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"Para mim é uma honra", diz brasileiro vencedor do Ig Nobel

Publicado em 03 outubro 2008

Demorou, mas aconteceu. Pela primeira vez na história deste país, brasileiros foram agraciados com o Ig Nobel, o Nobel da pesquisa esdrúxula, dado a estudos que "fazem você rir e depois pensar".

A honra coube ao arqueólogo Astolfo Araújo, da USP, e seu colega José Carlos Marcelino, do Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo, "por demostrarem que tatus são capazes de bagunçar sítios arqueológicos". Por incrível que pareça, o estudo é sério.

Em 2003, Araújo e Marcelino publicaram no periódico "Geoarchaeology" um estudo experimental que mostrava como o tatupeba (Euphractus sexicintus), ao cavar seus túneis, consegue misturar camadas de terra diferentes.

Isso num sítio arqueológico é um potencial problemão, já que nesse processo uma peça arqueológica depositada mais no fundo (e, portanto, há mais tempo) pode ser deslocada para camadas mais jovens do sítio e vice-versa, potencialmente induzindo o arqueólogo a erro.

A notícia sobre o estudo foi publicada na Folha em maio de 2003, e fez este jornalista nomear Araújo como candidato ao Ig Nobel ao humorista americano Marc Abrahams, editor da revista "Anais da Pesquisa Improvável" e organizador do laurel de gozação. Abrahams andava reclamando da falta de candidatos brasileiros. Como no Nobel de verdade, entre a indicação e a premiação às vezes se passam alguns anos.

"Para mim é uma honra", disse Araújo, que desconfiou quando recebeu um e-mail de Abrahams dizendo que queria "discutir o trabalho". O pesquisador, no entanto, se declarou surpreso com a premiação.

"Dentro desse ramo de arqueologia experimental, o que a gente fez não é de outro mundo", contou. Ele lista experimentos como o de um grupo argentino que enterrou cachorros sob tonéis de concreto para ver como o peso dos sedimentos agia sobre os esqueletos. Ou o de um arqueólogo americano, que lascava pedras com as próprias mãos e depois usava as lascas para cortar carne de elefante. A idéia era observar o desgaste do gume.

Mas ele não desdenha do potencial humorístico do próprio trabalho --feito no Zôo de São Paulo, dentro da jaula do tatu e sob o olhar atento de dezenas de crianças. "Os bastidores foram a parte mais divertida."

Entre os outros laureados, que receberam o prêmio ontem numa concorrida cerimônia no Teatro Sanders da Universidade Harvard (EUA), está Deborah Anderson, professora de ginecologia da Escola de Medicina da Universidade de Boston. Em 1985, num estudo no "New England Journal of Medicine", ela mostrou que não só a Coca-Cola tem efeito espermicida como a Coca Diet parece funcionar melhor ainda. Um grupo de médicos de Taiwan divide com ela o prêmio, por mostrar que refrigerantes não são contraceptivos.

A porta-voz da Coca-Cola não comentou a premiação.

O psicólogo Geoffrey Miller, da Universidade do Novo México, levou na categoria Economia por um estudo publicado em novembro passado na revista "Evolution and Human Behavior". Nele, usando dados de 18 voluntárias, ele mostrou que dançarinas de striptease ganham mais dinheiro no pico de seu período fértil.

Araújo só lamenta não poder ter comparecido à premiação, em Cambridge, EUA. "Torrei todo meu dinheiro de bolsa [em viagens acadêmicas]. Como é que eu pediria dinheiro à Fapesp para ir ao Ig Nobel?"