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ABC - Academia Brasileira de Ciências

Para se atingir um padrão de qualidade universitário internacional, a palavra é flexibilizar

Publicado em 27 janeiro 2014

Por Elisa Oswaldo-Cruz

Poeta não é só quem escreve poesia, mas quem nos faz pensar e sentir ao mesmo tempo. Assim o coordenador dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da Fapesp e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências, Hernan Chaimovich, referiu-se ao palestrante Luiz Davidovich, físico da UFRJ e diretor da ABC. A ocasião foi o Simpósio sobre Excelência no Ensino Superior, realizado na Fapesp com apoio da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

E o palestrante fez jus à introdução. Davidovich foi enfático ao afirmar que o objetivo da universidade envolve ciência e conhecimento e é mais amplo, mais universal para a humanidade do que a geração de start-ups, ou seja, empresas geradas dentro da universidade. Ele mostrou trecho de artigo publicado pelo físico da Universidade de Columbia (EUA) Brian Greene no New York Times, contando de sua comoção ao receber uma carta de um soldado no Iraque que lhe escreveu para dizer que seu livro "O universo elegante", em que trata da busca de um físico pelas leis mais profundas da natureza, havia funcionado para ele, na solidão e dor da guerra, como um elo com a vida. Greene diz que "a ciência é a linguagem da esperança e da inspiração, possibilitando descobertas que incendeiam a imaginação e desperta um sentimento de conexão entre nossas vidas e o mundo que nos cerca." Davidovich destacou a frase final do artigo de Greene: "É um direito de toda criança e uma necessidade de todo adulto poder olhar para o cosmo e se sentir maravilhado, percebendo então que ele transcende tudo que nos separa."

Diferenciar o profissional e qualificar o ser humano

Ao abordar os grandes desafios para a educação superior no Brasil, Davidovich expressou vivamente sua posição de que o conservadorismo é um dos principais problemas e que o ensino brasileiro precisa estimular a criatividade, a ousadia, a inventividade. "Oferecer cultura geral, vivências artísticas. Desenvolver a capacidade de articulação dos estudantes, a habilidade de relacionar aspectos de diferentes áreas de forma criativa. Flexibilizar. Essa é a palavra."

No Brasil, os desafios para a mudança envolvem diversas questões, do ponto de vista de Davidovich: o conservadorismo das corporações, o conservadorismo dos colegas que resistem às mudanças de programa, a precariedade da governança na instituições educacionais superiores (IES), o financiamento precário e instável para pesquisa, a baixa qualidade da educação básica e uma educação científica pobre. "Aqui, apenas as universidades novas ousam em seus currículos. Nos outros países, são as universidades tradicionais que estão capitaneando as mudanças. As reformas curriculares nos Estados Unidos são notícia de destaque no New York Times", destacou Davidovich.

Comparando a situação da educação no Brasil e no mundo, Davidovich mostrou que a Coreia é o país que mais ampliou o percentual de pessoas com ensino superior completo nos últimos anos. No Brasil, esse crescimento vem ocorrendo muito lentamente, estando praticamente estagnado. Mas o país é o que mais gasta com educação - o que indica que os investimentos, provavelmente, não têm sido utilizados da forma mais eficiente. "Nosso sistema de educação superior está concentrado, numericamente, em instituições privadas. Apenas 15% dos estudantes brasileiros estão em instituições publicas, consideradas, no entanto, as que oferecem o melhor ensino", observou.

Além de conhecer peças de Shakespeare, saber a diferença entre um gene e um cromossomo também é importante para matemáticos, engenheiros ou sociólogos. Esse é o pensamento que permeia o novo currículo de Harvard, por exemplo, envolvendo interdisciplinaridade e a troca de experiências com outras áreas. Segundo Davidovich, todos os alunos - sejam de que área forem - têm que escolher algumas disciplinas de fora, dentre opções como Ciência dos Sistemas Vivos; Cultura e Crenças; Sociedades do Mundo; Ciência do Universo Físico; Os EUA e o Mundo; Racionalização Empírica; Racionalização Ética; Compreensão Estética e Interpretativa. "A formação geral dos estudantes é uma prioridade quando se quer, realmente, garantir a excelência de uma universidade. A ideia é expandir os horizontes."

Outro bom exemplo apresentado por Davidovich foi o do Departamento de Física do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), que investe num currículo flexível, com disciplinas de ensino de ciência, gestão e administração, direito, filosofia e história da ciência, ciência da computação, nanotecnologia, biofísica, todas elas envolvendo uma parte experimental obrigatória.

Documentos já indicavam o caminho

Os novos paradigmas para atingir a excelência na educação superior, em seu ponto de vista, incluem ainda a diversificação das instituições de ensino superior (IES), com mobilidade. "Isto significa dois a três anos iniciais de graduação durante os quais o aluno poderia circular entre diferentes tipos de instituições." A redução do número de horas em sala de aula também é fundamental, em sua opinião. "Devemos estimular o trabalho fora da sala de aula, tempo para trabalhar com projetos temáticos, para estimular a criatividade, tempo para imaginar, para inventar! Precisamos de mais tempo para lidar com alunos excelentes ou com aqueles com dificuldade na aprendizagem", destacou Davidovich.

O diretor da ABC observou que muitos desses tópicos e os exemplos de outros países já estavam apontados nas publicações da Academia sobre educação. A primeira, intitulada Subsídios para a Reforma da Educação Superior, já tem dez anos. "Algumas sugestões já foram incorporadas às políticas públicas mas, infelizmente, continua atual". As outras publicações - O Ensino de Ciências e a Educação Básica: Propostas para Superar a Crise (2008) e Aprendizagem Infantil também estão ainda muito atuais e estão disponíveis para download gratuito no site da ABC. Davidovich referiu-se ainda ao Livro Azul da 4ª Conferência Nacional de Ciência,Tecnologia e INovação (CNCTI), realizada em 2010, como sendo outra forte referência de novos paradigmas, pois apresenta diversas recomendações bastante atuais.

Cientistas e engenheiros

Destacando a importância dos engenheiros e pesquisadores em geral para o desenvolvimento de um país, Davidovich comparou dados significativos. O número de engenheiros por milhão de habitantes, por exemplo, é um deles. "No Brasil são 3,6 contra 26 na China, 40 nos EUA e 80 na Coreia do Sul. Menos do que 50% dos indivíduos formados em engenharia no Brasil trabalham na área. Isso é um reflexo do mercado de trabalho? Pode ser. Mas sugere também que a formação superior talvez não corresponda às necessidades desse mercado", apontou Davidovich.

Com relação ao número de pesquisadores por milhão de habitantes, os dados também não apontam para uma situação muito melhor. "Enquanto na Finlândia são 17, e na Coreia são 11, em nosso país a relação é de 1,2 pesquisadores por milhão de brasileiros." E onde estão esses pesquisadores? Nos países desenvolvidos, estão nas empresas. No Brasil, a maior parte está nas universidades. Enquanto que na Coreia 39% dos pesquisadores em empresas são doutores e 33% são mestres, no Brasil apenas 15% têm PhD. "A relação entre o gasto empresarial em pesquisa e desenvolvimento não tem evoluído no Brasil, mas vem crescendo significativamente em outros países em desenvolvimento", lamentou o palestrante.

O Brasil na contramão

Davidovich observou que a política de Estado visando à qualificação de recursos humanos no Brasil começou no inicio do século 20 e possibilitou a criação de empresas de ponta, como a Petrobras, a Embraer, a Embrapa e a Natura, por exemplo. "Mas não participamos da liderança da plataforma internacional de pesquisa. E excelência na educação superior inclui essa ambição, assim como a excelência em pesquisa. E isso é um problema no nosso país." O físico relatou que os investimento em pesquisa vinham ocorrendo numa linha ascendente até 2010 quando, infelizmente, sofreram uma queda brusca. "E em 2014 esses investimentos entram no negativo, porque o FNDCT [Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] - nossa maior fonte de recursos para pesquisa - passou a financiar também o programa Ciência sem Fronteiras."

Esse movimento, na visão de Davidovich, está na contramão do mundo. Ele apresentou manchetes de jornais e revistas de 2012 que chamam atenção para o crescente investimento em ciência feito por países como a China, os EUA, a Rússia e a Índia como estratégia para enfrentar a crise. O palestrante mostrou ainda artigo publicado na revista Nature em 2007 sobre a necessária reformulação das universidades para garantir a excelência delas no século 21 e um trecho de um estudo da Universidade de Stanford sobre o ensino de graduação, publicado em 2012, que destaca - entre outras excelentes considerações - que a inovação se faz nas empresas e não nas universidades. "Essa deve capacitar pessoas para que possam ter e desenvolver boas ideias. Inovação hoje em dia no Brasil é uma palavra usada para significar muitas coisas, que deturpam completamente o sentido original do conceito. Deveria ser substituída por invenção. Disso é que o Brasil precisa: de criatividade e originalidade. "

E de poesia, que nos faz sentir e refletir, para que possamos agir com inspiração.

(Para Notícias da ABC)