoas, e a mídia em geral, tratam como venenos.....os defensivos agrícolas. Será que os antibióticos, os medicamentos que tomamos quando necessário, seriam também venenos? Afinal o que é um veneno? Paracelsus (ou Aureolus Philippus Theophrastus Bombastus Von Hohenheim – que viveu entre 1493 e 1541), tido por muitos como o pai da toxicologia, lançou o conceito de que o veneno depende da dose. Ou seja, tudo é veneno e não é veneno, dependendo da dose. Assim qualquer elemento tóxico é seguro em baixas doses. O fato que este é o caso dos produtos farmacêuticos e pesticidas. Por exemplo, atualmente se discute a questão do sal na mesa dos restaurantes. Isso também em dose elevada é veneno, bem como açúcar em doses elevadas, porque pode matar. Mais ainda, algumas substâncias, embora tóxicas em altas doses, podem ser estimulantes em doses muito baixas. Isto se chama Hormese, mas este é um outro assunto.

Tem-se constatado níveis acima do desejado de alguns ingredientes ativos nos seres humanos. Será que alguém já pensou que esse aumento poderia está relacionado com a dengue? As pessoas passam os inseticidas no corpo, diretamente, porque não querem ser atacados pelos mosquitos. O pesticida, no caso, como é protetor, não é tido como veneno. É usado diretamente no corpo, nas crianças, nos adultos, e quem sabe até no cachorrinho, de uma forma exagerada.

Se o índice de câncer está aumentando em função do consumo hortaliças e frutas supostamente fora dos padrões, isto quer dizer que o nosso índice de consumo destes produtos está aumentando? A OMS recomenda consumirmos ao menos 400 g/dia ou mais ou menos 150 kg/ano/per capita, no entanto consumimos somente 40 a 42 kg de frutas e hortaliças, isso na região Sul/Sudeste, que dirá Norte/Nordeste, onde o consumo é muito baixo, 16 kg. Na Itália consome cerca de 160 kg, EUA 99 kg e Israel 73 kg. Um pesquisador do INCA (Instituto Nacional do Câncer) afirmou que o consumo de hortaliças e frutas de boa procedência é um método preventivo de combater o câncer.

É lamentável a total desinformação que existe e persiste. Desde o pequeno produtor até, e principalmente, o consumidor. Infelizmente os órgãos responsáveis pela divulgação, esclarecimento da população, não tem tido a responsabilidade de construir bons artigos, reportagens com qualidade jornalística séria. Normalmente as reportagens exploram os pontos negativos da produção de hortaliças e frutas. É bom lembrar que o uso indiscriminado de defensivos agrícolas é crime. É bom lembrar ainda que quando usados na dose correta os defensivos agrícolas são inócuos ao ser humano. Lembra do Paracelsus?

A grande verdade, que encontra resistência sem sua divulgação, pois o pecado é mais interessante que a virtude, é que a produção de hortaliças no Brasil, a cada dia que passa, tem utilizado cada vez mais de boas práticas agrícolas, para produzir mais e melhor, com qualidade para atender a nossa população. Afinal, ainda precisamos consumir muito mais hortaliças do que consumimos atualmente.

Ciro Antonio Rosolem

Graduado em Agronomia em 1973, mestre (1978) e doutor (1979) em Agronomia-Solos e Nutrição de Plantas pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP. Cientista Visitante da Universidade da California, Davis, em 1984/85. Foi Diretor do Instituto de Pesquisas Meteorológicas da UNESP e coordenador do Curso de Pós-Graduação em Agricultura da FCA/UNESP. Professor titular da Faculdade de Ciências Agronômicas da UNESP. Foi vice-presidente da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo e é membro do International Plant Nutrition Council. Foi coordenador da área de agrárias da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Tem experiência na área de Agricultura, com ênfase em fertilidade do solo, adubação, fisiologia aplicada, crescimento radicular, sistemas de produção agrícola, rotação de culturas e ciclagem de nutrientes, atuando principalmente nas culturas do algodão, soja, plantas de cobertura e integração lavoura-pecuária.