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USP São Carlos

Para além do Lattes: identificador digital serve como RG e currículo de pesquisadores

Publicado em 01 setembro 2021

Fapesp adotou o ORCiD para submissão de propostas; simples e prático, registro integra bases de dados e sistemas identificadores, além de validar informações em nível mundial

Teses reprovadas, formações falsas em universidades de renome, doutorados que nunca foram defendidos. Estes foram alguns dos escândalos envolvendo desde governadores até ministros da Educação que passaram pelo comando do Brasil. A valorização da atividade científica perante a sociedade se encontra diante de dilemas éticos: quem valida as informações inseridas pelo pesquisador nas bases de dados? A situação também pode prejudicar acadêmicos em casos de ambiguidade, semelhanças e nomes idênticos.

Desde 2016, a USP é membro institucional do ORCiD (Open Researcher and Contributor ID), um identificador digital mundial capaz de tornar única a identidade de cada pesquisador, pois utiliza um código alfanumérico que evita os problemas de ambiguidade ou semelhança entre autores. Ele facilita o registro de informações e automatiza a atualização das publicações e produções acadêmicas.

O registro é uma tendência mundial e tem a vantagem de validar os dados informados pelo autor, verificando sua autenticidade, caso a instituição de pesquisa seja vinculada. Quando não há vínculo, os dados inseridos pelo pesquisador não são autenticados, como acontece com a plataforma Lattes – sistema de currículo virtual mantido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Atualmente, grandes revistas científicas como Science, Nature e PLOS exigem a identificação ORCiD para legitimar a publicação de artigos.

Na avaliação do pró-reitor de Pesquisa da USP, Sylvio Canuto, é importante que pesquisadores e instituições tenham uma identidade internacional. Ele lembra que a eliminação de ambiguidades também é fundamental, já que evita registros impróprios de autoria e de instituição vinculada.

“Há casos de publicações da USP que não são reconhecidas e às vezes atribuídas a outras universidades, gerando distorções de dados. É muito importante que todos os docentes e pesquisadores tenham seu ORCiD e a Agência USP de Gestão de Informação Acadêmica tem feito um grande esforço nessa direção”, reconhece.

A agência elaborou um tutorial para auxiliar no registro e uso do identificador e realizará um webinar no dia 17 de setembro sobre criação, preenchimento e integração de dados com outros identificadores. A inscrição para o evento on-line é gratuita.

Tendência

Instituições como as universidades Harvard, Stanford, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Estadual Paulista (Unesp) utilizam o sistema, além de grupos editoriais internacionais, revistas científicas e agências de fomento à pesquisa, como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A plataforma possui cerca de 10 milhões de pesquisadores cadastrados, no mundo todo.

Desde este mês, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo (Fapesp) passou a adotar o ORCiD iD para identificar bolsistas e pesquisadores. A Fapesp anunciou que deverá exigir o registro a todos que submeterem propostas no Sistema de Apoio à Gestão da fundação, o SAGe. Até o momento, a identificação é opcional.

A USP totaliza 45.240 pesquisadores registrados em diversas categorias. O gráfico a seguir demonstra a crescente adoção do identificador ORCiD pelos pesquisadores da Universidade no decorrer dos anos, em âmbito mundial. O crescimento é compatível com o aumento do número de trabalhos publicados em revistas científicas com colaboração internacional.

Registros associados à USP

Entre os registros associados à Universidade, pouco mais de 12 mil estão vinculados ao Nº USP. Isto permite à USP autenticar, validar e atualizar automaticamente informações e dados corporativos públicos de sua comunidade, tais como vínculo empregatício, diplomas e graus de formação, prêmios, bolsas e mesmo publicações. A categoria que mais cresce é a de estudantes da Pós-Graduação.

De acordo com o presidente da Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica (Aguia), Jackson Bittencourt, o uso do ORCiD traz visibilidade internacional à Universidade, uma vez que rastreia a origem da produção intelectual. Ele também ressalta a importância da validação da atividade científica como forma de evitar os periódicos predatórios – que não submetem o conteúdo da publicação ao processo de revisão por pares.

“Há vários trabalhos com dados fictícios, sem o ORCiD, que foram publicados. Quando se procura o pesquisador, ele não existe! Isso já foi feito para provar que algumas revistas são predatórias e afetam a credibilidade do pesquisador”, aponta. Bittencourt, que também é pesquisador na área de neuroanatomia, conta que os programas de pós-graduação da USP estão sendo estimulados a solicitar o registro ORCiD no momento da matrícula.

Além de facilitar o monitoramento de publicações, o ORCiD funciona como um currículo internacional, criando um ambiente de interação entre instituições, autores e agências de fomento. O registro serve ainda como backup dos dados dos pesquisadores, em caso de instabilidade dos sistemas públicos.

Com o aval do usuário, o registro pode ser integrado a diversas bases de dados, como Web of Science, e sistemas identificadores, como o próprio Currículo Lattes, Researcher iD e Scopus iD. Também é possível anexar trabalhos do Google Scholar na plataforma.

Cadastrado desde o início no sistema, o professor Paulo Artaxo – referência internacional em estudos sobre o meio ambiente – conta que o registro no ORCiD ajuda os governos, as agências de fomento mas, principalmente, o pesquisador. “Facilita a coleta das informações bibliográficas deles. É mais fácil para identificar revisores de artigos, valida cada atividade científica do pesquisador e é o futuro do trabalho de todos nós. É um identificador tão ou mais importante do que o seu próprio nome acadêmico”, afirma.

Para ele, a integração entre sistemas é essencial e estratégica, pela possibilidade de acompanhamento da evolução da carreira acadêmica. “É que todo mundo acha ‘ah, não! Vou ter que preencher um outro Lattes’, mas não é assim. Em cinco minutos, o pesquisador pode ter um identificador único que vai facilitar tremendamente sua submissão de projeto e papers”, reforça.

Open Researcher and Contributor ID

O ORCiD é uma ferramenta que permite ao usuário armazenar e gerir informações pessoais, como nome, e-mail, formação, ocupações profissionais, publicações, concessões, patentes e demais afiliações. O registro é gratuito e não proprietário, como é o caso de sistemas vinculados a grupos de revistas.

Embora se proponha ser um registro central, ter uma identidade ORCiD não impede o usuário de manter as outras páginas. Ele integra todos os outros identificadores e proporciona visibilidade internacional, facilitando a integração e validação de dados.

O registro ORCiD pode ser criado diretamente no portal https://orcid.org ou através da Aguia no endereço: https://www.sibi.usp.br/orcid

O ORCiD é uma organização sem fins lucrativos, mantida pelas instituições parceiras. Em contrapartida, os membros filiados adquirem uma série de benefícios na plataforma, como identificar inequivocamente pesquisadores e publicações. As instituições também recebem notificações em tempo real sobre as atividades de pesquisa e informativos mensais.

Tabita Said – Jornal da USP

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