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Entre Livros

Para que servem as humanidades

Publicado em 01 junho 2007

Defecções são o pesadelo de qualquer sistema. "Traidores!", serão chamados. Desta vez, o traidor é um peixe graúdo. Lindsav Waters, o insuspeito editor-executivo da Harvard University Press — instituição quase centenária, das mais importantes do mundo, que hoje rende cerca de 100 mil volumes anuais —, resolveu chutar o balde e contar, numa série de conferências, reunidas no livro Inimigos da esperança, corno as humanidades foram massacradas nas universidades americanas.
O simpático traidor nos conta que o massacre se deu em dois tempos. Ao longo da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria, quando as universidades foram chamadas a desenvolver armas de destruição, despejou-se muito dinheiro nelas e tiveram reduzir sob pressão. Mais tarde, esse dinheiro impulsionou o desenvolvimento monstruoso da burocracia, que impôs uma nova cultura acadêmica.
Essa nova cultura visa a produtividade segundo parâmetros da moderna corporação. As editoras foram terceirizadas e perseguem lucros crescentes, em vez de publicar trabalhos de relevância cultural. O lucro liquido da editora da Universidade da Califórnia saltou de US$ 20 milhões no começo dos anos 60 para US$ 360 milhões três décadas depois. Em compensação, se antes se vendiam, em média, 1.250 exemplares por título, hoje se vendem apenas 275. A preferência do sistema pelas revis tas também colaborou para a decadência do livro. Se, em 1980, cerca de 65% do orçamento das bibliotecas era para comprar livros, hoje esse montante é de 20%, e os restantes 80% vão para revistas. Os sebos em torno dos campi se tomaram iguais aos desmanches para carros inservíveis.
A primeira conseqüência da hegemonia burocrática foi a desmontagem das estruturas de julgamento. No passado, para ingressar na carreira os professores eram avaliados pelos seus pares, apresentando sua produção intelectual que era lida e avaliada pelos departamentos. Esse procedimento se repetia nas editoras, por meio de pareceristas recrutados no próprio corpo docente. Os departamentos, hoje, já não avaliam coisa alguma: ao contrário, eles se fiam na lista exaustiva dos títulos públicos credenciadas, não lêem nem discutem a produção de ninguém, e as editoras não recrutam pareceristas entre os professores. Publicam segundo critérios de mercado. "A concessão da estabilidade acabou dependendo demais das decisões das editoras universitárias", diz Waters.
Quem demora para elaborar uma tese ou produzir um livro criterioso é um perdedor por definição. Assim como a loquacidade é a qualidade do professor, produtividade é a qualidade do editado. A par dessa emulação para escrever e publicar, desenvolveram-se teorias, como as de Stanley Fish, que, em síntese, dizem que ler é desnecessário. Além de pregar a inutilidade do livro e da erudição, Fish faz exortação em classe: Vocês já estão de posse de tudo aquilo que vão precisar saber".
Quando não se publica para ler, mas para fazer curriculum, a produção do saber genuíno se toma algo que atrapalha. O próprio valor do livro passou a ser o de novidade, e não de relevância, pois ele é sempre "fundamental", "decisivo", "definitivo" e... descartável. Reitores e editores definem o padrão editorial: o importante é não criar polêmica, nada de "Torre de Babel"; não perder "o foco" da área de especialização; produzir mais e mais. Os reitores são os vendilhões do templo, diz.
Lindsav Waters é um saudosista. Gostava mesmo daquela efervescência que existia nas universidades, nos anos 60 e 70 do século passado, que gorou graças às modalidades sutis de censura e defesa descarada do status quo. Mas ele ainda está preocupado com a qualidade critica dos livros em humanidades e não se deu conta de que o público desmoronou quando os tempos do inconformismo passaram.
Ele sabe que uma coisa tem a ver com a outra, e visto que as humanidades perderam o seu papel crítico, se pergunta: para que elas servem?
Ficou para trás aquele livro que "emerge do silêncio, não da cacofonia"; o pensamento crítico cuidadoso, não exibicionista.
O seu programa de redenção é curto e grosso: dizer "não" aos administradores; recuperar o governo da comunidade dos estudiosos; nada de complacência com o sistema; estar sempre pronto a dar explicações (transparência); olhar para coisas novas e desenvolver novas teorias; opor-se à iconoclastia dos livros. Mas a questão é justamente como se descontaminar da mentalidade da corporação.
O que Lindsay Waters não notou é que o mundo da corporação conquista corações e mentes em toda parte e que não haveria de ser diferente na universidade. Tampou co há antídoto para ele. Ao mesmo tempo em que a universidade se transformou de reunião de sábios em ninho de sabidos, a formado capital também mudou. O que conta hoje é o chamado "capital intelectual" ou "capital humano", não mais estar diante da máquina para realizar operações repetitivas. Qualificação é a palavra-chave.
Segundo o sociólogo argentino Osvaldo Javier López-Ruiz, da Unicamp, em livro recém-lançado, se nos anos 70 uma escada rolante ascendente era a melhor metáfora para descrever a percepção da vida pelos yuppies, hoje o sentido se inverteu: "A dinâmica do mercado é uma escada rolante que desce. E para a empresa dessa forma (...) e para a pessoa com relação à empresa". Se antes se era empregado, agora se é associado, colaborador ou terceiriza do. A corporação transnacional impôs seu padrão a toda a sociedade. E ela consome, acima de tudo, capital intelectual — que é o combustível que as universidades devem produzir, assim como as refinarias produzem gasolina.
Mas o antigo empregado virou "capitalista de si próprio" e tem de investir em si, especialmente em conhecimento. Ele consome livros, MBAs, cursos de vinho, cultura em geral. Até quando vai jantar em casa de um superior ele está fazendo "investimento em si próprio", na sua carreira. A demanda para freqüentar cursos universitários como "alunos ouvintes" mais que quintuplicou nos últimos anos nas universidades públicas brasileiras. Reflete um novo modo de se ver e de ser visto pelo mercado. A "mudança permanente, o aperfeiçoamento pessoal, o elogio dessa atitude, virou o mantra do nosso tempo", conforme López-Ruiz. Em outras palavras, "você é o seu projeto", se produz culturalmente como capital intelectual.
Desapareceu a categoria "recursos humanos" e surgiu essa figura do "capitalista de si próprio que Osvaldo López Ruiz descreve com maestria, indicando-a como substrato da nova ética que é o "espírito dos executivos das transnacionais".
Se antes o salário era o preço da força de trabalho obtido do enfrentamento entre trabalhadores assemelhados, agora assume a forma de um rendimento do seu "capital humano". Ao agir como uma "empresa" de si próprio, o trabalhador passa a ser a cápsula da subjetividade do capital. Sua "alma é a alma do capital. Ele tornou-se o coração da empresa ou, nas palavras de um executivo, "os acionistas põem a grana; eu ponho miolos", relata López-Ruiz.
O que os livros de López Ruiz e de Lindsay Waters têm em comum é o fato de mostrar como a nova cultura, que serve à lógica das corporações, tem de ser produzida em alguma parte, e a universidade é um terreno privilegiado. Por isso os editores criteriosos como Waters têm de ser sacrificados nesse novo altar da produtividade. Houve o desencantamento do mundo das humanidades e restou, de fato, apenas o livro como objeto — pois a nova cultura não tem os mesmos fundamentos humanísticos.
Também no Brasil os MBAs e fundações universitárias se voltam para servir o mercado e internalizam os critérios de produtividade. E sintomático que o CNPq, Capes è Fapesp já meçam professores e aluno, pela produtividade; teses têm de ser defendidas no máximo em dois ou quatro anos; "Se você não tiver o seu curriculum na Plataforma Lattes você simplesmente não existe!", diz um professor; e os artigos que verdadeiramente contam são os publicados nos últimos cinco anos. A cultura virou coisa que fica obsoleta. O oposto daquela caricatura do sábio oriental, que, quanto mais velho, melhor se torna.
O livro é o primeiro produto industrial da humanidade e sua forma se mantém inalterada desde a invenção de Gutemberg. Talvez ele nunca chegue ao fim, mas é certo que muita bobagem se escreverá visando a "produtividade". E muita bobagem se lerá, na fé de que se está diante do combustível mais precioso do "capital humano". As humanidades? Para que servem? Precisam esperar uma nova onda de contracutura.