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Jornal da Unesp online

Para que ideias virem bons negócios

Publicado em 25 novembro 2009

Por Daniel Patire

Presentes em quatro câmpus, as incubadoras de empresas garantem formação, infraestrutura e recursos para os pesquisadores transformarem seu projeto num empreendimento de futuroPresentes em quatro câmpus, as incubadoras de empresas garantem formação, infraestrutura e recursos para os pesquisadores transformarem seu projeto num empreendimento de futuro

 

Personagens recentes do cenário econômico brasileiro, as incubadoras de empresas são ambientes organizados para ajudar na concretização de novas iniciativas. Elas oferecem infraestrutura e serviços - como telefones e internet -, além de consultoria administrativa e técnica para micro e pequenas empresas ingressarem no mercado ou renovarem suas atividades.

Quatro incubadoras estão em atividade na Unesp, nos câmpus de Botucatu, Rio Claro, Guaratinguetá e Jaboticabal, reunindo cerca de cem empreendimentos. O tempo de incubação varia de um a três anos, período em que os empresários são treinados e capacitados para gestão, estudo de mercado e outras ações necessárias à sobrevivência de seus negócios.

"Antes, o papel das universidades se limitava a formação de recursos humanos e produção de pesquisas", salienta José Arana Varela, diretor-executivo da Agência Unesp de Inovação (Auin). "Hoje, elas são cobradas pela sociedade para transferir esse conhecimento em prol do desenvolvimento local." Parceira das incubadoras, a Auin gerencia a proteção intelectual do conhecimento gerado nos câmpus, em suas várias modalidades - como marcas, patentes, direito autoral e proteção de softwares, entre outras.

Geralmente, as incubadoras estão ligadas ao conceito de inovação, que envolve a criação ou aperfeiçoamento de produtos, serviços ou processos. Muita coisa pode ser considerada produto, de máquinas a novas variedades de plantas. Serviços são soluções elaboradas para resolver necessidades de clientes, por exemplo, um software para gestão de recursos humanos de uma empresa. Processos são maneiras de realizar certas atividades, como a organização de uma linha de produção industrial.

Sebrae promove apoio

O Programa Incubadora de Empresas do Sebrae-SP financia a instalação das incubadoras no Estado. Por meio de editais, a proposta investe em projetos com forte caráter inovador. Os financiamentos buscam garantir que a incubadora contrate os serviços que atendam às necessidades das empresas instaladas. Também são oferecidos serviços como consultorias sobre gestão empresarial e financiamento para participação em eventos, além de cursos para a capacitação dos empreendedores.

Do estudo ao negócio

Dissertações, teses e linhas de pesquisas da Universidade podem se tornar bons empreendimentos, segundo o gerente da Prospecta Incubadora de Base Tecnológica de Botucatu, Antonio Vicente Silva. "O importante é que elas possuam um elevado caráter inovador", ressalta.

A empresa Prime Embryo - Biotecnologia de Reprodução Animal nasceu do doutorado de Sara Yamaguishi Tomita na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), câmpus de Jaboticabal. Ela avaliou a viabilidade prática e o custo das gestações de bovinos de corte, a partir de embriões produzidos in vitro. "O trabalho demonstrou que a produção in vitro em larga escala para cruzamento industrial poderia ser uma atividade econômica viável, dado o baixo custo de produção dos embriões", diz.

A médica veterinária procurou a Prospecta e, após a análise inicial, o projeto passou para a etapa de pré-residência, em que Sara foi orientada por consultores na elaboração de um plano de negócio, com custos e análise de mercado detalhados. Nesse período, ela também frequentou cursos de capacitação do Sebrae-SP. "Um exemplo foi o Empretec, em que aprendemos a importância de valorizar a relação entre qualidade, eficiência e êxito empresarial, além de ações voltadas ao planejamento", relata. Com o plano aprovado pela incubadora, a Prime-Embryo começou a operar em 2009.

Criada em 2005, a Prospecta apoia, atualmente, 52 iniciativas, entre empresas pré-residentes, residentes, associadas e graduadas. (Veja quadro.) Gerida pela Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais (Fepaf), da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), a entidade tem a participação da prefeitura de Botucatu.

De acordo com Silva, a principal fonte atual de recursos para as empresas do Prospecta é o Pipe (Programa Fapesp Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas). O dirigente ressalta ainda que, até o final de 2009, doze iniciativas receberão financiamento do programa Prime (Primeira Empresa Inovadora). (Leia entrevistas sobre esses programas na pág. 8)

Graduação

O apoio do Pipe/Fapesp também garantiu a consolidação da Tece (Tecnologia e Ciência Educacional), empresa graduada há um ano pela Incubadora de Base Tecnológica da UNESP (Incunesp), do câmpus de Rio Claro. Nascida em 2005, a Tece desenvolve equipamentos educativos para deficientes visuais e pessoas com dupla deficiência - visual e motora. A responsável pelo empreendimento é a bióloga Aline Piccoli Otalara, que elaborou um protótipo de caneta e régua-guia para escrita em código braile.

O projeto teve a participação de pesquisadores do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE) e do Instituto de Biociências, do câmpus local, além de professores de braile e deficientes visuais. "Também fizemos parcerias, com a ajuda da Incunesp, com outras empresas já no mercado há mais tempo, com o Instituto de Cegos Padre Chico e com o Senai de Rio Claro e Itu", relata Aline.

Inaugurada em outubro de 2003, numa parceria da unidade de Rio Claro com a prefeitura e o Sebrae-SP, a Incunesp beneficia 14 empresas, entre residentes, associadas e graduadas. "Este modelo de nascedouro de empresas também contribui para ampliar as potencialidades econômicas de desenvolvimento para a região", reflete Peter Christian Hackspacher - coordenador da Incunesp e professor do IGCE.

Outras bases

Entre as 17 empresas apoiadas pela Inove - Incubadora para Inovação e Empreendedorismo, do câmpus de Guaratinguetá, seis receberão em breve os repasses da Finep. "A conquista desses recursos é um grande estímulo para os empreendedores, além de reforçar a credibilidade dessas empresas no mercado", afirma o gerente da incubadora, Altair Emboava de Araújo.

A Inove entrou em operação em 2006. Coordenada pelo professor Janio Itiro Akamatsu, da Faculdade de Engenharia (FE), contempla negócios tecnológicos e tradicionais. Além da FE, ela envolve o apoio do Sebrae-SP, prefeitura, Faculdades Integradas Tereza D´Ávila (Fatea) e Associação Comercial e Empresarial de Guaratinguetá.

Uma das primeiras empresas a se graduarem foi a Geniart Tecnologia Ltda. Criada pelos irmãos Lucas e André Martins em 2006, a empresa projeta websoftwares, isto é, programas e ferramentas para a internet, como a Venda Mais. "Numa incubadora, todos têm o mesmo objetivo e vão sofrer problemas parecidos", relata Lucas. "Assim, um empreendedor acaba passando experiência para o outro, gerando uma grande sinergia."

Agronegócio

Em 2005, o professor aposentado da FCAV Tomomassa Matuo, em parceria com pesquisadores da unidade e da USP de Ribeirão Preto, desenvolveu o EcoSpray F65, uma armadilha para cigarras - praga dos cafezais brasileiros.

Com o protótipo, Matuo criou a Ideia, dedicada ao comércio, pesquisa e desenvolvimento de máquinas e implementos agrícolas, sediada na Incubadora de Agronegócios de Jaboticabal - Inagro. "Eu sempre gostei de inventar máquinas, e não tinha ideia de que a invenção é apenas 10% do processo", esclarece Matuo. "Na incubadora, frequentamos regularmente cursos que nos orientaram sobre como nos tornar empresários."

Criada em novembro de 2005, a Inagro apoia projetos para o agronegócio e reúne 14 empresas - entre residentes e associadas. Administrada pela Fundação de Apoio à Pesquisa, Ensino e Extensão (Funep), vinculada à FCAV, conta com a parceria da prefeitura de Jaboticabal e do Sebrae-SP. De acordo com Fernando Mendes Pereira, professor aposentado de Jaboticabal e gerente da Inagro, a incubadora está também colaborando para a implantação de um Núcleo de Empreendedorismo junto ao Departamento de Economia Rural da FCAV. "O núcleo vai estimular os alunos a produzir projetos mais adequados à necessidade do mercado", explica.

Evelin Cristina Astolpho, coordenadora do Programa Incubadora de Empresas do Sebrae-SP, vê com otimismo o futuro dos negócios que estão nascendo graças a iniciativas como as promovidas na Unesp. Ela ressalta que, no Brasil, 60% das pequenas empresas vão à falência nos primeiros cinco anos de vida, enquanto 97% das que passaram pela incubação sobrevivem a esse período."O melhor resultado das incubadoras é o aumento da probabilidade de sobrevivência das empresas", comenta Evelin.

FINANCIAMENTO

Programas apoiam criação de empresas

Representantes de duas agências de fomento a iniciativas na área de inovação tecnológica falam dos objetivos e recursos envolvidos em suas propostas.

 

Fapesp estimula cultura empreendedora

A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), agência de fomento ligada à Secretaria de Ensino Superior, destina recursos para a pesquisa científica e tecnológica em micro e pequenas empresas paulistas. Para isso, utiliza o Pipe (Programa Fapesp Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas). De acordo com João Eduardo de Morais Pinto Furtado, coordenador-adjunto de Pesquisa para Inovação da fundação e professor licenciado da Faculdade de Ciências e Letras, câmpus de Araraquara, o programa promove a cultura de empreendedorismo tecnológico.

Jornal Unesp: Como o Pipe se insere nas políticas públicas de desenvolvimento?

Furtado: O Pipe é um dos componentes das políticas de governo voltadas para a geração de empresas de tecnologia. Ao longo de 12 anos, o programa ajudou a criar produtos e serviços inovadores. Também ajudou a difundir na cultura universitária uma série de novos conceitos, inclusive o de que conhecimento de qualidade pode servir também para produzir empreendimentos de qualidade. Talvez este seja o seu principal resultado, pois desenvolveu pessoas, capacidades empresariais e culturas de empreendedorismo tecnológico.

JU: Como funciona o programa?

Furtado: O programa é dividido em duas fases. O Pipe I serve para montar um conceito, e o Pipe II serve para desenvolver esse conceito. O Pipe I é como uma primeira tentativa para ver se o projeto vai funcionar. São recursos de até R$ 125 mil, com prazo de execução de nove meses. Se der certo, a fase seguinte é para desenvolver efetivamente o processo, e tem duração de 24 meses, com valor máximo de R$ 500 mil.

JU: Qual o papel das incubadoras no processo de Inovação Tecnológica?

Furtado: As incubadoras servem para auxiliar no processo de amadurecimento de empresas embrionárias, fornecendo uma série de mecanismos para que elas sobrevivam. Entretanto, elas podem induzir também a uma ilusão de facilidade. Por xemplo, após o período de incubação, essas empresas precisarão de investidores para se desenvolver. Para isso, por exemplo, precisam ter mecanismos de gestão aceitáveis pelo mercado.

 

Finep aposta na ação descentralizada

No início do ano, a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, lançou o programa Primeira Empresa Inovadora (Prime), que destinará R$ 216 milhões, em 12 meses, para empresas nascentes, por meio de uma rede de incubadoras. Segundo o coordenador da área de Subvenção e Cooperação da entidade, Marcelo Nicolas Camargo, o programa é focado na fase inicial dos novos empreendimentos.

Jornal Unesp: Como o Prime auxilia as novas empresas?

Camargo: As causas de morte das empresas nascentes devem ser analisadas sob dois aspectos. Geralmente, o empreendedor tecnológico é aquele que tem uma ideia, mas despende uma parcela grande do seu tempo em outras atividades, para a sua subsistência. O segundo ponto é que ele desempenha uma série de atividades, dentro da sua própria empresa, ligadas a administração, recursos humanos, logística, vendas, sem a capacitação adequada. Assim, concedemos R$ 120 mil de subvenção, que chamamos de Kit Prime, amarrada em quatro linhas específicas. A primeira destina uma verba para o empreendedor deixar de fazer algumas atividades, para se focar no seu empreendimento. A segunda linha deve ser a contratação de um gestor, para implantar as ferramentas administrativas. As outras duas rubricas seriam referentes a consultorias em marketing, para estabelecer estratégias de mercado, e de gestão, para poder avaliar, por exemplo, quanto custa uma patente.

JU: Como é operado o programa?

Camargo: O programa é operado de forma descentralizada por 18 incubadoras pelo país. São elas que abrem os editais para a contratação das empresas nascentes com projetos inovadores, no prazo de até 24 meses.

JU: Quais são as expectativas do programa com este primeiro edital?

Camargo: A estimativa era conseguir um número próximo a 1.800 empresas. Mas conseguir captar mais de 1.400 empreendimentos inovadores foi um sucesso retumbante. E esperamos que 60% a 70% dessas empresas saiam vitoriosas depois de dois anos. Até 2012, estima-se investir R$ 1,3 bilhão no Prime. E no próximo edital, que deve ser em 2011, devemos ampliar as agências operadoras e o número de projetos financiados.