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Pará foi foco de novos surtos de febre amarela no País, apontam pesquisadores

Publicado em 26 junho 2019

Por Peter Moon  |  Agência FAPESP

Estudo do Instituto Adolfo Lutz, USP e UFPA confirma caminhos do mal desde anos 1980

A origem do vírus responsável pelo recente surto de febre amarela, o maior dos últimos 40 anos, foi traçada por cientistas brasileiros do Instituto Adolfo Lutz (IAL), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Pará (UFPA). Por meio de estudo molecular do vírus da febre amarela encontrado em macacos mortos e em mosquitos, estudos apontam que a linhagem causadora do surto ocorrido do fim de 2016 ao início de 2018 em todo o Brasil é um reflexo dos primeiros casos registrados no Pará, ainda na década de 1980.

A partir do Estado, o vírus infectou macacos e se espalhou por toda a região amazônica, chegando a atingir a Venezuela e o Suriname. logo depois, a partir do início dos anos 2000, por infecção de macacos, a doença migrou em direção às regiões Centro-Oeste e Sudeste, até finalmente chegar ao Sudeste do País , em 2013. As primeiras mortes de humanos em São Paulo ocorreram em 2016.

Resultados da pesquisa foram publicados na revista Scientific Reports. A investigação, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), foi conduzida por Mariana Sequetin Cunha, pesquisadora no Núcleo de Doenças de Transmissão Vetorial do Instituto Adolfo Lutz , com a participação de cientistas do Instituto de Medicina Tropical (IMT) Universidade Federal do Pará e da Universidade de São Paulo (USP). O projeto também teve apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

ROTA DA DOENÇA

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a febre amarela é endêmica em 47 países (34 da África e 13 da América Central e do Sul), incluindo o Brasil - em especial a região Norte. Desde meados de 2016, foram confirmados 2.245 casos da doença no Brasil, com 764 mortes, apontam dados do Ministério da Saúde. Até então, o ano 2000 tinha registrado o maior número de casos desde 1980, quando o governo começou a notificação. Na época, 40 mortes foram associadas ao surto.

Outra face do problema é a infecção de macacos pelos mesmos mosquitos que transmitem o vírus para humanos. A morte de primatas nos entornos des cidades é um dos sinais de que o vírus da doença está circulando em determinada região. Desde 2016, a vigilância epidemiológica dos estados do centro-sul do país – onde se concentra o surto – coletaram carcaças de mais de 10 mil macacos encontradas em florestas e parques. Entre os animais afetados há bugios (ou guaribas), macacos-prego e diversas espécies de saguis. O vírus da febre amarela foi detectado em 3.403 deles, indicou o boletim epidemiológico de febre amarela do Ministério da Saúde.

VÍRUS, MOSQUITOS E MACACOS

A febre amarela é uma doença aguda causada por um vírus transmitido a macacos e humanos por meio da picada de mosquitos infectados. Uma das características do quadro é a icterícia, que provoca uma coloração amarelada na pele e nos olhos.

A doença é causada por arbovírus (vírus transmitidos por mosquitos) do gênero Flavivirus febricis, da família Flaviviridae. A febre amarela silvestre acomete os macacos, que funcionam como hospedeiros do vírus, transmitido pela picada dos mosquitos Haemagogus e Sabethes. Já a forma urbana da febre amarela é transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti, o mesmo que transmite a dengue, a chikungunya e a zika.

Ainda que os mosquitos envolvidos na transmissão da febre amarela sejam diferentes, em ambos os casos o vírus e os sintomas clínicos são idênticos. No Brasil, a forma urbana da doença já havia sido erradicada. O último caso ocorreu em 1942, no Acre. Os que surgiram depois foram todos do tipo silvestre.

No ciclo de transmissão silvestre da febre amarela, o vírus circula entre os mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes e macacos bugios, pregos e saguis. Nesse ciclo, o homem é considerado um hospedeiro acidental, infectando-se ao entrar em áreas de mata e ambientes rurais.

No ciclo de transmissão urbana, a interação ocorre entre mosquitos da espécie Aedes aegypti e o homem, que nesse caso representa o hospedeiro principal. A febre amarela era endêmica nas regiões Sul e Sudeste no início do século 20. Foi graças a campanhas de vacinação, aliadas ao combate aos focos do Aedes, que a transmissão urbana foi erradicada.

Nas duas últimas décadas, foram registradas transmissões de febre amarela a humanos além dos limites da região amazônica, área onde a doença ainda é considerada endêmica. Foram registrados casos em humanos e em macacos na Bahia, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul.

A partir do fim de 2016, no entanto, a transmissão ganhou novas proporções. A dispersão do vírus alcançou a região da Mata Atlântica, bioma que abriga grande diversidade de macacos e onde o vírus não era registrado há décadas.

LINHAGEM JÁ TEM 40 ANOS

Para chegar às recentes descobertas sobre os caminhos da doença no País, os pesquisadores isolaram o vírus em cada uma das 67 amostras confirmadas - de modo a sequenciar seus genomas e compará-los com os genomas (disponíveis na internet) dos vírus de surtos pregressos de febre amarela, ocorridos entre 1980 e 2015, no Brasil e países vizinhos.

Com isso, foi possível traçar a origem da linhagem responsável pelo surto recente. Os resultados apontaram para a Venezuela e os estados de Roraima e Pará - o que está de acordo com estudos prévios sugerindo que o surto de 2016 e 2017 se disseminou a partir da região Norte, espalhando-se por meio de um longo ciclo silvestre contínuo de mosquitos e macacos até chegar à região Sudeste.

O artigo Epizootics due to Yellow Fever Virus in São Paulo State, Brazil: viral dissemination to new areas (2016–2017), de Mariana Sequetin Cunha, Antonio Charlys da Costa, Natália Coelho Couto de Azevedo Fernandes, Juliana Mariotti Guerra, Fabiana Cristina Pereira dos Santos, Juliana Silva Nogueira, Leandro Guariglia D’Agostino, Shirley Vasconcelos Komninakis, Steven S. Witkin, Rodrigo Albergaria Ressio, Adriana Yurika Maeda, Fernanda Gisele Silva Vasami, Ursula Mitsue Abreu Kaigawa, Laís Sampaio de Azevedo, Paloma Alana de Souza Facioli, Fernando Luiz Lima Macedo, Ester Cerdeira Sabino, Élcio Leal e Renato Pereira de Souza, pode ser lido no site da Nature (com informações da Agência Fapesp),