Notícia

Agência C&T (MCTI)

Para encurtar distâncias

Publicado em 17 maio 2008

Por Ana Lígia Vasconcellos

Ao completar sete anos, a Casa da Ciência vai transformar em livro sua experiência de ser ponte entre a USP e alunos de ensino médio e fundamental de Ribeirão Preto e região.

Ainda sem previsão de páginas, a publicação deve sair ainda neste ano e irá retratar parte do trabalho desenvolvido pelos cerca de 4.000 estudantes que já passaram pelo programa desde sua criação, em 2001.

"Os alunos vão mostrar um pouco dos conceitos que aprenderam e dos trabalhos que desenvolveram, de forma bem didática", explicou Sandra Maria Spagnoli, professora de biologia de Luís Antônio que está colaborando com o livro.

A Casa da Ciência é esperança para estudantes de baixa renda que vêem a universidade pública como inalcançável. A maioria de seus freqüentadores é proveniente de escolas públicas e da periferia da cidade.

Seu projeto mais recente, Adote um Cientista, nunca formou tantos grupos como em 2008. São dez equipes, totalizando cem alunos de Ribeirão e região. Cada equipe passa pelo menos seis meses debruçada sobre um tema com acompanhamento de um pesquisador da própria USP ou do Hemocentro —ao final, o trabalho é apresentado aos demais grupos. No cardápio à escolha, estão as últimas descobertas científicas, como as ligadas a células-tronco, teoria do caos e base molecular do câncer.

"Quanto mais complexo o tema, mais os alunos querem saber", afirmou a professora Marisa Barbieri, coordenadora da Casa da Ciência. Muitas vezes, o que se ensina ali não está nos livros didáticos. "Quando os alunos têm contato com o que é mais atual, se preocupam em aprender a base. É o processo inverso", explicou a docente.

SEM ESTEREÓTIPOS

Quem passa pela Casa da Ciência sai diferente. Aprende a perguntar, se envolve mais nas aulas e desperta para o prazer de estudar sem ter que se preocupar com notas. "Eles saem do estereótipo de CDF. São taxados de rebeldes, porque não aceitam um 'porque não'", disse o professor Vinícius Moreno Godoi, assessor técnico da Casa da Ciência.

Na prática, o projeto encurta a distância entre a universidade e os alunos de escola pública. Dados do Ministério da Educação (MEC) mostram que 55% do ingresso nas universidades públicas brasileiras é feito por alunos de classe média e alta que estudaram em escolas particulares.

Contrariando as estatísticas, um dos estagiários do Hemocentro é Lucas Eduardo de Souza, ex-aluno da Casa da Ciência que cursa biologia na USP.

Outro exemplo de sucesso é Daianne Maciely Alves de Carvalho, 18 anos, que começou a freqüentar o projeto aos 11 e agora estuda farmácia em uma universidade particular com bolsa integral. "Quando participei aqui tive mais vontade de estudar e de me interessar por assuntos que a mídia discutia", disse ela, que foi um dos quatro únicos alunos da Casa da Ciência a se tornar bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Pré-iniciação científica vai decolar

Com a intenção de atrair ainda mais estudantes de ensino médio de escolas públicas para o meio acadêmico, a Universidade de São Paulo (USP) deu início neste ano ao programa de pré-iniciação científica, promovido pela Pró-Reitoria de Pesquisa da universidade.

Foram oferecidas 400 vagas em todos os campi da USP. Os alunos escolhidos receberão uma bolsa de estudos para incentivar a pesquisa, que deverá ser desenvolvida em uma das três principais áreas do conhecimento: exatas, humanas e biológicas. A iniciativa é fruto de um convênio entre a USP, a Secretaria de Estado da Educação e o banco Santander.

Segundo o professor Vinícius Moreno Godoi, assessor técnico da Casa da Ciência o trabalho será muito semelhante ao que é desenvolvido hoje na USP de Ribeirão Preto, com a diferença de que o aluno receberá uma bolsa no valor de R$ 100 durante um ano e terá que cumprir carga horária de 8h semanais. "Essa iniciação científica júnior é boa para estimular. Os alunos de escola pública verão que podem ser recompensados estudando", afirmou Vinícius Godoi.

RECICLAGEM

O programa é também uma oportunidade para os professores da rede pública, que poderão se tornar supervisores de pequenos grupos de alunos e também ficarão encarregados de desenvolver atividades em suas escolas de origem.

SAIBA MAIS

O programa educacional Casa da Ciência teve início em 2001 no Centro de Terapia Celular (CTC) do Hemocentro da USP de Ribeirão. Desde então, desenvolveu programas de ensino da ciência com professores e alunos de ensino médio e fundamental de pelo menos 30 cidades da região. (GR)

Dificuldade não é empecilho

Em geral acostumados a uma vida de privações, os alunos que freqüentam a Casa da Ciência não reclamam, segundo os professores ouvidos, da dificuldade de estudar temas tão complexos. "A vida deles já é sacrificada. A diferença é o foco no sacrifício", disse o professor Vinícius Godoi. Muitos, inclusive, acabam ajudando professores e colegas na escola de origem. "Eles têm um sonho de que é por aí que eles podem ascender socialmente", diz a professora Marisa Barbieri, coordenadora da Casa da Ciência.

"A gente tem que agarrar a oportunidade", confirmou Elivelton do Nascimento de Souza, 16, no projeto há três. "Antes, me preocupava em decorar matéria. Aqui, aprendi a aprender, a fixar os conceitos e ver que eles não podem ser analisados de forma isolada", disse o aluno de uma escola pública de Luís Antônio, que está revendo no 2º ano do ensino médio o conteúdo aprendido na Casa da Ciência quando estava na 7ª. Agora, ele está no grupo de células-tronco. Entre os recursos pedagógicos que seu professor, o pós-doutorando Lindolfo Meirelles, utiliza está a massa de modelar. "A primeira coisa que eles representam é a célula plana, porque justamente sempre vêem no livro a célula achatada. Aqui eles aprendem que ela é tridimensional, antes de irem ao laboratório para ver no microscópio." De volta ao projeto para escrever uma peça de teatro, Daianne de Carvalho conta que é uma das poucas de sua turma, no bairro José Sampaio, a ter entrado para o ensino superior gratuito. "Sei de duas outras pessoas que passaram no Prouni. O resto, se está cursando faculdade, é porque está pagando."