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Para tentar engravidar, duas mulheres farão transplante de útero em SP

Publicado em 16 janeiro 2019

A medicina brasileira está prestes a ter uma grande conquista e trazer mais esperança para mulheres que sofrem de infertilidade. Duas mulheres que não conseguem ter filhos, com idade entre 30 e 35 anos, estão prontas para se submeter a transplantes de úteros de doadoras mortas no Hospital das Clínicas, em São Paulo. As informações são da Agência Fapesp.

O feito, apesar de surpreendente, não é inédito e aconteceu pela primeira vez no mesmo hospital de São Paulo. Em 2016, uma brasileira de 32 anos, que não teve o nome identificado, realizou o primeiro procedimento bem-sucedido de transplante uterino a partir de uma doadora morta e, 15 meses depois, deu à luz uma menina, que hoje tem 1 ano de idade. Assim como a mãe, a bebê está saudável.

Mesmo que o útero ainda não esteja na lista de órgãos possíveis de serem doados, cresce a possibilidade e os motivos para incentivar a doação. O fato de doar órgãos saudáveis pode se estender também para gerar vidas, transformando os desejos de mulheres que não conseguem engravidar.

Em países como Estados Unidos e Turquia, foram realizadas algumas tentativas com a mesma abordagem, porém sem sucesso. Na Suécia, referência mundial em pesquisas sobre transplante de útero, o número de mulheres submetidas às cirurgias com doadoras vivas que conseguiram engravidar é animador. Até o momento, 11 bebês nasceram após o procedimento ser realizado.

Apesar das excelentes expectativas e do resultado positivo conseguido em 2016, esse tipo de transplante não é indicado para todas as pessoas. São selecionáveis mulheres sem útero, em razão de problemas congênitos ou cirurgias, como foi o caso da mulher de 32 anos que passou pelo transplante no Hospital das Clínicas. Ela não tinha o órgão devido a síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser, embora os ovários produzissem óvulos.

A falta de doadoras vivas ou mortas, com idade até 45 anos e que tenham comprovadas a fertilidade do útero também é um problema. Mesmo com as limitações de público, o cirurgião fetal e professor da Universidade Federal de São Paulo, Dr. Antonio Moron, vê com entusiasmo o procedimento. “Esse é um grande avanço para a ginecologia e a obstetrícia brasileiras, ainda que as indicações sejam bastante limitadas”, disse em entrevista à Agência Fapesp.

Outra questão que gera descontentamento, é a incorporação da cirurgia pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que pode demorar a acontecer, como foi o caso do stent (prótese expansível usada para desobstruir artérias), que levou oito anos para ser aprovada pelo SUS.

A expectativa é que, com novos casos bem-sucedidos, a modalidade cirúrgica seja implementada em sistemas públicos de saúde, podendo assim ser uma alternativa de tratamento para a infertilidade, que hoje afeta de 10% a 15% dos casais. Desses, uma mulher a cada 500 apresenta infertilidade uterina irreversível, o que inviabiliza os tratamentos conhecidos para engravidar, como a fertilização in vitro.

Mesmo com tantos desafios e resultados ainda recentes, a modalidade cirúrgica chama a atenção de muitas mulheres que enxergam no procedimento uma porta de esperança para alcançarem o sonho de serem mães.

Felipe Maciel com informações da Agência Fapesp [revista Pesquisa FAPESP]