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Para que serve o que é inútil

Publicado em 29 abril 2016

Por Regina Ribeiro

Nesta semana, vários pesquisadores paulistas criticaram a suposta afirmação do governador Geraldo Alckmin de que a Fapesp (órgão de apoio à pesquisa de SP) gasta milhares de reais com pesquisa inútil que não serve para nada. No centro do desabafo de Alckmin estão as pesquisas na área “das humanas”. O conhecimento na área de humanidades é algo tido por muitos como completamente dispensável.

Em março último, li um ensaio do professor italiano Nuccio Ordine que está lançando no Brasil o livro A utilidade do inútil. Um manifesto. No texto, Ordine defende o valor intrínseco do conhecimento enquanto patrimônio pessoal e coletivo que precisa ser incentivado e multiplicado sob pena de sérios prejuízos para as próximas gerações. Pelo tom do artigo, o problema não é apenas brasileiro.

Estou lendo outro livro que relata a repercussão de uma pesquisa feita pelo físico e escritor inglês C.P. Snow entre intelectuais das humanas e das ciências naturais, em 1959. Depois de pronta, ele fez uma conferência que se transformou no livro As duas culturas. É uma segunda leitura, traduzida no Brasil apenas no ano passado. A ideia do trabalho era verificar qual a raiz do estranhamento contínuo entre esses dois grupos.

O das ciências naturais acha que o pessoal das humanas anda com a cabeça na lua. Não sabe e nem quer saber o que se passa com o mundo físico. O das humanas considera a turma das exatas um magote de esnobe sem nenhuma sensibilidade com as coisas que dizem respeito ao social e ao comportamento humano.

Uma das conclusões a que Snow chegou dá conta do grave dano intelectual que essa realidade aponta. Mais de 60 anos depois tal litígio continua em alta. Para concluir, li no último fim de semana um ensaio e um artigo que falavam dos aspectos desconhecidos da chamada nova direita brasileira: a que vota abertamente no Jair Bolsonaro e que está incomodando – e assustando – muita gente.

Daí, lembrei: nos últimos anos, quantas pesquisas foram realizadas para se entender os hábitos de consumo dos novos ricos nacionais? Se houvesse mais empenho em pesquisar questões políticas e de comportamento – que não servem para nada –, talvez tivéssemos agora mais condições de entendermos tal fenômeno social.

reginah_ribeiro@yahoo.com.br

Jornalista do O POVO